Crítica | Batman: Dia das Bruxas

estrelas 4

Jeph Loeb e Tim Sale concretizaram uma das mais memoráveis parcerias da história da industria de quadrinhos. A interessante combinação entre os roteiros sombrios muito bem articulados pela mente ousada de Loeb e a genial perspectiva estética expressada pelas ágeis mãos de Sale imortalizou suas obras e as distanciou de publicações mais ordinárias. Antes mesmo de assinarem a mundialmente conhecida Batman: O Longo Dia das Bruxas, a dupla já comprovava sua competência e originalidade.

Em 2011 a Panini Comics lançou a versão brasileira definitiva de Batman: Dia das Bruxas, publicada originalmente nos Estados Unidos em 1996 pela DC Comics. Por não galgarem grandes distâncias na ampliação do Universo DC (coisa que, definitivamente, não foi o objetivo da obra), os três contos narram casos isolados vividos pelo Homem-Morcego.

No primeiro conto intitulado Temores, o ponto de partida é mais uma arapuca do vilão Espantalho. A trama é ambientada no feriado do Dia das Bruxas e gira em torno dos esforços empreendidos por Batman em impedir que o Espantalho sabote os geradores de energia elétrica em Gotham e instaure o terror na cidade. É interessante observar que, Loeb tem uma grande tendência em utilizar uma história como plano de fundo para adentrar em outras questões paralelas, sem que o resultado final pareça destoante. Por meio dessa incrível habilidade de abordar microtramas na medida certa, sem exaustão tampouco superficialidade, o roteirista revela um Bruce Wayne com outros dilemas, perigos e outros temores que fazem mais justiça ao título.

Na sequência, Dia das Bruxas apresenta o conto protagonizado pelo vilão Chapeleiro Louco e uma jovem Barbara Gordon, recém adotada pelo Comissário e que ainda nem sonhava em ser a Batgirl. Em Loucura, que arrisco dizer ser o mais denso e bem construído da breve antologia, Loeb exibe uma excelente apropriação discursiva de Alice No País das Maravilhas. O que poderia ficar restrito à doentia mente de Jarvis Teech através de seu alter-ego Chapeleiro Maluco, ganha amplitude e incide em íntimas memórias de Bruce Wayne, que denota uma relação muito próxima com a obra de Lewis Carroll.

A coleção chega ao fim com o conto Fantasmas, que, junto a Temores, aproxima-se mais contundentemente de narrativas mais usuais em relação ao Morcego. Fugindo um pouco da ambientação do Dia das Bruxas, a trama propõe um estreitamento com o clássico natalino A Christmas Carol. O resultado final é, no entanto, pouco satisfatório e desequilibrado em relação às histórias antecessoras. O roteiro de Loeb apresenta seus primeiros problemas, mas, felizmente é salvo pela impecável arte de Sale que não deixa a desejar em momento algum.

Os traços sutis e cuidadosamente voltados aos detalhes revelam uma capacidade invejável e consegue se destacar em totalidade. Mesmo com um roteiro maduro, coerente e bastante bem sucedido, Batman: Dia das Bruxas impressiona ainda mais com sua arte. Tim Sale nos presenteia com um dos mais belos traços em publicações do Homem-Morcego.

Batman: Dia das Bruxas (Batman: Haunted Knight – EUA, 1996)
Edição Encadernada
Lançamento no Brasil: Panini Comics (2011).
Roteiro: Jeph Loeb
Arte: Tim Sale
Cores: Gregory Wright
Páginas: 198

FILIPE MONTEIRO . . . O exército vermelho no War, os indianos em Age of Empires, Lannister de Rochedo Casterly. Entrou em órbita terrestre antes que a Estrela da Morte fosse destruída, passou pela Alameda dos Anjos, pernoitou em Azkaban, ajudou a combater o crime em Gotham e andam dizendo por aí que construiu Woodburry. Em uma realidade alternativa, é graduando em Jornalismo, estuda Narrativas e Cultura Popular, gosta de cerveja e tempera coentro com comida.