Crítica | Batman: Gótico

plano critico batman gothic gotico batman

estrelas 4,5

Batman é um dos super-heróis mais realistas já criados. Não tem poderes e depende unicamente de seu cérebro, habilidade física e, claro, todos os brinquedinhos que o dinheiro pode comprar. No entanto, Batman também depende de fortes símbolos, o mais evidente deles sendo o medo, personificado por seu uniforme feito para literalmente aterrorizar os criminosos. Mas Batman também é um ser das sombras, do oculto e, sim, da morte. Foi a morte que fez o Morcego surgir e, ainda que ele não mate (pelo menos não hoje em dia), a morte o cerca. E isso faz de Batman um herói que paradoxalmente combina muito bem com o sobrenatural.

E muitos autores descobriram esse aspecto desde cedo na carreira editorial do Homem Morcego, mas poucos conseguiram triunfar nesse caminho. Gótico, arco da série Lendas do Cavaleiro das Trevas, escrito por Grant Morrison e desenhado por Klaus Janson, é um dos grandes exemplos da perfeita fusão de Batman com aspectos puramente místicos e sobrenaturais. É uma obra que, mesmo galgada na realidade, ao se desviar para o caminho do completamente fantástico, não se perde e resulta em algo crível, assustador e definitivo.

Falando em demônio, a simbologia de Morrison sobre o tema é absolutamente fantástica, pois, toda hora que pode, ele insere menções ao diabo, fazendo paralelo dele com o próprio Batman. Mesmo o herói, em uma de suas triunfais entradas, diz muito claramente, nas sombras, aos criminosos: “Gotham City é o inferno. Nós estamos no inferno. E eu sou o rei do inferno!” Longe de ser discreto, Morrison é, porém, muito eficiente, arrasador em seu texto. E Janson sabe se aproveitar dessas imagens criadas por palavras para desenhar quadros dignos de filmes de terror do naipe de Os Inocentes e até mesmo de Nosferatu. Em outro momento, por exemplo, quando os chefões da máfia de Gotham decidem chamar Batman usando o bat-sinal (ah, que doce ironia!), eles o fazem usando um “morcego invertido”, em outra óbvia referência à simbologia do que é Batman.

Mas acho que me empolguei e nem mesmo falei da história. Ela é parcialmente simples: um homem misterioso começa a matar brutalmente os bandidos de Gotham que, ato contínuo, pedem ajuda para Batman, por acharem que um tal de Sr. Whisper (“Sussurro”) voltou. Quem é o Sr. Whisper e o que ele representa já fica evidente pela explicação que dei acima sobre a simbologia de Batman. Mas é claro que Morrison não para por aí, e trata de amarrar a história com o passado de Bruce Wayne quando criança ainda em um internato e, também, com um mosteiro inundado na Áustria, há 300 anos. Dentro do conceito de “história sobrenatural”, todos os elementos abordados por Morrison, cada uma das aparentemente díspares linhas narrativas vão encontrando seu ponto em comum, para um desfecho mais do que satisfatório.

Somado a tudo isso, há ótimos momentos de alívio cômico escritos por Morrison e todos saindo da boca de Alfred, com suas ironias ferinas encaminhadas ao seu “Master Bruce”. Momentos hilários em uma história pesada, com muitas mortes e sustos.

Se existe um aspecto que desgosto nessa narrativa é a necessidade de Batman viajar para a Áustria para investigar o passado do vilão e fazer isso como Batman e não como Bruce Wayne. São momentos que atrapalham a imersão na narrativa, especialmente quando o herói mergulha em um lago com o uniforme completo, incluindo a capa. No entanto, também podemos aceitar isso sob o aspecto da simbologia e também pelo contexto sobrenatural da história. Quem vai investigar é o símbolo, não o homem. É o mito, não o milionário. Visto assim, nesse formato de lenda, essa liberdade de Morrison e Janson funciona muito bem.

Gótico é um grande exemplo de como escrever e desenhar Batman, a lenda, em contraste a Batman, o super-herói.

Batman: Gótico (Batman: Gothic – Legends of the Dark Knight #6 a 10, EUA)
Roteiro: Grant Morrison
Arte: Klaus Janson
Editora: DC Comics (publicado entre abril e agosto de 1990)
Páginas: 125

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.