Crítica | Batman do Futuro: O Retorno do Coringa

O longa animado O Retorno do Coringa foi produzido entre as segunda e terceira (também última) temporadas de Batman do Futuro depois que duas animações com o Batman na versão Bruce Wayne foram canceladas pela Warner e foi lançado na televisão em continuidade com a própria terceira temporada. Com Paul Dini no roteiro, a partir de uma história dele em parceria com Bruce Timm e Glen Murakami, a animação contou com as clássicas vozes da série, notadamente o indispensável Kevin Conroy como o idoso Wayne e Will Friedle como seu pupilo Terry McGiniss, além de, claro, Mark Hamill de volta para viver o Coringa, que misteriosamente reaparece em Neo-Gotham décadas depois de sua aparente morte.

Sem economizar na violência o que, em razão da repercussão do massacre em Columbine meses antes, levou a obra de volta à mesa de edição para uma batelada de cortes (a versão aqui criticada, porém, é a completa), a animação é ágil e não perde tempo em fazer o que o título promete: o Coringa aparece nos cinco primeiros minutos da projeção, depois que o Batman futurista frusta um roubo pela gangue dos Jokerz. Claro que o roteiro é esperto em soltar as peças do quebra-cabeça ao poucos, mas de forma muito bem compassada, que não deixa o ritmo cair e manobrando a mitologia dos personagens clássicos – Batman Wayne, Batgirl (Tara Strong), Robin Tim Drake (Mathew Valencia), Arlequina (Arleen Sorkin) e Coringa, em um extenso flashback –  de forma a moldar uma história pesada, que, arriscaria dizer, ecoa mais fortemente até do que o inesquecível assassinato de Jason Todd na clássica Morte em Família.

Ainda para o mérito de Dini, apesar de ser um longa dentro da continuidade da série, há um cuidado grande por parte dele para permitir a “entrada” de espectadores que desconhecem completamente o Batman do Futuro e isso sem que ele desvie o texto para fazer a contextualização. Ao contrário, Dini consegue esse resultado organicamente, sem sobressaltos, ainda que um desavisado consiga facilmente “desconfiar” que há algo além do que o que ele está vendo, especialmente no que diz respeito à volta de Wayne ao controle de sua empresa, uma ponta narrativa que é introduzida logo no começo da animação e que se conecta com o final de seu segundo terço, logo antes da pancadaria final entre McGiniss e o Coringa.

A velocidade vertiginosa, porém, tem um defeito, que é justamente a revelação do “segredo do Coringa”, que, diferente de todo o resto da história, é trabalhado unicamente por meio de texto expositivo e, além disso, exige do espectador uma dose extra de suspensão da descrença, com a introdução de um palavreado científico conveniente demais. Certamente é um detalhe, mas, mesmo assim ele incomoda pela facilidade com que a explicação é jogada sem cerimônia em nosso colo, descolando a série de sua lógica interna tão bem estabelecida. Isso poderia ter sido evitado com mais alguns minutos de duração que plantassem essa semente e a fizessem germinar lentamente, permitindo uma conexão mais orgânica dentro da própria narrativa.

Os trabalhos de voz mantêm a altíssima qualidade que as animações do universo do Batman tinham àquela época, com amplo destaque, claro, para Conroy e Hamill, ainda que todo o elenco – até mesmo Frank Welker, que faz os “sons” do Homem-Hiena e de Ace, o Bat-Cão – mostre enorme proficiência e uma química imedita. E, sem invencionices, a arte continua exatamente o mesmo estilo que a série então em andamento tinha, sem solução de continuidade, mas com um novo figurino para o Palhaço do Crime, desta vez apropriadamente inspirado por artes de Hannibal Lecter, da produção de O Silêncio dos Inocentes, ou seja, emudecendo o lado “cômico” e focando na psicopatia, com um corpo esguio e arqueado, ameaçador até a raiz do cabelo graças a um Hamill sempre inspirado.

Batman do Futuro: O Retorno do Coringa pode até ser o único longa protagonizado por esse Batman específico, mas, não obstante, ele é, também, um dos melhores longas animados do universo do Morcegão, talvez ali brigando por uma posição no pódio. Pode ser passado no futuro, mas, ao carregar respeitosamente o peso do legado do herói e reempacotá-lo em uma história poderosa, violenta e inesquecível, a obra sem dúvida merece constar no panteão do Cruzado Encapuzado.

Batman do Futuro: O Retorno do Coringa (Batman Beyond: Return of the Joker, EUA – 2000)
Direção: Curt Geda
Roteiro: Paul Dini, baseado em história de Paul Dini, Glen Murakami e Bruce Timm (personagens criados por Bob Kane e Bill Finger)
Elenco (vozes): Will Friedle, Kevin Conroy, Mark Hamill, Angie Harmon, Dean Stockwell, Arleen Sorkin, Melissa Joan Hart, Michael Rosenbaum, Don Patrick Harvey, Henry Rollins, Frank Welker, Lauren Tom, Rachael Leigh Cook, Teri Garr, Tara Strong, Mathew Valencia
Duração: 76 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.