Crítica | Bambi

O extenso catálogo de animações clássicas que a Disney deu vida desde os anos 30, indo de Branca de Neve e os Sete Anões, passando por Fantasia e chegando em Dumbo, apenas para traçar uma linha, podem ser reconhecidos como ricos objetos de estudo sobre como estes filmes atravessaram o imaginário de gerações das mais variadas idades. No caso de Bambi, todos conhecemos a história do cervo que nasce com a alcunha de príncipe da floresta e da tragédia que, mais à frente, se abate sobre sua mãe após o animal mal ter iniciado sua vivência na floresta. Travestido com a identidade ingênua das animações, Bambi é claramente nas entrelinhas uma mensagem sobre a violência iminente e o aflorar da sexualidade, tudo pincelado com os tons mais leves tão característicos da Disney.

Mas antes deste teor adulto e agressivo, Bambi é uma obra de grande sensibilidade e naturalismo sobre o cotidiano que desenha na vida dos animais que residem na floresta. Antes de sermos apresentados a Bambi após seu nascimento, por exemplo, conhecemos diversos animais em seus primeiros momentos após o despertar da manhã, nos ambientando no ambiente alegre, colorido e festivo da floresta, e quando somos apresentados ao personagem-título, já estamos muito bem ambientados e conscientes da primeira identidade do filme.

Identidade esta que, com as primeiras referências à chegada do homem, sofre mudanças melancólicas, pesadas, e a floresta adquire um ar cinzento, opressor, com a tragédia se anunciando através do caminhar silenciado e do levantar atento das orelhas dos animais. Disney é bastante preciso na transição entre estas atmosferas, e talvez por isso o grande acontecimento fatídico da animação tenha sido o responsável pelas diversas lágrimas que o filme leva seu público a derramar até hoje. É dilacerante.

Mas analisar Bambi ou qualquer outra destas animações clássicas da Disney é atestar o perfeccionismo com que a equipe de produção visual concebia seus cenários animados, e Bambi não foge à regra. Cada cena é como um belo quadro pintado em movimento, as cores dialogam entre si, o perfeccionismo da reprodução da floresta enche aos olhos, tudo é de uma finalização técnica impecável.

Talvez as questões mais pertinentes como laços familiares, morte e redenção sofram certa queda de ritmo quando Bambi se aproxima de seu clímax, mas é impossível não se render as nuances dramáticas de Bambi, que mais tarde viria, de certa forma, influenciar um dos maiores clássicos do estúdio, O Rei Leão, como prova de sua atemporalidade nas escolhas narrativas para nos emocionar.

Bambi  – EUA, 1942
Direção: David Hand
Roteiro: Felix Salten, Larry Morey, Ralph Wright
Elenco: Hardie Albright, Stan Alexander, Peter Behn, Thelma Boardman, Will Wright
Duração: 70 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.