Crítica | Barracuda (1978)

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As barracudas são peixes assustadores. Alongadas, prateadas e com formato cilíndrico, as criaturas pouco carismáticas que vivem em águas temperadas e tropicais, alojadas próximas a formações rochosas e recifes, tendo em vista a abundância alimentar, possuem boca equipada por mandíbula repleta de dentes grandes em formato cônico, sendo os frontais semelhantes a presas ameaçadoras. Numa indústria que já fez uso dos tubarões, ursos, tigres, serpentes, polvos, lulas e piranhas, seria muito estranho não ter um filme com essa espécie naturalmente “monstruosa”.

Encontrar Barracuda foi uma das partes mais difíceis do meu exercício genealógico em busca das produções que surgiram na esteira do sucesso do filme de Spielberg. Dirigido por Harry Kerwin, tendo como base o roteiro escrito em parceria com Wayne Crawford, a aventura vendida pela campanha publicitária como um filme “mais temível que Tubarão” emula os elementos da aventura que lhe serve como referência, pondo como eixo da narrativa um cardume de barracudas assassinas, modificadas graças a um ineficaz projeto científico do governo.

Diante da situação exposta, Mike Canfield (Wayne David Crawford) precisa dar conta do problema. Ele é um jovem professor que desenvolve pesquisas na Universidade de Palm. Seu projeto gravita em torno da análise do grau de poluição das águas locais. Certo dia, enquanto recolhe algumas amostras, Canfield é surpreendido por alguns seguranças de uma poderosa corporação da região. Detido, o pesquisador é levado até o xerife (William Kerwin) e recebe uma advertência para deixar de “mexer com o que não deve”.

Após ser libertado, Canfield analisa as amostras recolhidas e observa graus estarrecedores de anormalidade na água. Junto aos seus resultados surge o xerife, desta vez, com um pedido de ajuda, pois algo de estarrecedor está acontecendo na região, pois muitos peixes e pessoas apareceram mortos sem uma explicação razoável. Bem a cara dos anos 1970, a aventura segue o rumo dos filmes semelhantes: a investigação, a busca por detalhes, o encontro com a criatura e o enfrentamento da corrupção dos poderosos envolvidos em tramas governamentais típicas da era Nixon.

O problema de Barracuda é que a sua condução narrativa não é divertida, tampouco entretém como Tentáculos ou Piranha. A obviedade do roteiro não chega a incomodar, pois os filmes de feras assassinas pós-1975 são praticamente iguais. A única mudança é a criatura escolhida. A condução musical de Klaus Schulze não acrescenta emoção, a montagem de Jane McCulley igualmente, tampouco a direção de fotografia de H. Edmund Gibson, profissional que podia ao menos nos ofertar imagens subaquáticas mais instigantes. O cartaz de divulgação, poderosamente bem desenhado pela equipe de design, ao menos, é bem interessante. Sensacionalista, exagerado e declaradamente parasitário do filme de Spielberg.

Curioso observar que mesmo exagerando, a fama das barracudas hiperbólicas desta aventura picareta está longe dos incidentes na vida real, mas não deixa de ser acionada quando uma pessoa passa por experiência tão desagradável. Em 2010, na Flórida, a jovem Karol Wira curtia o final de semana no iate da família, quando de repente, uma barracuda saltou da água e feriu gravemente o seu braço. Noticiado com sensacionalismo pelo The Sun, a situação lembrou uma situação semelhante no Brasil, na Praia de Guarajuba, um dos pontos turísticos mais famosos da Bahia, em 2016. Uma jovem mordida pelo animal ficou com uma cicatriz imensa, após ser surpreendida enquanto curtia o mar num dia de chuva e água turva. O ataque destes animais no litoral brasileiro não é comum, mas um ano antes da jovem baiana, o surfista pernambucano Edson Marconi afirmou com todas as forças ter sido atacado por um tubarão, mas os especialistas do Corpo de Bombeiros atribuíram o incidente e a ferida aos dentes da barracuda, criatura assustadora, mas não tão poderosa quanto os tubarões. Isso na vida real e no cinema, como o filme de 1978 é capaz de ilustrar tão detalhadamente

Barracuda — Itália, 1978.
Direção: Harry Kerwin
Roteiro: Harry Kerwin, Wayne Crawford
Elenco: Cliff Emmich, Wayne Crawford, Jason Evers, Bert Freed, Roberta Leighton, Rick Rhodes, Matt King, Denise Taylor, Leigh Walsh, Bob Hires
Duração: 98 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.