Crítica | Barbarella

– Você é uma mulher típica da Terra?
– Sou na média.

A carreira de Jane Fonda é vasta e variada, com a atriz ainda na ativa (e muito bela) hoje em dia, no alto de seus 80 anos. Mas o papel de Barbarella, que lhe valeu a fama de sex symbol, é, ainda, um dos mais comentados e lembrados por toda uma geração. E não sem razão, pois, apesar de o filme em si não ser nenhuma maravilha, ele é, por diversas razões – e Fonda sem dúvida é a principal – absolutamente inesquecível.

Mas, para apreciá-lo, o espectador de hoje em dia que não o tiver assistido, precisa realmente entender o contexto em que foi feito. Baseado em quadrinhos eróticos de ficção-científica criados pelo francês Jean-Claude Forest publicados de forma serializada a partir de 1962 e que foram considerados pornográficos apesar de estarem longe dessa classificação sob qualquer ponto de vista, o filme foi produzido pelo superlativo produtor italiano Dino de Laurentiis que dividiu os custos com outra produção sua do mesmo ano baseada em HQs, Perigo: Diabolik, de Mario Bava, inclusive com equipe técnica e atores duplicados. Como quase tudo que tem a mão de De Laurentiis, o espetáculo tem mais peso, com a história ficando, com sorte, em segundo plano. Em Barbarella, porém, a história é praticamente inexistente, não sendo muito mais do que uma sucessão de obstáculos que a personagem-título tem que ultrapassar para localizar o cientista Durand Durand, que teria criado uma arma que poderia acabar com a paz no universo.

Cada obstáculo é uma mera desculpa para Barbarella usar um figurino novo e transar com alguém, seja física ou virtualmente ou até mesmo com a ajuda de uma máquina (a Máquina do Excesso, um órgão de orgasmos, para ser claro). O erotismo quase aleatório visto nas primeiras tiras dos quadrinhos de Forest estão bem presentes, mas o que lá era uma reafirmação da mulher como uma personagem forte, que toma suas próprias decisões e faz o que quiser com seu corpo, no filme tudo soa como uma exploração do físico invejável da atriz, com modelitos que deixam seu corpo à mostra e que se rasgam facilmente, em sucessivas situações de donzela em perigo pontilhada com diálogos constrangedores – ou seriam hilários? – de tão ruins. Mas os mais pudicos não precisam revirar os olhos, pois não há cenas de sexo em si, apenas uma leve nudez (seios, na verdade) e a sugestão do ato sexual, com cortes que, de certa forma, fazem desmoronar toda a sexy construção – e exploração – da personagem.

A icônica Jane Fonda, por incrível que pareça, não foi a primeira escolha da produção, com Virna Lisi (a preferida de De Laurentiis), Brigitte Bardot e Sophia Loren sendo sondadas antes de Roger Vadim, o diretor, sugerir sua própria esposa. Mas Fonda nunca realmente sentiu-se bem no papel em razão da exploração exacerbada de seu corpo e isso transparece no resultado final, com momentos que deveriam denotar prazer que mais parecem direções cênicas forçadas e filmadas em takes intermináveis.  Mesmo assim, a sensualidade de Fonda exala por todos os poros de Barbarella, algo que ecoa também outras produções sessentistas que ajudaram na emancipação feminina.

Se por um momento conseguirmos tirar os olhos de Fonda – o que é difícil, sou o primeiro a admitir – veremos outros elementos para apreciar e não digo nem mesmo o curioso primeiro papel com falas do mímico Marcel Marceau ou da existência de uma Sala da Solução Final. O roteiro, escrito em colaboração por inacreditáveis oito pessoas, simplesmente é inábil na arte de contar uma história e no desenvolvimento de personagens. Portanto, se o filme tiver alguma chance de ser admirado, esse “detalhe”deve ser glosado e compreendido como uma bobagem qualquer que só tem um lampejo interessante, que é a visão angelical que Barbarella tem justamente ao parar no centro do planeta Tau Ceti, uma alegoria bíblica que se perde completamente no momento seguinte. Resta, então, procurar outros pontos de potencial destaque e eles existem, sem dúvida. O mais saliente deles é o design de produção de Mario Garbuglia que é um show de cenários fantásticos, criaturas extraordinárias e figurinos de se tirar o chapéu, estes ao encargo primordialmente de Jacques Fonteray, com Paco Rabane tendo trabalhado na roupa verde final da protagonista. Novamente, porém, devemos lembrar quem é o produtor e que tipo de produções ele sempre se especializou: visualmente loucas, mas demasiadamente econômicas. Portanto, assistir Barbarella não é muito diferente de assistir um episódio alongado da série clássica de Doctor Who nesses quesitos (ok, talvez seja uma comparação exagerada, mas prefiro pecar pelo excesso).

A fotografia de ninguém menos do que Claude Renoir é outro aspecto a ser comemorado, já que ele consegue fazer muito com os cenários em estúdio que servem de pano de fundo para cada pequena aventura de Barbarella. Renoir estabelece atmosferas diferentes a cada nova sequência, enriquecendo a experiência audiovisual e criando, ao mesmo tempo, uma necessária unicidade visual, mesmo considerando que Roger Vadim parecia estar no modo “qualquer coisa vale” para sua direção esquizofrênica e deslumbrada pela protagonista e efeitos especiais que, mesmo para a época, deixavam muito a desejar, a começar pelo estranhíssimo, mas absurdamente sensual striptease de Barbarella em gravidade zero que abre a película.

Barbarella é um produto de seu tempo e uma experiência sensorial lisérgica inesquecível e quase sem par se – e apenas se – o espectador souber realmente fechar os olhos para seus gritantes problemas e conseguir encaixá-lo em seu devido tempo. Mesmo que não consiga, Jane Fonda faz valer todo o esforço…

– Um anjo não faz amor, um anjo é amor.

Barbarella (Idem, França/Itália – 1968)
Direção: Roger Vadim
Roteiro: Terry Southern, Roger Vadim, Claude Brulé, Vittorio Bonicelli, Clement Biddle Wood, Brian Degas, Tudor Gates, Jean-Claude Forest (baseado em quadrinhos de Jean-Claude Forest)
Elenco: Jane Fonda, John Phillip Law, Anita Pallenberg, Milo O’Shea, Marcel Marceau, Claude Dauphin, Véronique Vendell, Giancarlo Cobelli, Serge Marquand, Nino Musco
Duração: 98 mim.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.