Crítica | Batman: Acossado

estrelas 4,5

Acossado é mais uma excelente minissérie publicada sob o selo Legends of the Dark Knight (Um Conto de Batman), como Gótico. Dessa vez, sob a batuta de Doug Moench, a história se passa logo após Ano Um, com um Batman ainda em começo de carreira e sem ajuda da polícia, apenas de um hesitante Capitão James Gordon. Na verdade, o Morcego nem batmóvel tem e precisa usar asa delta para ir para a cidade e, em determinado momento, ele chega a voltar para a mansão andando (!!!).

batman prey coverMas, exageros à parte, Moench faz um ótimo trabalho ao retratar as dificuldades de um “herói em formação” e ao colocar tanto a Mulher Gato como o Dr. Hugo Strange nesse mix, a primeira seguindo a linha da mesma Selina Kyle que vemos em Ano Um e, o segundo, como o grande vilão da história, depois que o prefeito decide, de supetão e durante um programa de televisão, montar uma força-tarefa para caçar Batman encabeçada por Gordon e tendo Strange como consultor. Mas é claro que Strange, tomado por uma inveja doentia do vigilante mascarado (além de todos os outros problemas mentais possíveis em um sociopata), inicia um plano que envolve a difamação do herói na imprensa e a criação de um novo vigilante, este na figura do Sargento Max Cort (como Night Scourge), segundo em comando na força-tarefa e obcecado em encontrar e capturar o Homem Morcego.

O interessante de Acossado é que, na medida da progressão da história, o mundo de Batman vai diminuindo. Sua relação delicada com Gordon é posta à prova quando o Capitão não tem escolha a não ser caçá-lo, quando a campanha de Strange na TV coloca a população contra os vigilantes mascarados em geral e Batman em particular e quando a pouca mobilidade física do Morcego o impede de voltar facilmente à sua mansão. Tudo isso empresta forte ar psicológico à narrativa, que culmina com Bruce Wayne tendo que efetivamente enfrentar seus demônios interiores, muito mais terríveis que qualquer vilão do mundo real. A enlouquecedora campanha de Strange chega ao ápice quando ele finalmente descobre a identidade do Morcego e deixa Batman completamente sem saída, no escuro de sua caverna tentando manter sua sanidade. É aí que a interferência relutante – e mínima – da Mulher Gato sela a relação amor e ódio que os dois teriam ao longo dos anos.

Acossado é um belo exemplar de um Batman jovem, inexperiente, ainda tateando no escuro que ele tanto usa para imprimir terror em seus inimigos. Somente nesse começo de carreira é que Max Cort, hipnotizado por Strange, poderia se tornar alguém que consegue, mesmo que por poucos segundos, se igualar a Batman em combate. Nós conseguimos acreditar nesse artifício mais facilmente, uma mistura de obsessão, loucura, inveja e de poder tomando controle de alguém já com tendências ao descontrole. Também conseguimos perfeitamente acreditar na investigação de Strange sobre a origem de um homem que poderia se tornar Batman. Suas deduções são lógicas, daquelas que nós mesmo leitores já nos perguntamos algumas vezes como é que outros personagens não descobriram a mesma coisa. Mas Moench sabe trabalhar o assunto e não vende barato a solução, entregando-nos uma história engajante do começo ao fim, ainda que a batalha final entre Batman e Night Scourge conte um deus ex machina conveniente demais, que poderia ser mais bem inserido na narrativa.

Na arte, Paul Gulacy tenta, com sucesso, mimetizar o trabalho de David Mazzuchelli em Ano Um, mas acrescentando seu próprio toque. Vemos a narração de Gordon, Batman e Strange acontecer como na história de Miller, em “pedaços de papel” com letra cursiva e Gulacy acrescenta um ar mais forte de “cidade vivida” e podridão à Gotham City. Além disso, as sequências de ação são particularmente boas, fluidas e não dependem de narrativa alguma, mostrando total controle sobre os desenhos.

Batman: Acossado é mais uma grande minissérie dentro do conceito “começo de carreira” do Homem Morcego, completamente com os pés no chão e uma verdadeira page turner.

Batman: Acossado (Batman: Prey – Legends of the Dark Knight #11 a 15, EUA)
Roteiro: Doug Moench
Arte: Paul Gulacy
Editora: DC Comics (publicado originalmente entre setembro de 1990 e fevereiro de 1991)
Editora (no Brasil): Editora Abril (originalmente)
Páginas: 125

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.