Crítica | Bastardos Inglórios (Trilha Sonora Original)

bastards bastardos

estrelas 5,0

Obs: Leiam as críticas dos filmes dirigidos por Tarantino, aqui e das trilhas sonoras de seus filmes, aqui.

Finalmente. Um dos mais desejados projetos de Quentin Tarantino finalmente saía do papel na forma de Bastardos Inglórios, marcando também o primeiro longa de época do cineasta, que levava sua verborragia e ultra violência para a Segunda Guerra Mundial. No entanto, como traduzir essa aventura errante musicalmente? A solução inesperada foi apostar em uma trilha de western spaghetti, uma combinação que não poderia se mostrar mais apropriada.

Ennio Morricone, nenhuma surpresa aqui, é o nome mais que encontramos na trilha sonora. A começar com a maravilhosa The Verdict (La Condanna), que o italiano compôs para O Dia da Desforra, trazendo o icônico trecho inicial de Für Elise de Beethoven misturado com uma guitarra serena que antecipa um grande e ensolarado embate. É o clima perfeito para a chegada do coronel Hans Landa à propriedade dos LaPadite, servindo bem à ambientação e o contexto “fabulesco” que o próprio título do capítulo nos apresenta.

Antecipação também é chave para a primeira cena com o Urso Judeu Donnie Donowitz, uma das jóias brilhantes dentro da guerrilha dos Bastardos. Ao som de The Surrender (La Resa) (também de O Dia da Desforra), acompanhamos misteriosos instrumentos de sopro e pianos abafados enquanto as pancadas do taco de beisebol do agressor vão se aproximando. Quando a figura de Eli Roth enfim aparece em cena, a música explode em toda sua glória para um coral discreto, à medida em que o sopro aumenta. Tarantino, esperto, corta a música assim que o taco atinge a cabeça do oficial nazista, garantindo maior impacto à seu assassinato.

Voltaremos a Morricone em alguns instantes. Já que me peguei analisando uma cena específica de um dos membros dos Bastardos, melhor aproveitar a deixa para falarmos de outro sujeito marcado musicalmente: o sargento Hugo Stiglitz. Em sua apresentação digna de um seriado de TV, a narrativa quebra bruscamente para a entrada de Slaughter, música de guitarra forte e órgão típico de saloon (algo que certamente ouviríamos em algum grindhouse obscuro) que Billy Preston compôs para O Homem Impiedoso. É uma composição divertida que imediatamente confere um status de badass para Stiglitz, e é usado com precisão quando o personagem começa a se descontrolar diante de uma situação delicada.

Vale também mencionar a escolha genial de White Lightning, trilha de Charles Bernstein para Sob o Signo da Vingança, um dos clássicos dos anos 70 de Burt Reynolds. A faixa aposta em um tom bizarro e cômico, trazendo assovios, uma batida incomum e um característico uso de berimbau de boca. É certeiro por simbolizar o senso de estranhamento dos nazistas diante dos Bastardos e seus métodos, culminando na revelação da suástica marcada na testa de um dos soldados.

Então, temos o momento que dividiu muita gente. Apesar de todas as trilhas citadas anteriormente servirem como uma espécie de anacronismo, foi com Cat People, de David Bowie, que a brincadeira de Tarantino ficou escancarada. Canção feita para o remake de Sangue de Pantera, é utilizada de forma memorável em uma sequência que é literalmente um videoclipe musical no início do capítulo final da produção, antecipando o plano de Shosanna e sua recepção aos nazistas. Assim como a maioria dos usos musicais, confere grande poder à personagem, e o fato de termos uma música de Bowie em um filme de Segunda Guerra Mundial garante ainda mais personalidade própria para o filme; que em alguns minutos estabeleceria sua própria versão da História; como dizem os versos de Bowie, apagando o fogo com gasolina para uma conclusão explosiva.

Voltando a Morricone, temos mais duas faixas do mestre no álbum, mas vale apontar que não são as únicas que se encontram no filme. Estas incluem L’incontro Con La Figlia, assustadora e dramática peça de coral que explode durante a fuga inicial de Shosanna, Algiers November 1, 1954, faixa com inconfudível bateria militar que rende uma apresentação memorável para os Bastardos enquanto ajudam Stiglitz a fugir da prisão e Il Mercenario (ripresa), faixa que já havia utilizado bem em Kill Bill: Volume 2.

O que nos resta no álbum garantem dois momentos distintos. O primeiro deles é com Un Amico, onde uma inesperada reviravolta na relação de Shosanna com o nazista Fredrick Zöller ocorre – além de proporcionar um desfecho nada menos que operático para a situação, e o derradeiro é justamente nos créditos finais, com a espetacular Rabbia e Tarantella, marcada pelo uso em Allonsanfàn. A maneira perfeita para concluir uma obra perfeita, capaz de literalmente fazer o espectador sair da sessão dançando graças à energia de seus teclados e violoncelos.

A aula de História de Quentin Tarantino em Bastardos Inglórios acaba por render uma de suas trilhas musicais mais incomuns e surpreendentes, merecendo estar entre as jóias douradas da carreira do diretor.

Quentin Tarantino’s Inglourious Basterds: Motion Picture Soundtrack

Compositor: Various Artists
Gravadora: Maverick Records/Warner Bros
Ano: 2009
Estilo: Trilha Sonora

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.