Crítica | Batman: Arkham Knight

estrelas 5,0

Notar a evolução da série Batman: Arkham é um prazer para qualquer fã de videogame e do morcego. Nesse quarto jogo – o terceiro da Rocksteady, que ficou de fora da produção de Arkham Origins – o padrão de qualidade já de alto nível estabelecido anteriormente é ainda mais elevado, e não poderia ser diferente: o batmóvel apareceu!

Mas vamos com calma, afinal, Arkham Knight combina inúmeros outros fatores que o fazem o melhor do jogo da franquia até aqui. A história tem início após os acontecimentos de Arkham City, já com uma cena marcante que coloca o jogador no clima do final do game antecessor. O plano, dessa vez, é comandado pelo Espantalho e por uma misteriosa figura chamada Cavaleiro de Arkham, bastante utilizada na divulgação do jogo por ter sido criado especificamente para essa obra.

Do começo ao fim o enredo entrega o prometido e é bem amarrado, evitando o erro cometido em Arkham City de enfiar todos os vilões possíveis em uma história confusa e atropelada. Em Knight, os vilões secundários aparecem apenas em missões paralelas e a narrativa trabalha bem os personagens selecionados para contar a história. O melhor ponto é a superação de alguns perigosos clichês que já cansaram qualquer fã do protetor de Gotham, graças à valorização de personagens secundários – Hera Venenosa e Oráculo, por exemplo – e o incrível cuidado em mostrar temas batidos como o medo e a razão pela qual o Espantalho quer, pela milésima vez, espalhar seu gás pela cidade.

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Mais uma noite de caos em Gotham City

Gotham, por sinal, está fantástica. Sempre chuvosa e cheia de neon, mistura o gótico típico das HQs com um clima noir, lembrando Blade Runner. A ambientação é excelente, principalmente pelos áudios dos guardas ao redor e sua alternância com uma trilha sonora tipicamente da trilogia de Christopher Nolan, combinando perfeitamente com a adrenalina do batmóvel e a chuva de Gotham. O design da cidade também favorece a movimentação do herói, seja ao planar, seja ao dirigir por ruas abertas e curvas bem delineadas. E aqui entramos no principal elemento do jogo que o faz ser único em comparação com seus antecessores: conduzir o batmóvel é incrível. A sensação que o jogo consegue passar é de que nada pode te parar. O carro flui pela cidade, é fácil de mover – dada a potência única do veículo mais badass das HQs – e é multifuncional, respeitando 100% os quadrinhos e os filmes do Batman, ajudando-o em situações impossíveis e proporcionando ótimos desafios nas perseguições e principalmente nos duelos contra os tanques inimigos. Tendo uma árvore própria de melhorias e podendo ser controlado remotamente, o batmóvel se torna um personagem próprio e proporciona os melhores momentos do game. Planar sobre a cidade ou dirigir no meio dela passa a ser uma das escolhas mais difíceis, dada a beleza visual e a facilidade nos botões.

Nesse caminho, a jogabilidade continua um exemplo para toda a indústria. O combate da série Arkham talvez já fosse o melhor dos games nesses últimos 10 anos, mas aqui fica ainda melhor, permitindo combos com os gadgets tradicionais de forma mais suave e também colocando inimigos com pequenas mas notáveis mudanças em relação aos outros jogos do morcego. Da mesma forma, o jogo equilibra bem momentos stealth e de investigação com as lutas, não deixando o jogador enjoado. Pelo contrário, os novos equipamentos valorizam os momentos C.S.I. do herói e também dão grande gama de variação para atacar na surdina inimigos armados.

Outra importante novidade é a possibilidade de troca de personagens nos duelos. Em determinados momentos Asa Noturna, Mulher-Gato e Robin dão as caras e com um simples toque é possível sair do controle do Batman e lutar com as habilidades desses heróis, combinando, inclusive, golpes duplos extremamente artísticos. Menus mais simples também colaboram para deixar as missões mais fáceis de serem visualizadas e indicar o caminho a ser escolhido pelo jogador.

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Conseguiram deixar o Espantalho ainda mais feio

Se já não bastasse a história, que zerada chega a cerca de 40% do total do game, ainda há boas missões secundárias e dlcs de boa qualidade, assim como foi o da Arlequina em Arkham City. Aqui, a mulher do arquirrival do Cavaleiro das Trevas tem mais uma missão para ser baixada, assim como o Capuz Vermelho e o Espantalho, dando, junto com os clássicos challenges, as missões dos outros vilões e os desafios do Charada, incontáveis horas de diversão e imersão como nunca se viu antes.

Na versão brasileira, a dublagem conta com alguns problemas, novamente e infelizmente, como ainda é praxe nos games. Márcio Simões, como o Coringa, é sempre espetacular. Da mesma forma Robin e outros coadjuvantes não tiram o jogador daquele mundo, mas ao protagonista parece faltar um pouco mais de sombra, uma pitada maior de terror. De qualquer modo, nada substitui Mark Hamil e Kevin Conroy e pegar o jogo totalmente em português sem sequer poder trocar a língua é simplesmente uma pena.

Falando no Coringa…não vou entregar nada, mas a participação do palhaço do crime é, provavelmente, a melhor em jogos do Batman até aqui. Vou mais longe e coloco ela como uma das melhores em qualquer obra do protetor de Gotham – o que é extremamente difícil, visto o tanto que se falou do Coringa desde a retomada feita em Dark Knight. O roteiro é bem trabalhado e ainda melhor ressaltado graças à interação proporcionada pelos ângulos escolhidos – em primeira pessoa, por vezes – e pelas situações criadas. Tendo como principal tema o medo e a relação de Bruce com sua família, era impossível deixar seu arqui-inimigo de fora. Em Knight, mais do que em qualquer outro game da Rocksteady, a referência aos quadrinhos se faz presente. Morte em Família, A Piada Mortal e até a mais recente Morte da Família aparecem como um deleite para qualquer fã do Cavaleiro das Trevas.

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Relaxando em Chinatown

Se Arkham Asylum foi um marco na história dos jogos de super-heróis dando realidade ao universo do morcego com fidelidade, e se Arkham City expandiu as possibilidades e os desafios, Arkham Knight, se for, de fato, o último jogo dessa franquia como foi pintado antes do lançamento, fecha com chave de ouro a jornada de Bruce Wayne. Todavia, não é um jogo perfeito, já que acaba repetindo o ciclo de afazeres do Batman – por mais diversificados e divertidos, o jogador sente o que virá depois de cumprir um objetivo – e também decepciona na revelação da identidade do Cavaleiro de Arkham, principalmente para quem está familiarizado com uma história em especial do morcego. Também não consegue criar o clima de total imersão com tamanha maestria feita no primeiro jogo, mas é o game que mais se aproxima disso, sintetizando o tamanho de City com o marco histórico que foi Asylum.

Felizmente, sem dúvida alguma o esmero da Rocksteady continua. Arkham Knight não é só mais do mesmo. Nas partes que é, é convicto e agrada os fãs de jogos de ação. Na inovação, é preciso e cuidadoso. Jogaço do morcego que entra no rol das grandes obras do Batman, em qualquer mídia.

Batman: Arkham Knight
Desenvolvedor: Rocksteady Studios
Lançamento: 23 de junho de 2015
Gênero: Ação
Disponível para: Xbox One, PS4 e PC

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.