Crítica | Batman: Arkham City

estrelas 4

Com anos de diferença entre o lançamento de Arkham City, um dos games com maior hype da última geração, e a crítica do mesmo, é possível colocar em perspectiva toda a franquia e analisar friamente – mas nem tanto, pois se trata de Batman! – qual efeito que o segundo jogo da série trouxe para os games do Batman. Se na época era quase um pecado falar que City era pior que Asylum, hoje isso me parece evidente para quase todo jogador dos games da Rocksteady. Há algumas razões para essa afirmação.

Arkham City não chega aos pés de seu antecessor, Arkham Asylum, e não é tão memorável como seu sucessor, Arkham Knight. Mas não deixa de ser um game obrigatório e muitíssimo bem realizado. Se o primeiro game era muito focado no manicômio Arkham, com uma linha narrativa reta, com vilões bem determinados e com apenas uma aparência de mundo aberto, o segundo cumpriu com a expectativa de expandir o bat-universo nos games e ampliou o manicômio para uma verdadeira cidade, um sandbox real, com vilões diversificados, o dobro de desafios secundários e novidades mecânicas marcantes. Ao cumprir com essa expansão, a Rocksteady se perdeu.

Comecemos pelos pontos positivos. City continua com o visual incrível e acrescenta um clima mais urbano, chuvoso e lotado, mas sem perder a solitude característica do herói. A maior quantidade de gadgets, todos com uso possível nos duelos como o choque e a granada de gelo, a novidade de poder jogar com Mulher-Gato, Robin e Asa Noturna, o arpéu, que faz de Batman praticamente um Homem-Aranha, a variedade no estilo dos diversos capangas, que obrigam o jogador a prestar mais atenção em batalhas com ninjas e guardas com proteções especiais…enfim, mecanicamente, City é um exemplo de esmero a ser seguido.

O problema é que, junto com todas as boas novidades, a história se torna confusa, partindo do ponto onde Asylum acaba. Tentando aumentar a cada trailer e a cada informação na mídia a ansiedade dos fãs, já que Asylum mostrou o potencial do gênero anos antes, somos colocados para enfrentar Duas-Caras, Pinguim, Sr. Frio, R’As Al Ghul, Hugo Strange, Cara-de-barro e Coringa. Certamente estou esquecendo de alguém. E com todo o respeito aos desenvolvedores, que fizeram um game divertidíssimo, não há chance de um jogo com tantos vilões conseguir utilizar bem todos os personagens. E é fácil ver que tentaram dar tempo para cada um se desenvolver, mas o roteiro pareceu uma desculpa eterna para colocar tais antagonistas no jogo sem qualquer motivo que justificasse. E o pior: as lutas, digamos, de fase, contra estes chefões, são completamente esquecíveis, exceção feita ao Sr. Frio.

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Trata-se de uma típica continuação exagerada – algo que normalmente se ignora em games e se bate em cinema – que aprecia um lado super-heróico do Batman diferentemente de Asylum, que o colocou preso em uma ilha e sustentou sua história centrada em poucos e mais memoráveis personagens. Se viesse mais do mesmo, em City, a maioria dos fãs reclamaria. Talvez por isso o escopo do jogo tenha aumentado, mas isso foi desagradável justamente porque se o primeiro game foi tão revolucionário, o segundo seguiu a moda das caixas de areia, banalizou personagens e quis utilizar um final apelativo para marcar época. O aumento de desafios do Charada, infelizmente apostando nas habilidades de gameplay e nem tanto na perspicácia de identificar algo no ambiente, como um quadro ou um objeto em uma estante feitos em Asylum, assim como as maiores opções de cenário – como Wonder City, a parte mais enfadonha do jogo, com certeza – e os confusos caminhos para se chegar a cada lugar e achar troféus, principalmente após o término da história principal, são alguns poucos exemplos da distração que o tamanho do game causou em relação à uma boa história e um roteiro interessante.

Ainda assim, a jogabilidade continua equilibrada entre ação e investigação, o jogo, em geral, flui razoavelmente bem, ainda que canse mais rapidamente do que Asylum, e o jogador sente uma sensação de liberdade na pele do morcego de uma forma inédita e admirável, algo que só melhoraria com Knight. Trilha sonora – o que falar da música dos créditos.. – ambientação, dublagem – Mark Hammil, Kevin Conroy e Nolan North sempre merecem elogios – cada aspecto estético é um primor, assim como os mapas de challenge, aumentados e agora com as opções de jogar com Mulher-Gato, com jogabilidade própria incrivelmente bem-feita.

Se eu pudesse escolher apenas um game entre City e seu antecessor, não teria dúvidas: ficaria com Asylum. Em termos finais, os dois jogos colocam o jogador na pele do herói. As diferenças e faltas de cada um determinarão o tipo de jogador a ser atingido, mas um game do Batman não basta ter ótimas mecânicas e uma sensação de liberdade e de vigilância, ainda que isso seja essencial. As melhores histórias dos quadrinhos de Bruce Wayne são exatamente as mais centradas, mais reflexivas e menos ambiciosas no que diz respeito aos seus objetivos literais. Começando pela própria Arkham Asylum de Grant Morrison, passando pelas mais clássicas como A Piada Mortal e Ano Um, e, arrisco, até chegando aos cinemas com os dois primeiros filmes de Christ0pher Nolan, a introspecção e claustrofobia de Batman, quando refletidas no cenário grotesco ao redor e nos arqui-inimigos que simbolizam o limite tênue das ações do herói, certamente dão resultado em obras-primas. Asylum, nesse sentido, diverte. City apenas distrai.

Batman: Arkham City
Desenvolvedora: Rocksteady Studios
Lançamento: 18 de outubro de 2011
Gênero: Ação
Disponível para: Ps3. Xbox 360, Wii U, PC

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.