Crítica | Bates Motel 4X04: Lights of Winter

estrelas 4

Obs: Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de Bates Motel aqui.

Uma das característica mais evidentes em indivíduos com traço de personalidade psicopata é a altíssima habilidade de manipular quem quer que seja, mentir com precisão e veracidade tremendas, fingir emoções e forjar — querendo ou não — situações onde sua aparente inocência e boa alma possam ser provadas por outros. Há um grande número de produções que já se dedicaram a mostrar essas pessoas, mas poucas delas conseguiram o poder e a excelência dramatúrgica que Bates Motel nos entrega, especialmente aqui nesta 4ª Temporada.

No episódio anterior, Til Death Do You Part, Norman parecia querer contra-atacar, dizer ao mundo que sua mãe tinha problemas e matava pessoas. Como adendo, a aparição rápida de Julian, que alguns espectadores acreditaram ser produto da mente perturbada do jovem Bates, trouxe cores diferentes para o plot central, abrindo caminhos para Norman, mesmo estando internado, algo que comprovamos aqui. A sequência daqueles eventos se dá de forma enérgica em Lights of Winter, trazendo novos problemas e culpas mas também alguma redenção para mãe e filho, o ponto mais irônico, cínico e interessante do roteiro.

Desde a internação de Norman em Goodnight, Mother, os textos nos apresentam várias máscaras para decifrarmos. Tentamos entender se os personagens estão falando a verdade ou apenas fingindo. Se sentem culpa ou medo. Se estão arrependidos ou enganando. O suspense ligado à vida cotidiana (às vezes, criminosa) dos que estão em torno do hotel se resolve de um lado mas apresenta novas preocupações de outro. Vejam por exemplo as consequências que Romero colhe pelo que fez com Paris na 3ª Temporada; a preocupação de Norma com o filho e o fato dela não se permitir ser feliz, como se sentisse culpa; as idas de vindas de Norman, que protagoniza um dos atos de redenção mais interessantes e essencialmente psicóticos do capítulo, uma versão diferenciada daquele teste realizado em The Immutable Truth. Em conjunto, esses momentos terminam de preparar o cenário da nova tempestade, se é que em um algum momento ela se afastou da linha central da série. Mas há algo diferente.

A despeito da visão do entorno, percebam que nesses 4 episódios o foco tem sido quase exclusivamente Norman. Quando Freddie Highmore não está em cena, a maioria das coisas parecem ter alguma coisa a ver com ele, ponto que toma praticamente a totalidade do episódio já que o ator sua contraparte, Vera Farmiga (ambos gloriosos e que devem ser indicados ao Emmy, principalmente Highmore) sustentam os principais núcleos narrativos da série, desde a 1ª Temporada. Tanto um quanto outro parecem vampiros sociais que além de seus próprios problemas, consomem pedaço por pedaço de todos à sua volta, engolfando-os em seus conflitos.

Cada um à sua maneira, mãe e filho se punem, se manipulam, se desejam, se amam e se odeiam e por mais que não tenham muita ciência disso, espelham esse comportamento para as pessoas ao redor. É considerando esse tipo de abordagem que conseguimos ver a ótima linha de ações mostradas aqui em Lights of Winter, cujo título traz muito mais informação e simbolismos do que percebemos à primeira vista.

O diretor T.J. Scott (Gotham) também não perdeu a oportunidade de fazer sugestões visuais através de seus planos e estrutura de direção. Percebam como ele e o excelente fotógrafo John S. Bartley (Lost, Vikings) criaram cenários que destacam a arquitetura dominando imponentemente o espaço e os personagens — os planos da casa dos Bates ao longe e Norma entrando no carro, não acreditando em sua felicidade; o belíssimo contra-plongée fotografado com pouca saturação, suavizando a ameaçadora e ao mesmo tempo oprimida figura de Norman no topo da escada da clínica; a bárbara sequência no strip club, destaque para as cenas na cabine de Norman –, todos eles dão informações em diferentes níveis sobre  os problemas em pauta esta vez. Neste universo, ninguém é feliz e a corrupção está em todos os lados. Cada vez mais a cidade se parece com aquela que vemos em Psicose.

Redenção, seja verdadeira ou falsa, é uma atitude tremenda para um personagem e, nos dramas, costumam a preceder reações extremas no oposto da régua. No próximo episódio já estaremos no meio da temporada. E vocês devem imaginar o que isso significa…

Bates Motel 4X04: Lights of Winter (EUA, 2016)
Direção: T.J. Scott
Roteiro: Philip Buiser, Carlton Cuse, Kerry Ehrin, Tom Szentgyorgyi
Elenco: Vera Farmiga, Freddie Highmore, Max Thieriot, Olivia Cooke, Nestor Carbonell, Craig Erickson, Alexia Fast, Damon Gupton, Jaime Ray Newman, Mercedes Gendron
Duração: 42 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.