Crítica | Banzé no Oeste

estrelas 4

Quando se fala em paródias cinematográficas de qualidade, um dos primeiros nomes que vem à mente de um cinéfilo é o de Mel Brooks. Cineasta, ator e roteirista de origem judaica, Brooks foi responsável pela criação de comédias inesquecíveis do cinema como Primavera Para Hitler, O Jovem Frankenstein e Banzé no Oeste, este último, uma sátira de muitas camadas sobre o gênero-identidade dos Estados Unidos: o faroeste.

A trama de Banzé no Oeste se passa na cidade de Rock Ridge, em 1874, e nos conta uma história relacionada à Union Pacific, misturada com uma história de império do Oeste, onde temos um inescrupuloso empresário responsável pela ferrovia lançando mão de todos os artifícios criminosos para “espantar” os habitantes de Rock Ridge e então dominar a cidade. No entanto, a história muda quando o ineficiente Governador indica um Xerife negro e condenado à morte para salvar a cidade, mal sabendo ele que acabava de plantar a semente da avacalhação.

O propósito de Brooks em Banzé no Oeste fica bastante claro para o púbico já nas primeiras cenas: denunciar, exagerar e satirizar os preconceitos e modelos engessados da cartilha do western, misturando elementos clássicos e revisionistas do gênero além de colocar em seu universo elementos que não lhes são muito comuns. A comédia surge exatamente dessa exploração afetada e excêntrica da população nativa, de colonos e imigrantes dos Estados Unidos; da presença da indústria e chegada da tecnologia ao Oeste Selvagem e do choque ideológico entre o ambiente do século XIX, onde a história se passa, e o do século XX, onde o filme é produzido.

Levando em consideração essa sopa de estilos e ideias, Mel Brooks consegue um resultado aplaudível na direção, pelo menos a maior parte do longa. Ele faz de Banzé no Oeste um filme genuinamente hilário e brinca com o espectador cinéfilo, trazendo à tona flashes refigurados de No Tempo das Diligências, O Anjo Azul, Uma Cidade que Surge, Atire a Primeira Pedra, O Tesouro de Sierra Madre, Pavor nos Bastidores, Matar ou Morrer, dentre outros.

Há quem diga que o diretor “se perdeu” ao tentar elencar tantas referências e zombar de tantas coisas ao mesmo tempo, mas não podemos nos esquecer que o propósito do filme era justamente mostrar esse caminho da estranheza para o público, obrigando os atores a agirem como canastrões e jogando na tela as mais absurdas possibilidades que podemos pensar de um western.

O ponto fraco da obra, portanto, não está necessariamente na direção, mas no roteiro, em duas categorias específicas, a primeira relacionada às piadas homofóbicas, racistas, machistas, etc; e a segunda na solução escandalosamente fácil – mesmo dentro do deboche pretendido pelo diretor – que o Xerife propõe para resolver o problema principal.

Antes de mais nada, é preciso dizer que Banzé no Oeste não é um filme racista ou homofóbico ou de qualquer outra fobia psico-social, mas determinadas cenas e alguns diálogos realmente incomodam o espectador, mesmo àqueles que lidam bem com humor negro e entendem a proposta geral da obra. É aquela tênue fronteira entre o humor inteligente e ácido e o mal gosto, o que uma vez ou outra acaba aparecendo aqui. Isso acaba por diminuir a genialidade da paródia e, embora não a desqualifique, faz com que pareça algo que sabemos que não é.

A edição do filme (indicada ao Oscar na categoria) é bastante ágil e faz por si só um diálogo interno muito bom no filme, compondo sequências com contrastes entre os cenários e ironizando posições sociais, opondo o time dos bandidos ao dos mocinhos. Igualmente notável, a trilha sonora tem um papel cômico à parte, indo pelo mesmo caminho satírico adotado pelo roteiro e brincando com a enorme quantidade de referências culturais e cinematográficas – a cena em que são contratados os bandidos para acabarem com Rock Ridge é um exemplo disso.

Ao final do filme, Mel Brooks chuta todo tipo de construção diegética e adota uma linha metalinguística com a ensaiada “briga de saloon” – que aqui acontece no meio da falsa pradaria – invadindo outros estúdios onde outros filmes estavam sendo gravados e culminando com os protagonistas do filme assistindo a Banzé no Oeste no cinema. Sem apelação e com um genial exercício de bastidores + ficção, Brooks finaliza sua sátira ao western com o esperado término pacífico de boa parte dos clássicos do gênero, dado pela resolução do impasse e o cavaleiro solitário (nesse caso, os cavaleiros) afastando-se da cidade onde a aventura aconteceu. É uma despedida digna – e engraçada, se considerarmos o carro que pega os atores em determinado ponto da sequência – e condizente com a criativa loucura do diretor. O Selvagem Oeste nunca mais seria o mesmo depois desse banzé*.

* Banzé, aqui, não tem nada a ver com o personagem de A Dama e o Vagabundo. Trata-se de uma palavra do português brasileiro com provável origem africana e que significa “bagunça, briga, tumulto, desordem”.

Banzé no Oeste (Blazing Saddles) – EUA, 1974
Direção:
Mel Brooks
Roteiro: Mel Brooks, Norman Steinberg, Andrew Bergman, Richard Pryor, Alan Uger
Elenco: Cleavon Little, Gene Wilder, Slim Pickens, Harvey Korman, Madeline Kahn, Mel Brooks, Burton Gilliam, Alex Karras, David Huddleston, Liam Dunn, John Hillerman, George Furth
Duração: 93 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.