Crítica | Batman e o Monge Louco

Monge Louco

estrelas 4

Fazendo parte do mesmo universo de Ano Um, Batman e o Monge Louco dá continuidade aos eventos de Batman e os Homens-Monstro. Novamente estamos diante de um homem-morcego que, embora já tenha combatido alguns de seus famosos vilões, como Capuz Vermelho e Hugo Strange, ainda pode ser considerado amador. Bruce ainda não está ciente de todas as repercussões de sua empreitada contra o crime e o roteiro e arte, novamente nas mãos de Matt Wagner, sabem disso, trazendo uma retratação bastante humana e, muitas vezes, falha do personagem.

Nesta história, Wayne foge ainda mais de seu lugar comum, sendo colocado contra um inimigo nada menos que inusitado, considerando o realismo presente neste conceito iniciado por Frank Miller. Dessa vez o vigilante mascarado vai de encontro ao líder de um culto de bebedores de sangue humano, conhecido como o Monge. Apesar deste evidente toque de sobrenatural na obra, Wagner sabiamente decide não se aprofundar nele, deixando um palpável mistério presente em suas seis edições. Em nenhum ponto temos a confirmação de estarmos diante de vampiros, mesmo que o próprio Batman considere essa possibilidade, utilizando-se da famosa citação de Conan Doyle: Quando você elimina o impossível, o que sobra, por mais improvável que pareça, só pode ser a verdade. O paralelo já recorrente entre o homem-morcego e Sherlock Holmes é novamente traçado, nos remetendo automaticamente a O Cão dos Baskerville, que coloca o detetive inglês em uma situação tão fora da realidade quanto a esta em questão.

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Aposto que não esperavam uma briga dessas

Voltando para a incerteza da natureza do vilão, chegamos rapidamente ao ponto crucial que define o tom da obra: seu suspense. Já com isso em mente, Matt Wagner compõe seu roteiro através das velhas intercalações de ponto de vista, fortemente presentes nessa linha desde Ano Um. Com isso, vemos a trama se dividir em diferentes núcleos, protagonizados pelo próprio Bruce, é claro, Julie, sua namorada apresentada em Batman e os Homens-Monstro e Jim Gordon. Dentro de cada perspectiva a semelhança com a obra de Miller é evidente, fazendo uso dos balões de pensamento que povoam cada quadro, sendo essenciais para o desenrolar da história, que, em diversos momentos, se baseia somente nos momentos introspectivos de cada personagem.

Retomamos, portanto, a ênfase no caráter humano de cada um e nas repercussões da chegada do homem-morcego. Mais de uma vez podemos ler Wayne se perguntando se sua chegada em Gotham provocou o surgimento dos diferentes lunáticos mascarados que passaram a povoar a cidade. Vale ressaltar que aqui ele já teve seu encontro com o Capuz Vermelho, já citado anteriormente, e a Mulher-Gato (que aparece em sua famosa roupa de O Longo Dia das Bruxas). De fato, o roteiro coloca em seu protagonista a dúvida já presente nas mentes dos leitores, mas não perde tempo com infindáveis dilemas, inserindo tal indagação somente para compor seu universo, dando brecha para um futuro arco, mais especificamente Batman: O Homem que Ri, encabeçado por ninguém menos que Ed Brubaker.

É claro que todo o mistério e ênfase na condição humana cairiam por terra não fosse a marcante arte do próprio Wagner, que claramente se apoia no trabalho de David Mazzuchelli em Ano Um, porém com uma clara identidade própria. O que vemos são traçados que dão à caricatura uma certa crueza, gerando uma grande harmonia com esta trama repleta de misticismo, suspense e violência gráfica. Através das cores de Dave Stewart presenciamos inúmeros quadros que beiram o minimalismo ao serem compostos apenas por um contraste entre as sombras, tão presentes neste conceito de Batman. É um trabalho bastante acessível, que permite um grande dinamismo mesmo nas páginas preenchidas por falas ou pensamentos.

Perante todas as qualidades da obra, ainda não conseguimos relevar um defeito marcante que se apresenta nas últimas páginas da minissérie. Aqui nos referimos ao gigantesco anti-clímax presente em seu encerramento, que soa como uma forma apressada, ainda que nada convencional, de se acabar com a ameaça imposta pelo Monge. Infelizmente esse é um daqueles deslizes que não conseguimos esquecer, mesmo diante da qualidade geral de suas edições.

Ainda assim, Batman e o Monge Louco é uma história digna de dar continuidade ao universo criado em Ano Um, nos trazendo uma fascinante retratação desses casos iniciais do homem-morcego. Embora deixa bastante brechas para narrativas posteriores, trata-se de um arco fechado em si mesmo, contendo uma estrutura clara de início, meio e fim que somente irá decepcionar o leitor por alguns pequenos instantes. Definitivamente vale a leitura, seja conhecedor dos arcos anteriores ou não.

Batman e o Monge Louco (Batman & the Mad Monk, EUA – 2006/2007)
Roteiro: Matt Wagner
Arte: Matt Wagner
Cores: Dave Stewart
Editora: DC Comics
Páginas: 21 (cada edição)

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.