Crítica | Batman Ninja

Talvez a coisa mais importante que o espectador precisa ter ao começar a sessão de Batman Ninja (2018) é a plena noção de que não está vendo uma história do Universo canônico da DC Comics. E que justamente por se tratar de uma linha do tempo alternativa do Batman, qualquer loucura, novidade, invenção, risco ou mistura de culturas possíveis e imagináveis é cabível, afinal de contas, é uma linha do tempo alternativa; as regras básicas do Universo regular da DC não se aplicam aqui. Mas como em qualquer mídia que exija uma construção narrativa, é preciso ter cuidado com os exageros e com a sobreposição de aparições ou twists no clímax da história, coisas que podem acabar diminuindo ou anulando o peso de partes mais importantes para a fita. Não se trata de “poder” ou “não poder” fazer determinada coisa. Trata-se do mais simples elemento que qualquer um de nós deve se lembrar das aulas de produção textual (e que qualquer roteirista deve se lembrar das aulas de Estrutura de Roteiro 101): para que determinada coisa exista em uma história, ela precisa fazer sentido naquele Universo e precisa ser coerente com o todo. Muito bem. Esclarecido esse ponto, vamos passear no Japão medieval.

A produção de Batman Ninja começou em 2014, e tinha como premissa a incorporação de elementos técnicos, estéticos e nuances narrativas das animações japonesas, partindo do seguinte princípio: Gorila Grodd está no momento final de um grande experimento. Ele inventou um dispositivo, uma máquina do tempo que irá lançar os criminosos de Gotham para diversos lugares do mundo, em tempos distintos. Na noite em que o plano é executado, uma série de figurões criminosos de Gotham está no lugar, assim como a Batfamília, tentando impedir a loucura do primata-gênio. Claro que a coisa toda dá errado e todos vão parar no Japão, com intervalo de chegada relativamente diferente de um para o outro.

O roteiro aqui é assinado por Kazuki Nakashima (Kill La Kill) e seu trabalho é, no mínimo, insanamente interessante. Em primeiro lugar, destaca-se a forma engenhosa como cria as condições para a viagem no tempo e integra os mais diversos personagens, tanto do lado dos mocinhos, quanto do lado dos bandidos. Escrever um roteiro com muitos personagens conhecidos do público é sempre difícil, porque a cobrança de atuação orgânica para cada um é a primeira necessidade e a primeira coisa que o público vai querer ver. Nos primeiros 35 minutos da animação, Nakashima faz um trabalho praticamente impecável. Suas falhas aí são absolutamente pontuais e sequer arranham negativamente a superfície da obra. Até este ponto, nada que o roteiro nos trouxe parece “fora do lugar”. O uso de narração ocasional a partir de diversos pontos de vista e de diferentes técnicas (o benefício de ter um dos produtores de JoJo’s Bizarre Adventure: Stardust Crusaders na direção é este grande dinamismo de exposição) beneficiam a obra e nos mantém atentos o tempo inteiro. Então vem a apresentação dos clãs em disputa, com territórios dominados por Coringa & Arlequina; Grodd; Duas-Caras; Hera Venenosa, Pinguim e Pistoleiro. E as coisas começam a ficar problemáticas.

Até este ponto citado, os erros do roteiro e da direção são tão pequenos que deixamos passar sem muitas reservas. Além disso, o projeto de animação nos deixa imensamente admirados pelos detalhes dos figurinos; pela criatividade na construção de alguns pagodes, castelos e embarcações; pela estilização do visual dos personagens e pelas referências visuais espalhadas. A fotografia é um outro grande espetáculo, destacando-se nas cenas de explosões ou uso de cores quentes em geral. Outro destaque deve ser feito para a belíssima sequência em aquarela, no momento quase onírico em que Batman e Capuz Vermelho interrogam um casal de agricultores. Todos esses bons momentos, embalados pela excelente trilha sonora de Yûgo Kanno (JoJo, AjinPsycho-Pass) nos deixam demasiadamente acostumados com uma ambientação coesa e estruturalmente aplaudível na concepção das batalhas, tendo de muito diferente “apenas” um castelo mecanizado construído pelo Coringa — este, porém, é apresentado no começo da animação com plena preparação do roteiro. Mas nada nos prepara para o que vem na reta final da película.

SPOILERS!

E é justamente nessa reta final que temos um paradoxo de avaliação. Porque de um lado presenciamos lutas incríveis, com destaque especial para o confronto de espadas entre Batman e Coringa. Ao mesmo tempo, somos bombardeados por sobreposição de coisas que minam todos os esforços dos heróis. É como se estivéssemos em uma sessão de Mighty Morphin Power Rangers, mesclada com Uchu Sentai Kyuranger, somada aos contos de Ryunosuke Akutagawa e finalizada com as loucuras do tipo “DC Comics no início da Era de Prata“. Esse é o nível. E por mais que a gente se divirta com esse tipo de bagaceira, a mudança no tom da animação, a base da montagem e a própria constituição do texto é profundamente alterada apenas para fazer com que um proto-Megazord (e uma variante dele) tenha lugar na trama… isso sem contar o Exército de Macacos ou os morcegos que formam o “Batmão”. Sinceramente, uma única máquina e algumas lutas mano-a-mano ou com tecnologia contida, como víramos na obra até aquele momento, faria toda a diferença. Deixaria o filme coerente com sua proposta inicial.

Batman Ninja é uma animação muito diferente da DC-Warner-Kamikaze Douga, e não é preciso pensar muito para saber que é o tipo de animação polarizadora de opiniões. Alguns espectadores simplesmente não vão aceitar a ideia de um Universo com essa constituição, especialmente com o Batman. Outros, como eu, vão admirar o filme pelo que ele apresenta e lamentar o exagero e o auto-boicote na parte final, mesmo que neste bloco ainda se encontrem cenas muito divertidas (em tempo: as cenas finais, daquela “carruagem vintage” é uma das piores coisas de toda a animação, para mim). E há os que vão amar o filme sem reservas. O fato é que independente de qual lado você esteja, ficará feliz ao ver a DC produzindo coisas realmente novas e arriscadas (lembre-se que pouco antes de Batman Ninja tivemos Esquadrão Suicida: Hell to Pay), e isso é um alento. Ver personagens como Batman e Coringa enfrentarem-se em um contexto tão diferente e com um final tão incomum para eles é um dos ganhos que nenhum erro de roteiro pode nos tirar. Por mim, já podem até começar a produzir a produção de Batman na Civilização Asteca.

Em tempo: a dublagem do Coringa, na versão em inglês, feita por Tony Hale, é o destaque absoluto de todo o elenco. Que trabalho incrível!

Batman Ninja (Japão, EUA, 2018)
Direção: Junpei Mizusaki
Roteiro: Kazuki Nakashima
Elenco (vozes): Kôichi Yamadera, Wataru Takagi, Rie Kugimiya, Ai Kakuma, Hôchû Ôtsuka, Eric Bauza, Chô, Adam Croasdell, Grey DeLisle, Will Friedle, Tony Hale, Akira Ishida, Yûki Kaji, Kengo Kawanishi, Tom Kenny, Takehito Koyasu, Yuri Lowenthal, Kenta Miyake, Toshiyuki Morikawa, Daisuke Ono, Roger Craig Smith, Tara Strong, Jun’ichi Suwabe, Atsuko Tanaka, Fred Tatasciore, Matthew Yang King
Duração: 85 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.