Crítica | Baronesa (2017)

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Algo de novo pousa sobre a produção cinematográfica brasileira. O registro da periferia não é uma novidade, inúmeros autores já fizeram isso de diferentes formas, basta comparar o espontâneo Babilônia 2000, de Eduardo Coutinho, com o quase publicitário Cidade de Deus, de Fernando Meirelles e Kátia Lund. O que há de diferente é a maneira que artistas se voltam às margens com um olhar no limite do documental e da ficção. Basicamente influenciados pelo português Pedro Costa e pelo argentino Lisandro Alonso, a auto-ficção marca um grande espaço nos catálogos de festivais, e já consagrou alguns grandes cineastas nacionais, como o brasiliense Adirley Queirós, diretor de Era Uma Vez Brasília, e Affonso Uchôa, que levou aos cinemas em 2018 Arábia.

O que há de tão impactante nos quatro cineastas citados (para não me prolongar nas inúmeras influências e continuadores desse modo de filmar) é o modo que conciliam seu formalismo e o espaço cedido às figuras ali representadas. Cavalo Dinheiro, de Costa, é a história de um bairro destruído em nome do desenvolvimento, um lugar já transformado em mito. Em volta dessa história já fechada, o cineasta português esculpe seu imaginário sem calar ou interferir aqueles corpos, pois ele acredita que eles são verdadeiras figuras cinematográficas.

O que acontece com Baronesa é exatamente o contrário. A diretora Juliana Antunes parece desconfiar no potencial das figuras que retrata, por isso age de forma manipuladora, sem espaço para o mito daquele lugar ou daquelas pessoas, mas sim para o que ela busca documentar de forma cirúrgica. O olhar feminino da diretora tem sucesso em não destinar-se aos homens daquela comunidade que sofre com a guerra do tráfico, mas sim em pousar nas duas protagonistas que procuram sair de lá em direção ao bairro Baronesa, a real utopia das duas. As duas protagonizam cenas fortes, que individualmente são marcantes, mas que não marcam qualquer consequência entre elas.

Outro elemento que marca não só Baronesa mas o cinema contemporâneo como um todo é o sequestro das minorias como forma de extrair arte. O olhar fetichizado sobre a favela e a vontade de transformá-la em produto destinado à alta classe é, no mínimo, perturbador. É a vontade de ser filantropo ao mesmo tempo que precisa manter o TCC da faculdade em dia, misturando o tesão burguês em mostrar a tragédia ao mundo mas sem chegar muito perto. Arriscando-se bem quando é um filme sobre o feminino, esquece de ser cuidadoso ao tratar da favela, do crime e da pobreza.

É logo no momento do clímax, em que o processo fílmico se revela. Quando há um tiroteio, a câmera deixa de expor aquela violência diária para correr buscando abrigo. Não se priva o público daquele choque por alguma questão ideológica, mas porque agora não só as personagens estão em perigo, também aqueles que filmam. Baronesa é um filme que olha mais para o próprio umbigo do que para seu foco de ação e não se preocupa diretamente com a realidade que é documentada. Na tentativa de fazer um filme sobre mulheres que vivem uma vida bruta, acaba criando uma exposição de pobreza para ser assistida de um camarote.

Baronesa – Brasil, 2017
Direção: Juliana Antunes
Roteiro: Juliana Antunes
Elenco: Andreia Pereira de Sousa, Leidiane Ferreira, Gabriela Souza, Felipe Rangel dos Santos
Duração: 71 minutos

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.