Crítica | Batman & Mulher-Gato: O Casamento (Batman #50)

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Arte

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Roteiro

Vamos começar pela principal coluna de uma construção narrativa: a coesão. Quando você escreve um roteiro, um conto, um romance, qualquer obra ficcional que tenha personagens envolvidos e que suas vidas são descortinadas ao longo de todo um enredo, o autor é obrigado a fazer com que a jornada entre o ponto A e o ponto B tenha sentido em si mesma, tanto como drama (o evento em si), quanto como significado externo (a ligação desse evento com sua proposta/preparação/marketing). Não interessa se ele vai fazer jornadas sequenciais com letras do alfabeto inteiro, não interessa se existirão variações em cascata do tipo Ponto-B2, Ponto-B3, Ponto-B4…, não interessa se isso é apenas parte de um grande plano a ser finalmente revelado 50 capítulos depois. Ao criar um grande evento e preparar leitores + um Universo inteiro de personagens para receber a mudança, o mínimo que o autor precisa ser é coerente com a sua proposta. O que vier depois disso será analisado de outra forma, com outro espírito e outro peso porque, ninguém jamais vai negar isso, trata-se de uma outra história. Com isso em mente, chegamos a Batman Vol.3 #50: The Wedding of Batman & Catwoman, a colossal DCpção de Tom King (até então, queridinho da galera) depois de ter passado todo esse tempo nos preparando para o tal casamento.

Os pontos essenciais de leitura, para vocês terem noção de como pesa nas costas do autor a atrocidade de roteiro que ele entrega aqui, começam ainda no arco Eu Sou Suicida, do qual se destacam as edições #14 e 15. Então na edição #24 (Todo Epílogo é um Prelúdio), um passo antes do arco A Guerra das Piadas e das Charadas (edições #25 a 32) o pedido de casamento é feito, e onde confissões e conversas pré-matrimoniais ganham destaque, inclusive com ponderações com os dois pés no chão, deixando claro que Gata e Morcego sabiam muito bem onde estavam se metendo e o que teriam e poderiam ter pela frente. Abandono de vigilantismo, diminuição de atividades e transformação do Cavaleiro das Trevas num My Little Pony da Luz nunca esteve em pauta, o que torna a justificativa final da edição #50 ainda mais estúpida.

A partir de então, o run de Tom King cimentou as mais diversas trilhas possíveis parar mostrar o quanto o Batman poderia reconsiderar a sua visão de mundo e entender que sua vida não precisava mudar para a de um jogador de golfe despreocupado. Ele é grandinho e bom demais para saber lidar com um ponto de felicidade contínua em sua vida — e se a gente quiser ver algo que realmente exponha isso de modo literal, basta ler os conselhos do Thomas Wayne da timeline de Flashpoint para o filho, em O Bóton –, uma ideia que ganha ainda mais força e boas incursões no arco As Regras do Noivado (edições #33 a 37), no arco Noiva ou Ladra? (o encadernado americano reúne nele as edições #38 a 44, mas vale lembrar que a edição 38 não tem a ver com o casamento) e, por fim, o arco O Casamento (#45 a 50), dividido em dois pequenos capítulos: O Presente (#45 a 47) e O Padrinho (#48 e 49).

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Então pensemos em termos de exposição e tempo gasto desenvolvendo algo: da edição #24 (junho de 2017) até a edição #50 (julho de 2018), um ano de publicações ininterruptas (já estou descontando a #38), tivemos histórias que criavam uma instigante balança para os prós e contras do casamento, estabelecendo grande variedade de possibilidades — o que nem sempre foi algo positivo no meio dos arcos –, servindo de pano de fundo para a relação entre Batman e Mulher-Gato. Tudo isso para não chegar no momento do casamento e termos coisas do tipo: “ah, mas esse aspecto não foi considerado“, “ah, mas foi tudo muito impulsivo“, “ah, mas não fazia sentido para os dois naquele cenário“. Tudo bem não gostar da ideia do Batman se casando (eu também não gosto). Mas se a coisa recebe um bom tratamento e se criam 12 meses contínuos de publicações a respeito, mesmo o maior defensor o Morcego solitário entende que a coisa faz sentido sim dentro do Universo. Um autor passou um ano inteiro escrevendo coisas para que isso fizesse sentido. Então, por que não abraçar a ideia, mesmo que o sentimento pessoal ainda seja o de rejeição? Pois é. Agora juntem todos esses ingredientes e joguem naquilo que Tom King nos entrega nessa revista, procurando responder a uma pergunta: se era para ter um final desses, por que não alocar tal pensamento dentro das confissões do casal ao longos de 12 meses, em vez de ponderar tudo de maneira madura, dando a impressão de que não tinha mais nada para pesar a respeito?

SPOILERS!

A questão se fecha na absoluta falta de coerência e se pauta no formato distanciado e truncado que o autor utiliza para terminar com Selina deixando Bruce esperando 1h no telhado de um prédio (o altar deles). À medida que algumas páginas muito boas (e outras nem tanto) de artistas icônicos do passado e presente do Batman celebram o evento, vemos trechos de cartas que um par deixa para o outro, cada um fazendo importantes confissões. Isso depois de um arco inteiro dedicado a confissões e ponderações a respeito do compromisso que os dois estavam assumindo e de todos os eventos que se passaram entre as revistas #24 e 49 do título corrente. A má escolha do texto em tomar mais da metade do tempo com pedaços de carta falando sobre os olhos do casal é enervante. Existe apenas um único momento bom, de uma página, que mostra Bruce escolhendo Alfred como padrinho. Aliás, a única coisa que me impediu de classificar o roteiro com a nota Lixo Atômico foi justamente essa cena. Todo o restante da revista é um ping pong sentimentaloide que encontra a fossa abissal com a seguinte conclusão resumida: Selina desiste do casamento porque acha que a felicidade irá mudar Bruce. Se ele for feliz, não será o homem que Gotham e o mundo precisa, logo, ela não quer ser a mulher responsável por isso. Uma conclusão que poderia ter sido tomada exatamente no final de  A Guerra das Piadas e das Charadas é alongada até a edição #50. Se era para criar esse estardalhaço todo e não dar em nada, que nunca nem tivessem colocado tal piadinha mortal nas páginas da revista, para começo de conversa.

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E como se não bastasse, o final da trama elenca Bane no centro de um plot misterioso, recebendo Holly Robinson, a amiga e proto-madrinha de Selina, após a desistência da Gata, dizendo a frase de efeito à lacê é bichão memo hein truta [sic]”: O MORCEGO ESTÁ… QUEBRADO. Leitores mais condescendentes poderão deixar de lado toda a coesão possível e tentar justificar o roteiro pelo não sabido “Plano Bane“, já que o vilão está rodeado de outros notáveis bandidos da galeria do Morcego e da DC, cada um com habilidades que podem ter manipulado sentimentos, pensamentos e destinos ao fim desse horror de história. Está aberta a temporada de encontrar circunstâncias atenuantes para a presença manipulatória num plano de Bane, Coringa, Pirata Psíquico, Charada, Gotham Girl, Skeets (o robozinho do Gladiador Dourado) Hugo Strange, Ventríloquo e Batman (Thomas Wayne de Flashpoint). A cereja do bolo é colocada com a pachorra do tweet de Tom King, dizendo que este não é o fim, é apenas parte de um plano de 100 edições!!! Pelo amor d’A Presença, quem é que vai suportar mais 50 revistas de choração de pitangas e laços ora frouxos, ora apertados envolvendo Bruce e Selina, depois disso aqui? Não já deu? O autor realmente pretende mergulhar na técnica do morde-e-assopra-vai-não-vai?.

Ah, mas depois tudo fará sentido, tem que esperar até a edição 100!“. Sentido retroativo qualquer coisa faz. Mas não é assim que a coisa funciona não. Uma possível história boa ou até uma obra-prima de Tom King a respeito das consequências dessa terrível edição não apagarão o fato dele ter criado um meio do caminho péssimo, depois de um longo número de revistas preparatórias (ah, sim, ainda tiveram os tie-ins do casamento, não vamos nos esquecer dessa parte!), com muitos meses de ponderações e conversas para dar… em nada. Arcos futuros serão julgamos como arcos do futuro, exatamente por aquilo que apresentarem. Como dizia Alberto Caeiro em Quando Vier a Primavera: “O que for, quando for, é que será o que é“. E como estamos no tempo de Batman & Mulher-Gato: O Casamento, vale dizer o que o arco é para o seu tempo: uma bela porcaria.

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Batman Vol.3 #50: The Wedding of Batman & Catwoman (EUA, 4 de julho de 2018)
Roteiro: Tom King
Arte: Mikel Janín, José Luis García-López, Becky Cloonan, Jason Fabok, Frank Miller, Lee Bermejo, Neal Adams, Tony S. Daniel, Amanda Conner, Rafael Albuquerque, Andy Kubert, Tim Sale, Paul Pope, Mitch Gerads, Clay Mann, Ty Templeton, Joelle Jones, David Finch, Jim Lee, Greg Capullo, Lee Weeks
Arte-final: Mikel Janín, José Luis García-López, Becky Cloonan, Jason Fabok, Frank Miller, Lee Bermejo, Neal Adams, Tony S. Daniel, Amanda Conner, Rafael Albuquerque, Andy Kubert, Tim Sale, Paul Pope, Mitch Gerads, Clay Mann, Ty Templeton, Joelle Jones, David Finch, Scott Williams, Greg Capullo, Lee Weeks
Cores:
 June Chung, Patricia Mulvihill, Becky Cloonan, Brad Anderson, Alex Sinclair, Lee Bermejo, Hi-Fi Design, Tomeu Morey, Paul Mounts, Rafael Albuquerque, José Villarrubia, Mitch Gerads, Jordie Bellaire, Keiren Smith, FCO Plascencia, Lee Weeks
Letras: Clayton Cowles
Capa: Mikel Janín
Editoria: Jamie S. Rich, Brittany Holzherr
50 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.