Crítica | Baseado em Fatos Reais (2017)

baseado em uma história real plano critico

A arte como instrumento de crise e o artista à beira de algum precipício sentimental ou comportamental voltam ao cinema de Roman Polanski, que em seu filme anterior, A Pele de Vênus (2013) também olhou para este cenário, focando no teatro. Aqui, o encontro artístico está na literatura, onde a metalinguagem ganha um sabor todo especial, tratada com certa competência pelo (hoje) infame diretor franco-polonês. Em maio de 2017, quando estreou no Festival de Cannes, a película foi acompanhada de protestos e novas reportagens, declarações e lembranças sobre os crimes de abuso ou assédio de menores cometidos pelo cineasta. Com menos oportunidades na indústria, o artista agarra com unhas e dentes as chances que tem para assinar mais um filme, o que dá às suas obras, desde O Escritor Fantasma (2010) um senso de urgência e desespero intrigantes, talvez com exceção de Deus da Carnificina (2011).

Baseado em Fatos Reais tem suas raízes no best-seller de Delphine de Vigan, uma auto-ficção com mesclas de thriller psicológico ao tratar do bloqueio criativo de uma escritora que recentemente lançou um best-seller, grosso modo, um Oito e Meio literário. Esta abordagem, que não é nova nem no cinema, nem literatura, ganha um tempero diferente nas letras de Vigan e aparece de maneira não muito bem medida no roteiro de Olivier Assayas e Polanski. O mistério imediatamente emperra a obra pela quantidade de pequenas cenas que o roteiro coloca, mostrando situações cotidianas cada vez mais opressivas para Delphine (Emmanuelle Seigner) e Elle (Eva Green), sugerindo e ao mesmo tempo negando a relação. Como no primeiro ato a apresentação dos personagens é feita a partir de algo comum (a protagonista cansada de uma noite de autógrafos), mantemos a paciência e a esperança de que o drama vá se desenvolver de maneira mais orgânica, o que não necessariamente acontece.

O roteiro dá e ao mesmo tira a sugestão, o mistério, algo que só no final é confirmado por François, o personagem inútil de Vincent Perez, que aparece como uma ponte de realidade no mundo de Delphine, algo minimamente aceitável porque também está relacionado ao Universo da literatura contemporânea, o que não dá sinal verde para sua colocação no roteiro. A mesma função seria muitíssimo melhor representada pelo agente de Delphine. Isso posto, fica claro que o roteiro emperra nas sequências de distração do público (afinal, o suspense precisa da dúvida e do ambíguo para avançar) e de contexto externo aos personagens principais, o que é ainda mais estranho vindo de um diretor como Polanski, que tem excelentes exemplos dessa mesma construção no currículo. Como consequência desse mal tratamento, o espectador começa a questionar a verossimilhança de algumas coisas, principalmente na aproximação das duas escritoras. Deste momento em diante, a bela trilha sonora de Alexandre Desplat começa a ser utilizada com absurdo efeito expositivo, estragando o suspense que poderia ser aumentado pelo silêncio ou por linhas mais simples e em baixo volume de piano, cellos e baixos.

Com atuações aplaudíveis quanto as de Seigner e Green, fica difícil para o espectador se desconectar. Nosso interesse e atenção se mantêm ativos diante das grandes performances e da inteligente abordagem visual de Polanski, mostrando-as num aspecto muitíssimo pessoal, de planos médios a primeiros planos sufocantes. Essa aproximação é benéfica para o filme como um todo, porque ressalta a sua melhor parte (a dramaturgia), a despeito da nossa indiferença e incômodos com o que acontece ao redor dos personagens — do meio para o final da fita o mar de clichês é imenso. Alguns até que são bem trabalhados, como aquele que carrega a referência a Louca Obsessão, mas a maioria não é. Antes de a revelação ser feita, aquilo que os roteiristas tanto temeram e tentaram “disfarçar” no início do filme, surge bem mais cedo do que deveria. A gente começa a adivinhar algumas coisas e entender o por quê os figurinos se alteram em bases de cores para as mulheres, ou por quê existe um determinado plano e movimento de câmera específico mostrando certos movimentos delas.

Quando o “mistério se resolve”, não existe real surpresa. O que ocorre é que a gente se vê livre de um peso levemente constrangedor, primeiramente evitado e depois arrastado por tempo tempo demais. O filme até volta a ter uma boa abordagem para o mesmo tema, na sequência final, mas não há tempo ou força para criar ou resolver mais nada. É apenas o encerramento lógico de uma boa e instigante história, em alguns aspectos, que é boicotada pela falta de tato do roteiro em aplicar bem elementos manjados da indústria ou em criar boas saídas para seus próprios problemas. Um Polanski fácil de se esquecer.

Baseado em Fatos Reais (D’après une histoire vraie) — França, Polônia, Bélgica, 2017
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Olivier Assayas, Roman Polanski (baseado na obra de Delphine de Vigan)
Elenco: Emmanuelle Seigner, Eva Green, Vincent Perez, Dominique Pinon, Camille Chamoux, Brigitte Roüan, Josée Dayan, Noémie Lvovsky, Leonello Brandolini, Elisabeth Quin, Damien Bonnard, Saadia Bentaïeb, Véronique Vasseur, Stanislas Moreau, Valérie Schiatti de Monza
Duração: 100 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.