Crítica | Batman (1989)

É tão irônico quanto curioso estudar a recepção dos filmes de super-heróis hoje, com a explosão pomposa de sua popularidade, em comparação com o que esse “gênero” especificamente enfrentou desde o fim dos anos 70, quando Superman – O Filme, de Richard Donner, solidificou-se como o primeiro ponto de referência nesse molde de trazer os filmes ao público maior. O próprio Superman de Donner, em especial, rapidamente perdeu o interesse com o público quando suas continuações, comandadas por outros diretores, levaram os trilhos do Homem de Aço para um lado totalmente desgostoso para aquela época.

E, na primeira metade dos anos 80, Batman não passava por uma situação diferente. O mais sombrio personagem da DC Comics decaía em sua popularidade, algo que só começaria a ser revertido por Frank Miller, em 1986, com Batman – O Cavaleiro das Trevas, e, quando a ideia original para o filme nasceu, diversos estúdios recusaram a proposta de uma abordagem mais próxima dos quadrinhos de Bob Kane e Bill Finger, criadores do personagem, uma vez que os produtores desejavam que a estética kitsch do seriado Batman e Robin fosse retomada, no objetivo de abraçar o lado mais comercial do projeto. Alguns anos e roteiros reescritos depois, o projeto tomou forma e foi anunciado publicamente com um orçamento de 15 milhões, e após passar por nomes como Ivan Reitman e Joe Dante, foi um bem-sucedido Tim Burton, recém-saído do sucesso financeiro Os Fantasmas se Divertem, quem assumiu o comando de Batman.

Não que, com isso, Batman logo tenha caído nas graças das expectativas do público. Rosto marcado por comédias como Fábrica de Loucuras e o próprio Beetlejuice, Michael Keaton enfrentou as investidas controversas dos ávidos fãs que, ao lhe associarem imediatamente com papéis cômicos, desacreditaram que o ator pudesse encarnar aquela persona sombria e amargurada do bilionário Bruce Wayne. E não somente isso, mas o próprio Tim Burton recusava a ideia de seu filme tomar um viés tão comercial, e o confronto com a autoridade dos produtores foi inevitável.

E, passados quase 30 anos dessa jornada para dar vida ao filme, sabemos o quão bem-sucedido foi Batman, seja por sua passagem fenomenal nas bilheterias mundiais, pelo ressurgimento de uma visão pulp do universo imaginado por Burton e que solidificou ainda mais sua marca autoral (e que seria aprimorada com excelência na continuação), ou a encarnação inesquecível de Jack Nicholson (cujo nome aparece antes de Keaton nos créditos) como o vilão Coringa, justificando as exigências do ator pelo alto salário e porcentagem nas bilheterias. Mais do que isso, Burton e cia. inauguraram uma identidade para os filmes de heróis que há anos e anos não é retomada, calcada na estética expressionista de sombras, luzes e cores.

Por mais que o tempo tenha envelhecido certos aspectos de sua abordagem (a posição de Vicki Vale, em especial, apesar de Kim Basinger estar absurdamente linda), é impressionante como os elementos trabalhados por Burton, ao lado do roteiro de Sam Hamm (e com consultoria do próprio Bob Kane), seguem tão fascinantes quanto foram no final dos anos 80. Mesmo sem explorar a fundo seus personagens (algo que Christopher Nolan fez questão de fazer ao retomar o personagem em 2005), há toda uma gama mitológica do Homem-Morcego que é fincada com sutileza na tela ao longo dos pouco mais de 120 minutos de projeção, seja pelo aspecto decadente de Gotham City com sua direção de arte brega, mas perfeitamente condizente com a identidade fantasiosa de Burton, ou o interior lúgubre da batcaverna, tão tecnológica quanto os anos 80 permitiam. E por mais que suas referências visuais sejam assim tão bem expostas e posicionadas na narrativa (apesar de Wayne manter-se uma incógnita), é no vilão tresloucado de Nicholson que Batman encontra sua arma principal. Eternamente comparado com o que Heath Ledger faria quase vinte anos depois em O Cavaleiro das Trevas, o ator que já carregava dois Oscar no currículo por Um Estranho no Ninho e Laços de Ternura, nos apresenta um antagonista incontrolável, megalomaníaco, sádico, sarcástico, contagiante e divertidíssimo, como comprova a tão comentada sequência de destruição das peças de arte de um museu. E Nicholson se entrega, deitando e rolando num papel que lhe oferece as maiores chances de explorar essa comicidade ameaçadora.

Burton, é claro, já era dono da razão na época quando condenava o viés comercial dado pelos produtores ao filme, algo notado na nada marcante música do falecido Prince, mas o que temos aqui é, de fato, um filme de autor como Hollywood poucas vezes abriu portas para ser feito, um olhar vivaz que se tornou uma referência cultural para a época e para o gênero.

Batman (Idem, EUA/Reino Unido – 1989)
Direção: Tim Burton
Roteiro: Sam Hamm, Warren Skaaren (baseado em criação de Bob Kane e Bill Finger)
Elenco: Michael Keaton, Jack Nicholson, Kim Basinger, Robert Wuhl, Pat Hingle, Billy Dee Williams, Michael Gough, Jack Palance, Jerry Hall, Tracey Walter, Lee Wallace, William Hootkins
Duração: 126 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.