Crítica | Barravento

estrelas 4

Originalmente, Barravento não seria dirigido por Glauber Rocha. A Iglu Filmes, responsável pelo projeto, já tinha entregue o comando da câmera a Luiz Paulino dos Santos, que já a algum tempo conhecia Glauber e que trabalhara com ele em Pátio, da mesma forma que Glauber trabalhara na captação de som do curta-metragem Um Dia na Rampa, de Paulino, dois anos antes.

Quando concebido, Barravento tinha Rocha apenas como produtor, mas uma série de divergências artísticas e de concepção para o filme se puseram entre ele e Paulino, que romperam a amizade e se separam artisticamente. Com a demissão de Paulino, Glauber assumiu a autoria de Barravento e modificou não só a maior parte do elenco, como também mudou toda a essência do roteiro, deixando apenas a premissa original e o argumento dramático do filme, que possuía um apelo social latente, mas que ia por um caminho menos “raiz” ou menos plural que aquele almejado pelo agora diretor da fita.

Nas mãos de Rocha, Barravento se tornou um experimento cinematográfico tropical de “câmera na mão e ideia na cabeça“. O filme foi rodado em uma vila litorânea da Bahia, com uma comunidade de pescadores de xaréu. Na história que aí se desenvolve, há espaço para a incursão religiosa afro-brasileira, para uma forte crítica ao poder dos ricos frente ao abandono (inclusive governista) dos mais pobres e há espaço para o diretor criticar a desorientação dessa classe massacrada, que não consegue organizar-se para gritar contra sua exploração e se afunda em crises particulares, provocações e maior atenção a feitiços e festas do que deveria.

Com a montagem de Nelson Pereira dos Santos, o filme se tornou uma interessantíssima sucessão de eventos cotidianos observados de maneira dinâmica pela câmera e organizados de um modo bastante plural, seguindo, a rigor, um roteiro linear; mas ao mesmo tempo enveredando por caminhos não muito fáceis para um espectador pouco atento; caminhos esses que explorarão os dramas individuais, a raiz da fé em Iemanjá, a origem da proteção dos santos, os despachos para “pegar” os “não-protegidos”, e o amor arrasador.

Há algo que quase fica nas entrelinhas mas que escapa ao controle da sugestão, e aparece, de maneira bem sutil, no decorrer da projeção: praticamente nenhum indivíduo consegue controlar as forças que guiam a sua vida, sejam elas divinas, sociais ou passionais. Todos parecem presos a um ciclo de eventos já vistos em tempos passados – a família que foge da seca do sertão e chega no litoral para igualmente encontrar fome e desespero; os homens que lembram os tempos de criança, quando os mais velhos saiam para pescar de jangada de manhãzinha e voltava apenas ‘na boca da noite’… – todas essas lembranças criam uma espécie de prisão histórica que é passada de geração para geração. Vez ou outra surge alguém que enxerga as grades e faz algo além de reclamar do destino. Mas esses são segregados e chamados de rebeldes, desrespeitosos. Não há lugar para eles no grupo.

A introdução do filme já nos deixa claro essa visão do diretor. Os pescadores e habitantes da vila (e podemos ampliar isso para “o povo brasileiro”) acabam aceitando determinadas privações facilmente, muitas vezes justificando seus pesares como “vontade dos deuses”, algo contra o qual eles não conseguem fazer nada, apenas viver e esperar por uma intervenção divina. Fora a óbvia prisão social e política em que vivem, a mesma população se encarcera em crenças salvadoras que jamais os salvam.

A caminhada dessa população é filmada entre cânticos, palmeiras, berimbaus tocando, capoeira e conflitos de todas as formas. O “barravento” se arma. As forças, em algum momento, se encontrarão e farão de quase tudo um caos. Um caos mais metafórico, mais natural e simbólico do que concreto, sensível em sociedade. A última sequência da obra é clara em nos mostrar isso.

Glauber Rocha consegue realizar um trabalho notável na direção de seu primeiro longa, perdendo um pouco o compasso na segunda parte do filme, no largo desenvolvimento do drama de Aruã, que é filmado e montado com menos atração (e mesmo que isso tenha sido intencional, não foi uma ideia interessante porque destoa grandemente do restante do filme). A despeito disso, o encanto permanece. Os cânticos estão lá. O ciclo se fecha com mensagens de nova tentativa, de recomeço, de encontro de um par para suportar a perda de um favor social mágico: uma punição que muitos brasileiros, latino-americanos, terceiromundistas já sofreram na vida, seja de seu lado religioso imperante nessas sociedades, seja da pressão social vinda de seus semelhantes. Tentar, mesmo que inocentemente, sair da caverna dos conformismos com o “pão nosso de cada dia” não parece algo louvável aos olhos de quem não entende as oportunidades de mudanças trazidas pelo barravento. Dá trabalho demais.

Barravento (Brasil, 1962)
Direção: Glauber Rocha
Roteiro:  Luiz Paulino Dos Santos, Glauber Rocha, José Teles de Magalhães
Elenco: Antonio Pitanga, Luiza Maranhão, Lucy de Carvalho, Aldo Teixeira, Lidio Silva, Edmundo Albuquerque, Francisco dos Santos Brito
Duração: 78 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.