Crítica | Batman / Hortelino Troca-Letras

Sometimes the wain comes down so hawrd you forwget you’ve ever been dwy.
– Troca-Letras, Hortelino

A ideia de fazer crossovers em quadrinhos dos super-heróis da DC Comics com os personagens Looney Tunes é tão brilhante que chega a ser inacreditável que ela só tenha sido levada a cabo em 2017. E Batman/Hortelino Troca-Letras foi a última e melhor da primeira leva e parte da razão pela qual Tom King abocanhou o prestigioso prêmio Eisner de Melhor Roteirista em 2018.

Seguindo o padrão desses one-shots, há duas histórias independentes, mas com a mesma dupla improvável. A primeira com pegada realista, basicamente trazendo Hortelino para o mundo do Batman e a segunda exatamente o contrário, levando o Homem-Morcego para o mundo dos Looney Tunes. E, aqui, as duas narrativas, ambas escritas por King, funcionam à perfeição, capitalizando em cima de uma perfeita compreensão do que são esses tão queridos personagens, mas com especial destaque para a primeira, sem dúvida alguma.

Em Pway For Me, King bebe diretamente de Batman: Ano Um e cria um clima noir que Lee Weeks realiza magnificamente bem com sua arte detalhista, trabalhando profundos constraste e que recria não só Hortelino, mas como os principais personagens Looney Tunes com um realismo que não julgava possível. E não falo aqui somente dos personagens “humanos”, mas sim – e especialmente – dos animais como Piu-Piu, Frajola, Taz e até mesmo Frangolino, que substituem eficientemente a galeria de vilões do Batman, tendo como ponto de convergência o bar Porky’s, onde o caçador de recompensa Hortelino Troca-Letras entra inicialmente para matar o Pernalonga em vingança pela morte de Silver St. Cloud, sua amante. Quando o esperto devorador de cenouras diz que foi contratado por Bruce Wayne para cometer o crime, a mira da espingarda de Hortelino se vira para o playboy milionário, colocando-o em rota de colisão com Batman.

O combate do século em duas versões!

A grande jogada de King e Weeks é tratar o completo absurdo como algo completamente normal e sério. Não há concessões para piadas, para brincadeiras. Tudo o que acontece na história poderia muito bem ser uma história verdadeira com Batman como protagonista. Sim, Hortelino troca as letras e Pernalonga é dentuço e só come – ou bebe – cenouras, mas toda a narrativa é um noir que é perfeitamente sério e bem estruturado como uma história de vingança pura e simples, com direito a narração em off de Hortelino, chuva e sombras profundas.

E, claro, a graça deriva exatamente daí. King, ao levar a brincadeira a sério, arranca risadas fáceis do leitor que fica simplesmente estupefato diante do absurdo total da coisa. Como assim Hortelino como um caçador de recompensas violento e cego por vingança? Como assim o Pernalonga como um sujeito malandro que cometeu um assassinato? E como assim o Batman no meio disso tudo, gente? É fugindo da comédia que King faz comédia e das boas. Das melhores, na verdade. E Weeks, com os traços pesados, ajudados pelas cores de Lovern Kindzierski, resultando em algo que sim, poderia mesmo ser um spin-off de Ano Um ou, talvez, de O Longo Dia das Bruxas, é a cereja no bolo de um roteiro que vai no ponto e acerta sempre. Se a piada começa no conceito completamente sem pé nem cabeça, ela é trabalhada, estendida e amplificada justamente por não parecer piada.

Para relaxar, a segunda história traz Hortelino de volta em “seu mundo” e mais uma vez – claro – atrás do Pernalonga na famigerada temporada de caça aos coelhos. Não demora, porém, e o Pernalonga, usando o bat-sinal, convence seu nêmesis de que, na verdade, a temporada é de caça aos morcegos, o que resulta em uma historieta que eu gostaria muito de ver um dia em forma de animação Looney Tunes, com direito a um daqueles finais absolutamente perfeitos (mas que sofreria demais na tradução para o português) e, lógico, hilários. Nessa parte, a arte é de Carrie Strachan que encarna uma versão mais, digamos, “primitiva” de Chuck Jones, mas que se encaixa perfeitamente com a proposta.

O crossover de Batman com Hortelino Troca-Letras é uma daquelas histórias despretensiosas que pegam o leitor de jeito e o faz desejar por mais. Quem sabem Tom King não decide introduzir Hortelino como personagem fixo na mitologia do Morcegão, hein?

Isso é tudo, p-p-p-p-pessoal!

Batman / Hortelino Troca-Letras (Batman/Elmer Fudd Special #1, EUA – 2017)
Roteiro: Tom King
Arte: Lee Weeks, Byron Vaughns
Cores: Lovern Kindzierski, Carrie Strachan
Letras: Deron Bennett
Editoria: Michael McCalister, Marie Javins
Editora original: DC Comics
Data original de publicação: 28 de junho de 2017
Páginas: 43

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.