Crítica | Batman: Justiça Cega

estrelas 3

Segundo um certo ditado popular, de boas intenções o inferno está cheio.

Após a leitura de Justiça Cega (1989), arco da Detective Comics, “encomendado” para a comemoração do aniversário de 50 anos do Morcegão, eu pude comprovar o tal ditado (mais uma vez), na prática.

Escrito por Sam Hamm, o roteiro de Justiça Cega tem uma concepção geral cheia de boas e macabras intenções. O autor procurou destacar um crime horrendo desde o início e tentou contribuir para o cânone do herói trazendo flashes do passado e pondo uma ameaça quase incontrolável em cena. O grande impasse é que menos da metade disso funciona plenamente no decorrer da história.

Se a trama se contentasse apenas com a apresentação de Henri Ducard (personagem do qual gosto bastante), o resultado seria outro. E com isso não quero dizer que a história deveria ser bruta, seca, inteiramente dedicada ao francês turrão. Minha colocação é que o caminho percorrido para a introdução dele é demasiadamente esburacado e até desinteressante, salvando-se, em boa parte das vezes, por algumas páginas de ação e pela arte quase inteiramente aceitável de Denys Cowan.

Iniciamos a aventura com um toque conspiratório-institucional, uma série de eventos que fogem ao controle de Bruce Wayne e que se passam nas dependências da WayneTech. A boa intenção aqui está misturada com a visão antenada de Sam Hamm para a sociedade de seu tempo – com destaque para os experimentos científicos e o poder extremo da mídia televisiva, este, já demonstrado de forma irreparável em histórias como Ano Um e O Cavaleiro das Trevas –, conseguindo dar a necessária força urbana que a história pede.

Mas se acerta o tom no tratamento dos ingredientes seculares, Hamm perde a mão no contexto dos antagonistas, da criação de um bizarro sonho de Bruce Wayne como fator dramático, e dos personagens secundários. O Esmaga-Ossos faz pouco sentido no conceito primário da história, o sonho não faz sentido real na trama e o roteiro degringola para páginas e páginas sobre controle remoto da mente para a geração de assassinos; sacrifícios de corpos para não serem pegos e investigados; uma dupla de irmãos chatos e ridiculamente contextualizados e, para terminar, um toque moral, potencialmente lírico, que termina a história de maneira forçada, fazendo-nos engolir com amargura o discurso de uma justiça cega, como um morcego.

A presença do Cartel, a relação entre Wayne e Gordon e a construção do personagem Henri Ducard são os verdadeiros elementos positivos da trama e a leitura pode valer apenas por eles. Se descontarmos os quadros em que a proporção é mandada para uma outra dimensão, também temos como positiva a arte e a finalização das páginas, mais dois elementos que nos fazem gostar um pouco mais da história. No fim, Justiça Cega até vale a leitura, mas o leitor deve ter em mente que não encontrará brilhantismo ou pontos completamente inesquecíveis em suas páginas.

Batman: Justiça Cega (Blind Justice) – EUA, 1989
Publicação original: Detective Comics #598 a 600
Roteiro: Sam Hamm
Arte: Denys Cowan
Arte-final: Dick Giordano, Frank McLaughlin
Cores: Adrienne Roy
Páginas: 161 (encadernado com extras)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.