Crítica | Band of Brothers

“Aos que trazem muita coragem a este mundo, o mundo quebra a cada um deles e alguns ficam mais fortes nos lugares quebrados. Mas aos que não se deixam quebrar, o mundo os mata. Mata os muito bons, os muito meigos, os muito bravos – indiferentemente.”

Adeus às Armas, de Ernest Hemingway

Contém spoilers

A reflexão de Frederic Henry, condutor de ambulâncias que protagoniza o romance de Ernest Hemingway, ocorrido durante a Primeira Guerra Mundial, é uma das mais poderosas já realizadas sobre a guerra. Adeus às Armas é baseado em sua própria experiência no conflito, que marcou profundamente a biografia de um dos maiores escritores norte-americanos. Duas décadas depois, a reflexão ganharia ressonância sem precedentes com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, ainda mais brutal e que deixaria um número estimado de 40 a 70 milhões de mortos. É de se esperar que o maior conflito bélico da história da humanidade crie também seus mitos e seus heróis. O cinema norte-americano tem uma vasta e ótima produção para tratar deles, abrangendo desde O Mais Longo dos Dias, co-dirigido por Andrew Marton, Bernard Wicki e Ken Annakin, em 1962, a O Resgate do Soldado Ryan, de Steven Spielberg, lançado em 1998.

Quebrando essa lógica, a HBO lançou em 2001 a minissérie Band of Brothers, que narra em dez episódios os feitos da Companhia Easy, pertencente ao 506º Regimento de Infantaria Paraquedista, da 101ª Divisão Aerotransportadora do exército americano. Se a narrativa oficial cristalizou seus membros como heróis de guerra, formando uma das companhias de infantaria mais corajosas e bem-sucedidas da história militar estadunidense, a brilhante minissérie produzida por Tom Hanks e Steven Spielberg mostra como as coisas se deram por dentro. Band of Brothers, baseada no livro homônimo de Stephen E. Ambrose, traz aos holofotes a narrativa dos homens e dos soldados e não a dos mitos. Para isso, um verdadeiro tour de force foi empreendido: três anos de produção e gravação, mais de 2000 figurantes, mais de 700 armas restauradas, cerca de 1200 vestes civis originais e um orçamento total de 125 milhões de dólares. Uma superprodução, sem dúvidas, mas que jamais abandona o conteúdo com vistas ao espetáculo.

Band of Brothers possui tudo o que o gênero de guerra exige para se estar em seu cânone. Há personagens multifacetados, que criam afeto no público, tornando cada baixa sentida como se o espectador estivesse inserido no cotidiano dos combatentes e sem que, para isso, sejam necessárias as caricaturas. Todos tem seus momentos de austeridade, de dor e também de alívio cômico. As cenas de combate são todas brilhantemente dirigidas (cada episódio com um diretor diferente), com a câmera tremulando a cada impacto de bomba ou morteiro, movendo-se e cortando ininterruptamente na tentativa de dar conta da desorientação experimentada no campo de batalha. As explosões que ocorrem no extracampo fazem cair estilhaços e destroços dentro do quadro. A realidade do combate é simulada como nunca se fizera. E em meio a tanto fogo cruzado, Band of Brothers vai desenvolvendo seus protagonistas, como os capitães Dick Winters e Lewis Nixon, o sargento Carwood Lipton e os tenentes Buck Compton e Ronald Speirs.

A trilha sonora composta por Michael Kamen é usada na medida exata. Ela se ausenta quando é necessário e reaparece com sensibilidade nos momentos mais afetivos. O tema principal tornou-se uma marca registrada da minissérie. A fotografia se destaca no quinto capítulo – Crossroads – por um belíssimo efeito granulado, que dá um tom introspectivo a um episódio que se passa em grande medida na mente do capitão Winters. Cenografia, figurino, maquiagem e efeitos especiais estão absolutamente irretocáveis. O ferimentos, as muitas mutilações dos soldados, todas as explosões que lançam seus destroços aos ares, as balas que cortam os ares sem cessar e o fogo que toma conta do campo de batalha – tudo é muito bem cuidado pela direção de arte. Conta-se que o esmero da equipe de produção era tanto que alguns veteranos da Companhia Easy foram convidados aos sets de filmagem para corrigirem possíveis erros.

O soldado e sua cólera

Um dos aspectos mais interessantes de Band of Brothers é trabalhar a humanidade do soldado. Se eles tem seus momentos de glória e heroísmo, também se fragilizam quando submetidos à enorme pressão do combate. Albert Blithe desenvolve uma cegueira histérica no campo de batalha (que coincide com as descrições mais clássicas dos quadros histéricos no século XIX, que variavam de paralisias não explicadas a cegueiras completas). Um dos melhores soldados de Winters – o tenente Buck Compton – vai se transformando pouco a pouco desde a operação Market Garden. A gota d’água para ele foi ver seus amigos Bill Guarnere e Joe Toye mutilados durante a batalha do Bulge, quando estiveram entrincheirados sob pesado bombardeio da artilharia alemã, que causou baixas de mais da metade de toda a companhia. Por maior que seja o cuidado da minissérie com seus aspectos históricos (o que não a isenta de erros), o belíssimo insert-shot na mão de Compton, que retira o capacete e o larga ao chão diante dos amigos feridos, nos lembra que estamos assistindo a uma obra de cinema e não a um documentário.

Buck Compton aparecerá infantilizado nas cenas seguintes, deitado em posição fetal, enquanto o narrador deixa claro que todos esses momentos de vulnerabilidade nunca couberam nos relatórios oficiais. Revela também a compreensão dos companheiros, que jamais o condenaram por entrar em colapso. Mas Buck e Blithe não são os únicos. Um soldado golpeia o amigo com sua baioneta ao despertar assustado em uma troca de turno em Bastogne. Outro tenta cavar uma trincheira com as próprias mãos, quase catatônico. Com certa dose de humor negro, Lipton começa a fumar quando uma bomba gora após cair em sua trincheira. Nixon afunda-se no álcool. Winters é atormentado pela lembrança de um jovem inimigo. Em Band of Brothers, os verdadeiros soldados não parecem mesmo caber nas clássicas histórias de heróis.

A ética na guerra: uma encruzilhada

Outra questão das mais importantes na minissérie norte-americana é formulada no episódio Crossroads. Cabe pensar a ética na guerra ou a guerra já viola qualquer ética possível? Ao derrotar duas companhias inteiras do exército alemão, a Companhia Easy, sob a liderança do capitão Winters, consegue mais uma façanha tática notável. Mas a imagem do primeiro tiro dado pelo capitão, contra um jovem da infantaria inimiga, não o abandona ao longo de todo o episódio. Dick Winters, por mais que esteja consciente de sua obrigação como combatente, não consegue equacionar o dever de soldado e o custo da guerra. Quantos jovens ainda precisariam morrer nos meses de conflito que ainda estariam por vir? Mas quantos morreriam caso os Aliados não levassem a cabo a sua missão de libertar a Europa? Como encontrar uma saída viável diante dessa autêntica encruzilhada ética?

Em Band of Brothers, há um claro embate de forças. O tenente Ronald Speirs jamais negou nem confirmou a história sobre o assassinato de um grupo de soldados alemães fora do campo de batalha, após lhes oferecer cigarros. O soldado David Webster dá uma barra de chocolate a um menino durante a campanha da Companhia Easy na Holanda. Se Speirs é o personagem mais dual de toda a minissérie, considerando uma distinção positiva ser reconhecido pela suposta infração ética, já que a guerra lhe parece ser mesmo a ruína de toda ética, seu companheiro de combate consegue ser gentil com aquele cuja geração irá reconstruir a Europa no pós-guerra. Os soldados de Band of Brothers matam para que um continente inteiro possa viver. Mas ninguém sai ileso desse dilema ético, afinal, os fins nunca parecem justificar os meios quando se desce tão fundo em nossa própria bestialidade.

Desígnio e contingência

Outra fixação temática que aparece – com força máxima no sexto e sétimo episódios, que tratam da batalha do Bulge – é a antítese entre o desígnio e a contingência no mundo mergulhado em guerra. Em uma conversa entre o enfermeiro Eugene Roe e sua colega Renée Lemaire, que se voluntariou para cuidar dos feridos em Bastogne, ele fala do atendimento aos combatentes como um desígnio que Deus lhe havia dado, ao que ela responde: “Deus não daria algo tão doloroso”. A enfermeira compreendia bem sua posição solidária e comprometida com o alívio da dor de seu semelhante como um sofrimento auto-imposto. Ao que tudo indica, a enfermeira de Band of Brothers acreditava que o sofrimento redime. Ela o escolheu. Nunca o recebeu como tarefa excelsa e pagou com a própria vida por ele. Sua amiga Anna, que aparece brevemente no sexto episódio, foi inspirada em Augusta Chiwy – uma enfermeira congolesa que também trabalhou em Bastogne cuidando de milhares de feridos. Chiwy morreu aos 94 anos, em 23 de agosto de 2015, e declarou poucos anos antes de morrer: “O que fiz foi muito normal”.

São muitos os momentos em que a contingência surge em Band of Brothers. Se uma bomba gora na trincheira do sargento Lipton, outra explode na de Muck e Penkala antes de George Luz alcançá-la. Outro soldado morre carregando pães ao atravessar uma rua em Haguenau, após ter sobrevivido à infernal batalha do Bulge. A guerra escolhe suas vítimas fortuitamente. Por isso, é natural ouvir o verdadeiro capitão Winters negando a si mesmo o título de herói no ato final da minissérie, pois as tantas mortes que os sobreviventes carregaram em suas lembranças trocaram a ideia do heroísmo pela simples ideia do absurdo – momentos em que o mundo subitamente deixa de fazer qualquer sentido. Se é verdade que qualquer homem pode experimentá-lo em qualquer esquina, como pensava Albert Camus, qual não deve ser a experiência com ele quando a guerra lhe poupa a vida, mas ceifa a de um amigo que combate a seu lado?

O ódio e seus tentáculos

O ódio está presente em quase todos os episódios de Band of Brothers. Dos insultos do soldado Webster às tropas alemãs derrotadas às execuções sumárias dos soldados rendidos. Das mulheres holandesas humilhadas em praça pública, em Eindhoven, por terem dormido com alemães ao justiçamento praticado contra um suposto comandante nazista em Berchtesgaden. O ódio se espalha por toda parte e é válido ressaltar que, muitas vezes, ele é praticado por americanos e outros aliados e não somente por nazistas. O discurso do general alemão à sua tropa, universal e facilmente reconhecível no de qualquer outro comandante, demonstra que o combatente alemão apenas cumpria seu dever na guerra, como qualquer outro soldado de qualquer país. É preciso diferenciar o soldado alemão médio do oficial de alta patente diretamente implicado no morticínio que se encontrou, por exemplo, no campo de Landsberg pela Companhia Easy. É notável o cuidado da direção de arte nesse episódio – intitulado Why We Fight – para representar fielmente como o campo foi encontrado, em 28 de abril de 1945.

Campo de Landsberg tal como encontrado pela Companhia Easy.

Em paz com suas biografias

Após tomar o Ninho da Águia, casa de campo localizada nos Alpes e dada de presente a Hitler pelo Partido Nazista em 1939, a Companhia Easy finalizava a campanha que havia sido iniciada na Normandia, durante a madrugada de 6 de junho de 1944. Uma foto foi tirada no local, com Dick Winters e seus homens reunidos enquanto tomavam os vinhos do Führer. O local hoje abriga um restaurante, mas também serviu de locação às filmagens da minissérie. Após a vitoriosa campanha na Segunda Grande Guerra, cada integrante da companhia seguiu um caminho particular. Houve quem se lançasse sozinho ao mar anos depois, para nunca mais ser visto. Também houve quem escolhesse uma vida reclusa, distante de todas as lembranças, mas reaparecendo em uma reunião de veteranos em 1981, pouco antes de morrer. Cada um dos homens da Companhia Easy traçou seu caminho em busca de uma vida pacífica a seu modo, em paz com sua obra, mas guardando as cicatrizes invisíveis que os conectariam eternamente. É acertada a escolha de Band of Brothers em guardar para o final a revelação da identidade dos veteranos que dão depoimento em cada início de episódio. A conexão emocional que consegue com isso é enorme.

Companhia Easy após a tomada do Ninho da Águia (foto colorida digitalmente)

Band of Brothers é possivelmente uma das melhores obras já realizadas sobre a guerra propriamente dita. Sem maniqueísmos nem grandes subtextos. A guerra in natura, representada por um esforço audiovisual mastodôntico e que se mantém, após quase 17 anos de seu lançamento, como um título obrigatório do gênero.

Band of Brothers – EUA, 2001
Direção: Phil Alden Robinson, Richard Loncraine, Mikael Salomon, David Nutter, Tom Hanks, David Leland, David Frankel, Tony To
Roteiro: Stephen E. Ambrose
Elenco: Damian Lewis, Donnie Wahlberg, Michael Cudlitz, Ron Livingston, Matthew Settle, Rick Gomez, Scott Grimes, Dale Dye, Dexter Fletcher, Shane Taylor, James Madio, Neal McDonough, Michael Fassbender, Eion Bailey, Frank John Hughes, David Schwimmer, Kirk Acevedo, Marc Warren
Duração: 705 minutos

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.