Crítica | Batman (1989)

estrelas 3

Em uma época repleta de filmes baseados em quadrinhos, seja Marvel, DC ou qualquer outra, voltamos nosso olhar para 1989, quando os heróis ainda lutavam para encontrar sua linguagem na tela grande. Antes mesmo de Homem-Aranha abrir o caminho para os filmes modernos de super-heróis, Batman marcava sua presença no cinema, funcionando como um predecessor para o que veríamos treze anos mais tarde.

Os créditos iniciais, ao som da ótima trilha composta por Danny Elfman, contorna, aos poucos, o emblema do Homem-morcego. Um símbolo empoeirado, já gasto, que abre caminho para o visual que veríamos no filme. Somos, então, levados para as ruas de Gotham, a cidade perfeita para Tim Burton trazer suas influências do expressionismo alemão, fazendo da metrópole uma mistura de gótico com steampunk. Nessas ruas escuras vemos uma família – o pai, a mãe e o pequeno filho – tentando pegar um táxi. Após inúmeras tentativas sem êxito eles desistem e decidem cortar caminho por ruelas ainda mais escuras. Todos já sabemos a história de Bruce Wayne e, sem dúvidas, estamos olhando para ela agora. Mas somos surpreendidos e logo descobrimos que aquela não é a família Wayne, apenas mais um caso parecido – uma referência – e a prova da necessidade do Batman.

Sem mais delongas vemos o morcego descer sobre os criminosos que roubaram a família. Rapidamente o caso é resolvido e por um bom tempo não vemos o vigilante mascarado. Desta forma Burton constrói o seu universo, focando sua narrativa dos trechos iniciais do filme sequer mostrando Wayne ou seu alter-ego. O diretor apenas nos dá um gosto do herói, para depois construir sua cidade, sua política, polícia, jornais e, ainda mais importante: o submundo do crime. Batman utiliza uma interessante forma de narrativa que gasta mais tempo na criação do vilão que do herói propriamente dito, garantindo uma maior profundidade ao personagem em detrimento dos clássicos atos de pura maldade. Através de Jack Nicholson, a figura do Coringa é montada pouco a pouco até que, no fim, tenhamos uma mistura de comediante teatral com psicopata violento.

Aqui, porém, entramos em um problema do personagem. Tais oscilações entre o sério e o humor prejudicam o tom do filme que não consegue decidir se quer causar tensão ou simplesmente provocar algumas risadas. A atuação de Nicholson, sem dúvidas, rouba facilmente a atenção, mas sua maquiagem demasiado forçada acaba tirando a seriedade de sequências que precisam de certo drama. Essas constantes quebras dentro da narrativa acaba tirando a fluidez do filme, impactando a imersão do espectador.

Tal impacto é ainda maior quando levamos em conta o roteiro em si, que parece ser deixado de lado em favor de uma foco maior na estética. Burton compõe uma odisseia visual, mas que, no fim, possui pouco conteúdo. Desde as ruas da cidade até cada cômodo da mansão Wayne: espetáculos artísticos até serem preenchidos pelos personagens que carregam consigo uma trama deveras artificial e repleta de buracos. Encaixar, por exemplo, Jack Napier como o assassino dos Wayne simplesmente soa como uma coincidência fora da realidade. Além disso temos um forçado romance inserido na história que leva a ocasiões claramente conduzidas pelo roteiro a fim de progredir com a história.

Ainda assim, por mais que o roteiro não ajude, Michael Keaton se encaixa bem no personagem, conseguindo convencer tanto como Bruce Wayne quanto Batman. Os melhores momentos do filme são justamente aqueles que não vemos o homem-morcego, cujo figurino luta para resistir o teste do tempo. Nesse aspecto o filme se destaca pelas tomadas curtas e montagem mais dinâmica nas sequências que efetivamente vemos o herói – tudo a fim de esconder a falta de mobilidade do personagem.

Batman de Tim Burton, que recentemente completou 25 anos, é uma obra que consegue resistir à ação do tempo, por mais que contenha inúmeras falhas tanto de roteiro quanto de direção. Definitivamente é uma obra importante para o universo dos quadrinhos e começa a construir o cenário que veríamos se concretizar anos depois. É um longa que preza o visual em detrimento do conteúdo, mas que traz cenas memoráveis e uma trilha sonora inesquecível.

Batman (idem, EUA/ Reino Unido – 1989)
Direção: Tim Burton
Roteiro: Sam Hamm, Warren Skaaren
Elenco: Michael Keaton, Jack Nicholson, Kim Basinger, Robert Wuhl, Pat Hingle, Billy Dee Williams, Michael Gough, Jack Palance, Jerry Hall, Tracey Walter, Lee Wallace, William Hootkins
Duração: 126 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.