Crítica | Batman: Cavaleiro de Gotham

estrelas 3,5

Três anos após o lançamento de Batman Begins, a iminente chegada de Batman – O Cavaleiro das Trevas, em 2008, culminou na estreia de Batman – O Cavaleiro de Gotham em julho do mesmo ano. A antologia, composta por seis curtas animados, retrata, sob variadas óticas, episódios vividos pelo Morcego nas ruas de Gotham. Para além de alimentar o contexto construído por Nolan, a coleção buscou servir de prelúdio para o longa em live action que estrearia logo em seguida.

Dentro dessa lógica, pode-se dizer que O Cavaleiro de Gotham representou o resultado de mais uma capciosa estratégia da já antiga parceria entre a Warner Bros. e a DC Comics. Ainda que seja exibida como mais uma das produções animadas da DC Comics, pode-se dizer que a coleção de curtas corresponda a, talvez, a mais divergente de todas as animações já feitas pela empresa. A principal diferença está presente na fonte em que os diretores e executores dos projetos bebem para a composição inicial. Como nunca antes visto na história das animações DC, O Cavaleiro de Gotham exprime os reflexos de uma fortíssima busca de referência em animes, típicos da cultura audiovisual japonesa.

Assim, por mais que cada um dos curtas possua significável autonomia em relação ao outro, tanto em roteiro, desenvolvimento e, até mesmo, nas artes gráficas, o formato e as regularidades dos animes agem como elementos de organização do material completo. Dessa forma, assistir a seis curtas do Batman, que revelam diferentes perspectivas e construções narrativas, possibilita que o publico fique diante de uma produção com linhas de sentido bastante coerentes e unificadas, o que é o primordial desafio para a elaboração de uma antologia.

No primeiro segmento da coleção, temos o episódio intitulado Eu obtive uma história para você. O curta executa com simplicidade e originalidade a função introdutória da antologia. Seu enredo utiliza de lugares comuns em seu favor quando constrói uma short story em cima das especulações em relação ao Homem-Morcego que vagueia às sombras das ruas de Gotham City. Assistimos, assim, à conversa entre um grupo de jovens que compartilham as impressões que tiveram ao presenciar o Batman em ação. Nesse sentido, o primeiro curta não se mostra tão interessado em apresentar uma aventura do Morcego, mas sim construir sua imagem e seu impacto social por meio do diálogo entre os garotos.

Fogo cruzado, segundo momento da produção, apresenta-se como a continuação dos eventos que ocorreram ao fim do primeiro e, justamente por isso, começa a dar acesso ao interior da putrefata cidade. Diferente do primeiro episódio, ganhamos aqui um ritmo mais rápido, similar a narrativas de investigação. Já o episódio seguinte, Teste de Campo, busca destacar os princípios morais do Homem-Morcego ao mesmo compasso que explora ao máximo a identidade gráfica e visual do formato.

O quarto curta resgata eventos previamente abordados em Batman Begins ao desenvolver seu enredo com base no desenrolar dos casos do primeiro filme. Dessa forma, revisitamos as ameaças do Espantalho, que, junto ao Crocodilo, compõe o time de vilões de Na Escuridão Habita. Em seguida, o episódio Trabalhando Através da Dor se desenvolve a partir dos delírios de um Bruce Wayne lesionado após eventos do fim do quarto curta. Em uma excelente construção subjetiva e intimista, somos apresentados a momentos passados da vida de Bruce e temos acesso ao seu processo de treinamento para controlar as limitações e impedimentos da dor. A antologia chega ao fim com o episódio Pistoleiro que, não somente narra o desfecho à trama geral, como também apresenta o vilão homônimo ao título de maneira bastante digna à trama. Por isso, a meu ver, mostra-se como o mais bem executado curta de toda antologia.

Ao dar uma nova roupagem à linguagem animada da DC Comics, O Cavaleiro de Gotham se consagra, antes de tudo, como uma produção inovadora. No entanto, mesmo na mais experimental das obras, tratando-se de Batman, algumas tradições devem ser mantidas. Isso justifica a clássica e tradicional voz de Kevin Conroy na dublagem do protagonista. Algumas coisas não mudam. Que bom!

Batman – O Cavaleiro de Gotham (Batman – Gotham Knight – EUA, 2008)
Direção:
Yshuhiro Aoki, Yûichirô Hayashi, Futoshi Higashide, Toshiyuki Kubooka, Hiroshi Marioka, Jong-Sik Nam, Shoujirou Nishimi.
Roteiro: Jordan Goldberg, Josh Olson, Greg Rucka, David S. Goyer, Brian Azzarelo, Alan Burnett.
Elenco: Kevin Conroy, Jason Marsden, Scott Menville, George Newbern, Corey Padnos, Crystal Scales, Alanna Ubach, Hynden Walch, Corey Burton.
Duração: 75 min.

FILIPE MONTEIRO . . . O exército vermelho no War, os indianos em Age of Empires, Lannister de Rochedo Casterly. Entrou em órbita terrestre antes que a Estrela da Morte fosse destruída, passou pela Alameda dos Anjos, pernoitou em Azkaban, ajudou a combater o crime em Gotham e andam dizendo por aí que construiu Woodburry. Em uma realidade alternativa, é graduando em Jornalismo, estuda Narrativas e Cultura Popular, gosta de cerveja e tempera coentro com comida.