Crítica | Barry Lyndon

estrelas 5

Quando Barry Lyndon foi lançado, no final de 1975, ele teve uma recepção morna, especialmente nos Estados Unidos, desapontando a Warner Bros. Sua carreira cinematográfica foi um pouco melhor na Europa, mas não tanto assim. Esse fator, juntamente com a duração de pouco mais de três horas com uma lenta cadência, normalmente fazem com que esse filme seja “esquecido” dentre as grandes obras de Kubrick. No entanto, esse é um erro que precisa ser reparado: Barry Lyndon é uma obra-prima, mais uma desse grande diretor.

Mais uma vez fracassando em sua tentativa de filmar a biografia de Napoleão Bonaparte, Kubrick usou sua extensa pesquisa histórica na adaptação do romance serial The Luck of Barry (depois relançado como The Memoirs of Barry Lyndon, Esq.) de William Makepeace Thackeray, publicado pela primeira vez em 1844, uma saga contando a ascensão e queda de um irlandês fictício chamado Redmond Barry. Kubrick famosamente já tinha sua completíssima bíblia de pré-produção para Napoleão (hoje disponível em forma de um magnífico livro da Taschen) e, imbuído desse espírito e usando de técnicas incríveis para capturar a atmosfera da Europa no século XVIII, ele criou um épico inesquecível, que fisga o espectador desde o primeiro segundo, ainda que o destino do protagonista seja claramente visível no horizonte. Mas é a jornada que interessa, não é mesmo?

E que jornada! Redmond Barry (Ryan O’Neal), privado de seu amor adolescente, sua prima Nora Brady (Gay Hamilton), tem que fugir para longe de sua vila natal e os eventos acabam fazendo com que ele se aliste no exército britânico que luta a Guerra dos Sete Anos, deserde, seja recrutado a força pelo exército prussiano, deserde novamente e, aos poucos, ele galga os degraus da nobreza. Todo o primeiro ato (o filme tem dois e um epílogo) que leva a exata metade da duração da película, vemos a transformação de Redmond Barry, o plebeu, em Barry Lyndon, o nobre (ou o quase-nobre, tecnicamente). Quando chega o intervalo, ele está em seu auge. O segundo ato, claro, é sua vertiginosa queda, basicamente causada por sua arrogância, violência e ganância.

Sim, gostar de Redmond é absolutamente impossível. Ryan O’Neal, talvez em seu único papel de real relevo, consegue encarnar muito bem o jovem inocente que se transformar no nobre insensível. Ele é quase um vilão em sua própria história e é muito difícil simpatizar com ele mesmo quando as tragédias passam a se abater sobre ele. Sentimos simpatia por Lady Honoria Lyndon (Marisa Berenson), com quem se casa por dinheiro, conseguimos simpatizar pela raiva que o filho dela (Lord Bullingdon, vivido por Leon Vitali, quando mais velho) sente por Redmond e sofremos tremendamente pelo destino do filho de Redmond com Honoria. Mas não conseguimos torcer por Redmond.

E Kubrick não tenta nos aproximar do protagonista como fez em Laranja Mecânica. O narrador, em Barry Lyndon, é um terceiro observador na história, observador esse que ão necessariamente podemos confiar e, junto com ele, passamos a passivamente caminhar pela vida de Redmond, vendo-o transformar-se completamente, trazendo tristeza e desgraça para todos em sua volta. Mesmo seus atos heroicos, como salvar a capitão prussiano Potzdorf (Hardy Krüger) tem motivos ulteriores, motivos esses que se resumem à sua necessidade de subir na vida a qualquer custo. Mas Kubrick, que também escreveu o roteiro, começa o filme como acaba, com um duelo e se, no primeiro duelo, vemos um Redmond movido por sentimentos verdadeiramente nobres, no último também vemos um vislumbre dessa mesma pessoa. É uma espécie de redenção em termos, um momento para nos dar esperança.

Mas o grande triunfo de Barry Lyndon vai além de sua inebriante história de ascensão e queda. Filmado quase que inteiramente em locação na Irlanda – tanto exteriores quanto interiores – a película é um tour de force fantástico, que realmente faz o espectador mergulhar na ambientação do século XVIII como, arriscaria dizer, nenhum outro filme havia feito ou viria a fazer.

Famosamente, Kubrick determinou, para desespero de seu diretor de fotografia John Alcott (que trabalhara em Laranja Mecânica e 2001), que, sempre que humanamente possível, a iluminação fosse 100% natural. Assim, na grande maioria das tomadas, a iluminação ou é gerada pelo sol ou por velas. Nas tomadas exteriores, durante o dia, o resultado é belíssimo, de uma naturalidade que é difícil de ver em épicos. As cores saltam aos olhos e as tomadas em plano geral são de uma perfeição técnica e simetria sem par. Reparem na composição das sequências, com a obsessão de Kubrick por paralelismos. Normalmente, o lado esquerdo da tela emula o direito e vice-versa, mas aqui o diretor consegue ir mais além ainda, quebrando o paralelismo absoluto com pequenos desvios, pequenos desequilíbrios do mis en scène.

Mas são as cenas de interiores que realmente tiram Barry Lyndon do lugar comum. Sem luz artificial, Alcott teve que se virar com a claridade entrando pela janela, frestas aqui e ali e muito contra-luz. E, se tirar um foto de um ambiente iluminado com velas é um trabalho hercúleo, imagine fazer o mesmo com uma câmera de filmar, para se alcançar um resultado aceitável. E o uso de velas permeia todo o filme e isso funciona não só para envolver o espectador na vida do século XVIII como, também, para criar imagens amareladas irretocáveis, além de sombras fantasmagóricas, talvez um prenúncio do destino dos personagens. Cada sequência parece ser tirada de pinturas clássicas, como as de William Hogarth, tamanha é a precisão do trabalho de Kubrick e Alcott.

O uso do som diegético também é fundamental para esse envolvimento e Kubrick faz questão de nos deixar ouvir passos pisando na grama, cascos de cavalo tocando o solo e o arrulhar de pombos na lenta, mas envolvente cena de ação final dentro de um enorme celeiro. E, em cima disso tudo, Kubrick ainda se esmera na escolha de uma trilha sonora clássica – Bach, Vivaldi, Mozart, Schubert e especialmente Sarabande, de Handel – que acompanha a progressão e regressão da complicada vida do protagonista.

É difícil escolher o melhor filme desse fantástico diretor, mas Barry Lyndon talvez seja o verdadeiro ponto alto de sua carreira. A afirmação é polêmica, eu sei, especialmente diante de sua curta, mas quase irretocável filmografia. No entanto, se o leitor der uma chance a esse filme, que exige paciência e calma, tenho certeza que, se ele já não está dentre os maiores em sua lista, subirá algumas colocações.

Barry Lyndon (Idem, Reino Unido, EUA – 1975)
Direção: Stanley Kubrick
Roteiro: Stanley Kubrick (baseado em romance de William Makepeace Thackeray)
Elenco: Ryan O’Neal, Marisa Berenson, Patrick Magee, Hardy Krüger, Steven Berkoff, Gay Hamilton, Marie Kean, Diana Körner, Murray Melvin, Frank Middlemass, André Morell, Arthur O’Sullivan, Godfrey Quigley, Leonard Rossiter, Leon Vitali
Duração: 184 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.