Crítica | Batman e Arlequina: Pancadas e Risadas

Não há uma única pessoa que levante o dedo para falar mal de Batman: A Série Animada, de Bruce Timm e Eric Radomski. Tendo os mesmos traços clássicos do famoso seriado animado do herói, Batman e Arlequina, portanto, nasce com enormes expectativas, oriundas do retorno de Bruce às animações da DC. Com esse novo longa-metragem estrelando tanto o ilustre Cavaleiro das Trevas quanto a vilã mais popular do momento, Arlequina (dado o sucesso estrondoso do fraco Esquadrão Suicida), é bem inacreditável que essa obra seja um grande fracasso do estúdio de animação da Warner. Estamos, além disso tudo, falando do retorno de Kevin Conroy e Loren Lester aos papéis de Batman e Asa Noturna respectivamente, ambas vozes marcantes para os seus personagens. Na premissa, os dois heróis estão em busca da Hera Venenosa (Paget Brewster) e de Jason Woodrue (Kevin Michael Richardson), vilões que escondem por trás de suas ações um plano mirabolante que visa o fim do mundo – ou seria a sua salvação? A começar, como pano de fundo para isso tudo, Timm e Jim Krieg trazem na presença de Hera e Woodrue, a questão dos danos causados pelo homem contra o meio-ambiente. Nada é explorado muito a fundo, mas a ideia é consideravelmente válida, mesmo que o roteiro dê um tiro no seu pé em questão de dualidade quando decide criar uma problemática sobre determinado soro que apenas tira todo o poder dele, deixando-o indefensável em termos morais. No mais da trama, a Dupla Dinâmica acaba recorrendo à Arlequina (Melissa Rauch). Temos então a nossa história e um grande problema, a beira do indefensável (visto que sempre terá alguém para apoiar tratamentos como esse), que será dissertado a seguir.

Devemos notar que quadrinistas são, em sua grande maioria, homens. O mundo dos quadrinhos sempre teve, infelizmente, uma predominância masculina e, por esse caminho, muitas das personagens femininas ganharam traços extremamente sexualizados. Apesar de haver algumas figuras dessa mídia que usam a sensualidade a seu favor, a verdades por trás de tudo isso é que tal característica começou a ser atribuída a muitas heroínas e vilãs apenas para justificar os desenhos extremamente questionáveis, feitos por homens para o agrado de homens, estes com visões problemáticas da mulher, voltando a integralidade delas para os corpos exuberantes e irrealistas das ilustrações. Arlequina é, sem sombra de dúvidas, um produto disso, mesmo que a fonte original, o próprio desenho de Timm e Paul Dini, não abuse desse seu lado sensual. Porém, o que os roteiristas fazem em Batman e Arlequina é um grande absurdo, ainda mais em tempos nos quais vemos um filme como Mulher-Maravilha quebrar recordes de bilheteria. Os traços contornam todas as camadas do corpo da personagem e os planos fazem questão de exaltá-los sem dó nem piedade. Até mesmo o local de trabalho da reformada Harley é um grande fetiche ambulante, com várias mulheres andando de um lado para o outro trajando uniformes sexualizados de heroínas famosas. Se não bastasse isso, o filme nos dá a ilustre cena da vilã balançando os seus peitos (uniformizados, é claro, não há nudez nesse filme, graças a Deus) para uma plateia de criminosos. Uma palhaçada ofensiva.

Mas Batman e Arlequina vai além e faz Asa Noturna e Arlequina se envolverem sexualmente, quase como em um prenúncio pornográfico de mau-gosto. E as piadinhas sobre esse acontecimento vem e voltam, com Batman sendo uma barreira de risos, mas também uma espécie de contradição prestes a se jogar para a galhofa. Uma mistura ridícula de Batman: O Homem-Morcego com Batman: O Retorno. Acontece que, enquanto tentar ser um filme policial noir, Batman e Arlequina também abraça o escrachado de uma forma inacreditável, com o uso de escatologia gratuita dentro do Batmóvel. Sério, Batman tem que parar o carro porque Arlequina estava soltando gases indiscriminadamente. É um humor demasiadamente infantil, mas que não faz sentido dentro de um filme que tem um caráter sexual muito forte – inclusive palavrões ditos pela metade e Dick Grayson fazendo sinais obscenos. Mas até que há espaço para uma diversão descompromissada, boas cenas de lutas como as usuais, traços animados nostálgicos e certos momentos para Arlequina brilhar, mesmo que as camadas de perversão desnecessária afetem o resultado final. Melissa Rauch, aliás, está bem como a personagem, substituindo a voz original de Arleen Sorkin. Para exemplificar, destaca-se  a cena na qual Harley conforta um homem prestes a morrer. Ademais, a presença do Monstro do Pântano, uma figura mística deixada em segundo plano, é muito forte; uma bela maneira de se olhar o personagem. No final, porém, tudo é jogado para escanteio na tentativa de se fazer comédia barata, na busca por soluções fáceis para situações muito mais complicadas. Mas isso é parte do pacote chamado Batman e Arlequina, uma monstruosa bobagem audiovisual, imprevisível como a personagem-título é, mas no mau-sentido da palavra, um dos piores significados possíveis para ela.

Batman e Arlequina: Pancadas e Risadas (Batman and Harley Quinn) – EUA, 2017
Direção: Sam Liu
Roteiro: Bruce Timm, Jim Krieg
Elenco: Kevin Conroy, Melissa Rauch, Loren Lester, Paget Brewster, Kevin Michael Richardson, John DiMaggio, Eric Bauza, Robin Atkin Downes, Trevor Devall, Rob Paulsen, Mindy Sterling, Bruce Timm
Duração: 74 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.