Crítica | Barrier

O nome de Brian K. Vaughan já deveria ser suficiente para merecer a atenção de qualquer pessoa que conheça o trabalho desse fantástico roteirista de quadrinhos. Claro que nem tudo é perfeito e coisas como a série Under the Dome, desenvolvida por ele com base em romance de Stephen King, podem e devem ser esquecidas. Mas, no domínio da Nona Arte, Vaughan, aparentemente, não consegue errar.

Com uma série de trabalhos mainstream tanto na Marvel (incluindo a criação do grupo adolescente Fugitivos) quanto na DC Comics, ele notabilizou-se, de verdade, com suas criações autorais na Wildstorm (selo da DC) com Ex Machina, Vertigo (também da DC) com Y: O Último Homem e Os Leões de Bagdá e, hoje em dia, na Image Comics, com Saga e Paper Girls. Mas Vaughan não para e, em 2013, juntamente com o artista espanhol Marcos Martín, fundou a Panel Syndicate, editora online que usa o “modelo In Rainbows” de pagamento: cada leitor estabelece o que está disposto a pagar pelas histórias exclusivas do site, incluindo a possibilidade de não pagar nada (o que, convenhamos, não deveria passar pela cabeça de ninguém). A iniciativa foi inaugurada com The Private Eye, colaboração de Vaughan com Martín e a colorista espanhola Muntsa Vicente. Ao longo dos anos, outras obras de autores diferentes foram publicadas, com uma sinergia interessante com a Image Comics que levou à publicação da referida The Private Eye também em papel, em edição de luxo, acordo que incluía a autorização da editora de Robert Kirkman para que Vaughan e Martín criassem e publicassem no Panel Syndicate o one-shot The Alien de The Walking Dead.

Uma proposta que você não pode recusar?

A mais recente colaboração da trinca de The Private Eye é Barrier, objeto da presente crítica. Publicada originalmente em cinco edições entre dezembro de 2015 e julho de 2017, a história saiu também em papel ao longo de cinco semanas seguidas pela Image Comics, em maio de 2018, obedecendo a orientação de “paisagem”, ou widescreen, digamos assim, da obra original, a mesma de The Private Eye, o que é perfeito para a leitura online, mas que funciona muito bem no meio físico também.

Barrier é, ostensivamente, uma história sobre imigração, lidando, de um lado, com a dura vida de um hondurenho tentando chegar aos EUA e, de outro, com um fazendeira texana tentando evitar que suas terras se tornem rota de um cartel de drogas mexicano. Mas, claro, há um twist que não é de forma alguma spoiler, já que é da essência da obra: ambos são abduzidos por uma estranhíssima raça alienígena e passam a ter que trabalhar juntos para entender o que está acontecendo. Mas se Barrier fala da barreira física entre países em sua superfície, em seu âmago a história é mesmo sobre outro tipo de barreira: comunicação.

Não estamos mais no Texas…

O que Vaughan faz é quase experimental, com um narrativa bilíngue inglês/espanhol, sem traduzir absolutamente nada, o que impõe a mesma barreira entre os personagens também ao leitor em uma escolha arriscada – por potencialmente afastar muita gente preguiçosa – e absolutamente sensacional justamente por colocar cada um de nós na pele dos protagonistas, já que um não entende absolutamente nada da língua do outro e menos ainda da língua alienígena que, em uma jogada muito bem bolada, é baseada não em fonemas/palavras, mas em cores(!!!). Portanto, é fundamental que Barrier seja lido ou no original ou vertido para duas línguas bem diferentes uma da outra, de forma que o muro anti-comunicativo seja erigido com eficiência.

E é por isso que a arte de Marcos Martín torna-se particularmente importante aqui. É perceptível o cuidado do artista em fazer de tudo para substituir palavras por imagens, permitindo que o leitor acompanhe a progressão narrativa sem depender da compreensão completa dos balões de fala, ainda que, claro, isso exija algum esforço (por isso eu disse que a história não é para preguiçosos). Claro que julgo a eficiência de Martín em alcançar seu objetivo de forma relativa apenas, já que tenho a sorte de compreender bem as duas línguas da publicação, mas a prova maior de sua capacidade está na edição #3, que é integralmente sem falas e ela funciona tão bem que a impressão que dá é que efetivamente lemos alguma coisa. Além disso, seus alienígenas são muito originais com o trabalho de cores de Muntsa realçando-os magnificamente, ao mesmo tempo que consegue estabelecer a diferenciação necessária entre o ambiente dentro e fora da Terra na intercalação de flashbacks que dão estofo às histórias pregressas dos protagonistas.

O que temos aqui é uma falha de comunicação…

Claro que a arte de Martín ganha muita ajuda do trabalho de Vaughan, que estabelece uma história de abdução simples e concisa, mas não banal. Inserido ali há críticas sociais de toda sorte que lidam com maestria com a questão da imigração sem discursos piegas ou sem precisar recorrer a alfinetadas diretas a quem quer que seja. Ele reconhece o problema, localiza-o na que talvez seja a mais famosa fronteira do mundo (sem guerras, claro) e relativiza o problema sem criar vilões ou mocinhos como nos acostumamos a esperar. Não, ele não entrega uma solução ao problema, mas usa sua arte para nos deixar enxergá-lo muito claramente para que tiremos nossas próprias conclusões.

Ao desafiar o leitor a ler algo bilíngue sem facilitar o caminho e ao usar a imigração para estabelecer uma alegoria para um problema maior ainda, Vaughan, Martín e Vicente estilhaçam barreiras que não deveriam existir mesmo. Barrier é, sem sombra de dúvida, uma HQ sui generis que merece toda a atenção dos fãs dos quadrinhos.

  • Nada ganhamos para fazer esse “jabá”, mas o Panel Syndicate é uma iniciativa tão fantástica que merece divulgação. The Private Eye – cuja crítica em breve teremos por aqui – está disponível por lá também em português e é um trabalho maravilhoso e extremamente atual. Convido a todos os leitores do Plano Crítico a darem um pulo por lá para conferir este e outros trabalhos e, se gostarem, a fazerem o download (sem DRM algum) mediante uma contribuição justa, claro.

Barrier (Idem, EUA – 2018)
Contendo:
Barrier #1 a 5
Roteiro: Brian K. Vaughan
Arte: Marcos Martin
Cores: Muntsa Vicente
Editora original: PanelSyndicate (digital), Image Comics (papel)
Data original de publicação digital: dezembro de 2015, setembro e dezembro de 2016, março e julho de 2017 (PanelSyndicate)
Data original de publicação em papel: maio de 2018 (Image Comics)
Páginas: 193

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.