Crítica | Batman Eternamente

estrelas 0,5

É difícil achar argumento para defender um filme que não consegue nem mesmo acertar nos créditos finais. Sim, isso mesmo, aquela tela preta com nomes dos que participaram no filme. Os créditos de Batman Eternamente têm duas músicas boas, “Hold Me, Thrill Me, Kiss Me, Kill Me”, do U2 e “Kiss from a Rose” de Seal. Mas elas são sincronizadas e editadas de maneira porca, com um fade out forçado da primeira que mais parece uma freada de um caminhão desgovernado e um fade in da segunda que é como se fosse um bebê de repente metendo a mão no volume de um receiver.

Com a relativa baixa bilheteria de Batman – O Retorno, a Warner decidiu encomendar um terceiro filme do herói encapuzado que fosse mais família. Os executivos do estúdio acharam que o tom sombrio e violento da obra anterior havia sido a razão para seu fraco desempenho. Assim, Tim Burton foi afastado do cargo de diretor, passando a ser apenas um dos produtores e Joel Schumacher foi chamado para comandar a película. Com essas mudanças, Michael Keaton recusou voltar ao papel de Bruce Wayne/Batman e Val Kilmer foi recrutado sem nem mesmo ler o roteiro (que roteiro?) antes.

Já que o objetivo era ser um filme leve, Schumacher passou a tentar espelhar o tom camp da clássica série sessentista do herói estrelando Adam West e Burt Ward. Dessa forma, o diretor jogou fora a Gotham City sombria de Burton e introduziu Nova Iorque no lugar (fazendo as vezes de Gotham), mas com insalubres doses de claridade e luzes neon. Também arregimentou Tommy Lee Jones como Duas Caras e Jim Carrey como Charada e pediu aos dois para serem os mais histriônicos possíveis (como se pedir algo assim para Jim Carrey fosse necessário). Finalmente, Schumacher trouxe ao elenco um Robin mais velho (Chris O’Donnell) e uma psiquiatra ninfomaníaca (Nicole Kidman tentando emular Kim Basinger em 9 Semanas e Meia de Amor). Estava pronto o cenário para uma das maiores trapalhadas cinematográficas já feitas, com direito a indesculpáveis bat-mamilos e close-ups nas nádegas dos atores.

O inexistente roteiro coloca Batman enfrentando Duas Caras e Charada, que se juntam para derrotá-lo. A história não tem pé nem cabeça e é tão cheia de furos que mais parece ter sido costurada depois de uma sessão de brainstorming sob efeitos lisérgicos. O único personagem minimamente bem tratado – ênfase no minimamente – é Robin, que recebe uma origem próxima de sua contrapartida dos quadrinhos e tem um arco de desenvolvimento com alguma credibilidade. De resto, o que vemos é uma sucessão interminável de gags e cenas de ação absurdas e exageradas.

Val Kilmer não convence como Bruce Wayne, pois parece estar atuando sem muita paciência para as ordens do diretor. O mesmo vale para Nicole Kidman que não faz muito mais do que lançar olhares lânguidos para todo homem que passa na frente dela. O’Donnell está sério e sombrio demais para um filme que mais parece um circo. Devem ter esquecido de dizer a ele como seria o tom da obra. Jones e Carrey se divertem em seus respectivos papéis, mas tudo é tão exagerado com eles que fica difícil agüentar as repetidas e incessantes risadas, poses e caretas.

Batman Eternamente não se sustenta nem como uma homenagem ao filme e série da década de 60. Na série, víamos um frescor camp e uma despreocupação com a seriedade em todos os níveis, tornando-a o sucesso que até hoje ainda é. No filme, a tentativa camp fracassa em todos os níveis, pois o roteiro – Akiva Goldsman foi um dos três roteiristas e o principal responsável pelo que vemos na tela – é pouco inteligente, tenta se levar a sério (afinal, a história de Robin tem contornos pesados) e Schumacher exagera nas cores, explosões e efeitos especiais, mas não sabe fazer montagem, além de apresentar uma direção abaixo do aceitável.

Aliás, nas categorias de efeitos especiais e maquiagem, apesar da presença de nomes ilustres dessas áreas com John Dykstra e Rick Baker, o filme não tem melhor sorte. Tudo parece muito apressado, simplista e definitivamente não sobreviveu ao teste do tempo.

Batman Eternamente nunca deveria ter saído do papel, mas, já que saiu, poderia muito bem ser esquecido ou lembrado apenas como o filme que não deveria ter existido.

Batman Eternamente (Batman Forever, EUA, 1995)
Direção: Joel Schumacher
Roteiro: Lee Batchler, Janet Scott Batchler e Akiva Goldsman
Elenco: Val Kilmer, Nicole Kidman, Tommy Lee Jones, Jim Carrey, Chris O’Donnell, Michael Gough, Pat Hingle, Drew Barrymore, Debi Mazar
Duração: 121 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.