Crítica | Batman & Mulher-Gato: Rastro de Pólvora

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estrelas 3,5

Há uma arma poderosa em Gotham. Uma invenção aparentemente feita para “acabar com todas as outras armas”. Uma máquina de matar que sempre encontrará o seu alvo, inclusive o próprio atirador, porque suas balas buscam atingir corpos quentes. Esta é a história de Rastro de Pólvora.

Parte do ano dois na linha do tempo do Batman (Era Moderna), esta aventura em duas partes escrita por Ann Nocenti tem duas grandes funções. A primeira, é problematizar em diversas situações o uso ou não uso de armas de fogo por cidadãos comuns, acendendo debates calorosos entre os personagens e certamente atingindo as ideias que cada leitor possui sobre o tema. A segunda, é nos mostrar um arcabouço de emoções, modus operandi e motivações pessoais da Mulher-Gato nessa fase, ampliando o que Mindy Newell trouxera em diferentes momentos na ótima Her Sister’s Keeper.

Por ser mais uma história reflexiva do que qualquer outra coisa, Rastro de Pólvora tem um preço a pagar. O roteiro rapidamente ganha um nível teórico grande, mesmo que Nocenti seja inteligente e faça uso de quatro princípios narrativos diferentes, alterando pontos de vista, meios de mostrá-los e maneiras orgânicas de colocar cenas dentro de cenas. Cabem aí os debates televisivos sobre o porte de armas e a perseguição que a mídia lança para a Mulher-Gato, acusada de um massacre que vemos já nas primeiras páginas da história; o ponto de vista das vítimas; breves deslocamentos para a ação do Batman e a narração da própria Mulher-Gato, que dá vasão a algumas memórias traumáticas de sua infância — foco na difícil jornada de adoções — e nos faz entender uma parte do seu comportamento.

Em todos esses blocos temos ação em jogo e o texto jamais abandona a busca pela “mãe de todas as armas”, que acaba sendo o fio da meada nessas “Olimpíadas dos ladrões”. Nesse ponto, o enredo é coerente. E ainda se beneficia dos subterfúgios e “jeitinhos” que ladinos profissionais possuem para conseguir o que querem, especialmente os da ficção. A própria Mulher-Gato entra em uma jogada que colocará em risco a sua vida e fará com que ela seja procurada, para começo de conversa, mas tudo isso tem um bom respaldo do roteiro no decorrer das páginas. Todavia, existem as quebras. E as explicações, as confissões de Selina, que mesmo quando fala sobre o Batman, Pike Peavy e outros personagens da história, parece tirar um pouco da vitalidade que a aventura poderia ter. Em um primeiro momento isso até funciona. Mas a longo prazo, é uma pedra no sapato.

Mostrando bem todo o subúrbio de Gotham e capturando a dor de uma família destroçada pelas armas (ainda sustentando o lema “armas não matam. Pessoas matam.“), Ethan Van Sciver e sua arte de finalização escura e parcialmente granulada dão o toque final para esse mundo sangrento que o roteiro mostra. A cidade aqui é vista em espaços de luxo, lar de Senhores das Armas; e espaços de pobreza, lar de pessoas que só querem se proteger de bandidos que muitas vezes estão na rua ao lado, na casa ao lado ou mesmo dentro de casa. As cores de Chris Chuckry dão uma primeira impressão contrária. A paleta da história é bastante quente, mesmo nos quadros noturnos. No decorrer da leitura, porém, percebemos que a intenção de destacar o vermelho e o amarelo e tornar a cidade mais clara que o habitual foi uma forma de indicar o constante estado de medo e atenção que pobres e ricos viviam naquele momento, a cada minuto com medo de um novo maluco colocar as mãos em uma arma que poderia matar muita gente, sem muito esforço.

O tom de crítica social do roteiro de Rastro de Pólvora pode incomodar uma parcela dos leitores. É importante dizer, porém, que mesmo em uma tomada de decisão majoritária CONTRA a posse de armas (basicamente porque Batman/Bruce é contra), os dois lados são igualmente bem retratados e recebem ótimos argumentos das partes que o defendem. Não é como se a autora utilizasse de uma falácia para dar conta de um tema tão delicado. Influenciada por discussões de guerra, armas e terrorismo nos Estados Unidos (a história é de 2004), é de se entender o motor gerador do tema e a forma como tudo termina. Por um lado, uma tardia tentativa de entendimento. Por outro, a entrega de um grande poder de fogo para quem saberia usar. Mesmo aí existe uma declaração embutida. O sentido e validade dela, porém, está nas mãos de cada um.

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Batman & Mulher-Gato – Rastro de Pólvora

Batman/Catwoman: Trail of the Gun

EUA, outubro e novembro de 2004

No Brasil: Panini, 2005
Roteiro: Ann Nocenti
Arte: Ethan Van Sciver
Cores: Chris Chuckry
Letras: John Costanza
Capas: Ethan Van Sciver, Chris Chuckry
100 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.