Crítica | Batman – A Piada Mortal

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estrelas 5

SPOILERS!

_ O que você acha que eu sou? Louco?! E se você apagar a luz quando eu estiver no meio do caminho?

Súbito, uma linha se rompeu. O arquétipo da humanidade que o Batman trazia consigo se desintegrou lá pelos anos 1980, enquanto o herói, que já havia seguido o seu caminho para fora do que era a “humanidade comum”, juntou-se novamente a ela, agora como um homem tão suscetível a complicações psíquicas e físicas como qualquer outra pessoa. Víamos então um outro lado do Morcegão, uma faceta repleta de exemplos, vida e mensagens de esperança para uma Gotham povoada de lunáticos, miseráveis e corruptos.

Em A Piada Mortal (1988), tenebrosa e genial história de Alan Moore, o mesmo Batman que se dedicara mental e fisicamente para combater o crime e salvar sua cidade das mais terríveis e diversas ameaças, questiona o seu próprio fim (depreendemos isso através de sua atitude, no início da história) e, ao invés de empreender uma luta final contra o seu mais importante inimigo, faz algo inusitado: propõe uma conversa, um acerto diplomático de contas.

Alan Moore faz com que o leitor pense sobre a relação de igualdade entre os dois homens, e para isso, nos traz pela primeira vez a história do Coringa (ou pelo menos uma delas). Em uma narrativa não-linear, acompanhamos o vilão em sua fuga de Arkham e nos chocamos com sua extrema violência e maldade: Bárbara Gordon é baleada por ele e condenada a uma cadeira de rodas. Jim Gordon é sequestrado e torturado, além de ser obrigado a ver fotos da filha nua, visivelmente em estado de muita dor.

Uma conversa, um caminho para a distração. Uma escolha que causará arrependimento no morcego.

Uma conversa, um caminho para a distração. A escolha que inicia uma série de “dias ruins”.

Ao mesmo tempo, temos narrada a história de um humorista desempregado que não concebe deixar sua esposa grávida viver no atual estado de penúria em que se encontram. Por isso ele aceita um “trabalho” para assaltar uma indústria química e é obrigado a permanecer no plano mesmo após receber a notícia da morte de sua esposa. Usando o disfarce do bandido Capuz Vermelho, o desafortunado homem vê o assalto dar errado. Acuado, ele acaba mergulhando no esgoto da indústria. O homem que sairá de lá não é mais o covarde e acanhado humorista que acabara de perder esposa e filho. A gênese de um vilão estava lançada.

Muitos leitores poderiam acusar Moore de buscar circunstâncias atenuantes para os crimes do Coringa. Mas não há defesa alguma no roteiro. Como também não há acusações. A Piada Mortal é uma crônica tão real quanto qualquer outra situação de alguém que enlouquece após um trágico acontecimento em sua vida. A mesma coisa aconteceu com o jovem Bruce Wayne, que ao assistir à morte dos pais, jura vingança, prepara-se para ser um herói, cria uma identidade relacionada com o seu maior medo e sai mascarado pela cidade, tentando estabelecer a ordem. O que o roteirista nos expõe aqui é o enigma do equilíbrio humano: por quê o Coringa e o Batman se transformaram em loucos, cada um a seu modo e de um lado da lei, após pontos de ruptura em suas vidas? E por que Jim Gordon, após o mesmo ponto de ruptura, não enlouquece? Qual é o limite entre o lidar com as adversidades e viver remoendo, vingando-se ou tentando causar dor em outras pessoas por conta de um acontecimento do passado?

A essas questões, adicionamos também os sintomas sociais e históricos dos anos 1980, sintomas que são capturados por Alan Moore e perfeitamente ilustrados por Brian Bolland. Desde a capa da revista somos inseridos na história como um objeto fotografado pelo cruel e enigmático protagonista, que nos olha, sarcástico.

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Uma cena que vem ganhando novas camadas de polêmica e críticas negativas ao longo dos anos. O que vocês acham disso? É uma cena “desnecessária”?

Assim como em uma torrente de acontecimentos normais num período da vida de qualquer pessoa, vemos presente nessa graphic novel o ciclo temporal da história, aquilo que define os pontos mais notáveis da vida de alguém, que prevê, durante os anos de existência de qualquer indivíduo, momentos de amor, felicidade, agonia e tristeza. Não há uma só pessoa que escape a tal modelo circular de acontecimentos e vemos isso também aplicado à existência de heróis, vilões ou simples mocinhos (que também podem ser heróis), como Batman, Coringa e Gordon em A Piada Mortal.

Mas pensemos melhor sobre isso.

O que a passagem do tempo traz para uma pessoa? É certo que a “experiência de vida” é um dos elementos principais, mas não é o mais forte nem o mais importante. O que vai definir o homem por toda a sua vida é a memória de tudo o que ele viveu, seja isso bom ou ruim. Perceba que nos anos 1980, temos um Batman cada vez mais ligado às suas raízes, com lembranças constantes de um passado doloroso (momento clássico em Ano Um). É uma década de confronto com os fantasmas do passado e grandes mudanças no presente.

Isso faz com que o vigilante de Gotham deixe a máscara de lado, algumas vezes, e assuma as cicatrizes que o tempo de seu exercício como herói trouxe. Em A Piada Mortal, é a vez do Coringa fazer isso. Ele permanece o criminoso de sempre, mas tem lembranças de um passado que o torna muito mais do que um palhaço demoníaco. Ele se transforma em qualquer homem desempregado que fracassou em seu projeto familiar, não podendo sustentar a esposa e o filho prestes a nascer. Ele se torna o homem que aceita entrar para o crime a fim de suprir sua falha como pai de família. E desde este momento, temos a tentativa desse homem em redefinir a sua história e a sua identidade. Ele planeja ficar rico e mudar de vida depois do assalto. Não é o melhor nem o politicamente correto, mas é um plano.

A maioria dos pais enlouqueceriam, vocês não acham?

A maioria dos pais enlouqueceriam, vocês não acham?

A memória é como uma benção ou uma maldição ao mesmo tempo, e está fortemente presente em A Piada Mortal, tanto no roteiro quanto graficamente, basta acompanharmos os quadros com pingos de chuva que abrem e fecham a história. Até a memória do Batman aparece, na forma de um porta retrato, em frente ao qual deposita uma carta coringa.

Como qualquer pessoa, Batman não é alheio ao mal ou à dor. Dentre todos os cidadãos de Gotham, ele é o que mais se conecta com o homem dentro do Coringa, o homem além da máscara sorridente e de cabelos verdes. Ao mesmo tempo que se refratam, o Coringa e o Batman se refletem. Talvez seja por isso que o Homem Morcego tenha optado por conversar com o vilão. A profundidade moral, ética e social que Alan Moore trabalha em A Piada Mortal é algo realmente admirável. Há os que alegam que a violência contra a mulher aqui é sem propósito, e outras colocações tortuosamente problematizadoras das quais não compartilho no presente contexto.

Com uma forte conotação filosófica e sociológica, a graphic novel nos mostra um dos momentos mais incríveis da história do Morcegão, um dos raros momentos de lucidez e consciência humana do Coringa e uma bizarra cumplicidade entre ele e o Batman. A última cena da história, que vem após a piada, é o selo de que em algum lugar, o espelho que refletia as atitudes dos dois se partiu e cada um foi para um lado. É como Hitler e Chaplin, que nasceram no mesmo mês e no mesmo ano, mas que representaram coisas completamente diferentes para a humanidade. Assim é o Batman e o Coringa. A única diferença entre os dois é a forma como lidam com a própria loucura. Esta é a piada. Ambos são loucos. Mas apenas um deles faz isso ser algo mortal.

Última página de A Piada Mortal.

Última página de A Piada Mortal.

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ATUALIZAÇÃO

Uma polêmica de Grant Morrison

Hoje é dia 14 de agosto de 2013, dia da edição #44 do podcast Fatman on Batman, onde Grant Morrison, como convidado do programa para falar sobre O Cavaleiro das Trevas, acabou fugindo um pouco do assunto principal e revelando uma versão para A Piada Mortal que está deixando os fãs em polvorosa. Depois de tantos anos, é difícil aceitar uma leitura tão crua assim, mas pessoalmente creio que é completamente possível pensar nisso. O mais legal é que desde a publicação da revista, parece que ninguém falou nisso, daí a novidade estar chocando todo mundo.

Deixarei abaixo um trecho da conversa que expõe a polêmica revelação. Compare a fala de Morrison com a última página da revista, que disponibilizo acima. Lá vai:

Grant Morrison:Ninguém entende o final. Na verdade, Batman mata o Coringa! Por isso a edição se chama A Piada Mortal. Após a piada do Coringa, o Batman quebra o pescoço dele. Em seguida, a risada termina e as luzes se apagam. É quando ele atravessa essa linha, é a piada definitiva. […] Foi feito de uma maneira em que as pessoas não tivessem certeza, mas é brilhante. Batman segura o Coringa e quebra o seu pescoço, e então tudo acaba. As risadas param. É bastante óbvio. É a última piada, é o final inevitável entre os dois. Está tudo no título.

Batman – A Piada Mortal (Batman: The Killing Joke) — EUA, 1988
Roteiro: Alan Moore
Arte: Brian Bolland
Cores: John Higgins
DC Comics
64 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.