Crítica | Batman: Noel

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estrelas 4,5

Para que o leitor tenha uma real noção do que Lee Bermejo pretendeu com essa adaptação de Um Conto de Natal (1843), de Charles Dickens, é preciso que tenha uma boa noção do que acontece na obra original, para que não saia falando besteira sobre adaptação e tentativas não cabíveis de interpretação exclusivamente comparativa para Batman: Noel (2011). Isso não tem nada a ver com gostar ou não da graphic novel ou ter lido ou não Um Conto de Natal. Mas para falar da estrutura do roteiro de Bermejo nesta obra é preciso sim ter noção do que acontece na famosa história de Dickens e então olhar com cuidado para o Batman retratado nessa aventura.

O ponto de partida está no clássico ‘batprincípio’: uma investigação em andamento, um vilão — ou vários vilões — à solta e suas óbvias ações de bastidores, algumas das quais já começam a chamar a atenção da polícia e, por tabela, do Morcegão, dado o seu contato com Gordon. O problema enfrentado aqui é a fuga do Coringa do Asilo Arkham e a neurose de um Batman impiedoso, cego diante de seu princípio de “caça” e pronto para sacrificar “uns poucos em favor de muitos”, conceito sociológica e historicamente perigosíssimo.

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A primeira “vírgula” que se pode colocar na história é a retratação do Batman e, não tem como, isso é cem por cento pessoal. Um Batman obscuro a tal ponto de se importar menos com pessoas e mais insanamente com os bandidos que ele precisa caçar é possível, aceitável, cabível? Para mim, as respostas para essa três perguntas é sim, e eu poderia utilizar os anos 80 e metade dos anos 90 do Morcegão para apontar alguns caminhos que tornam esse comportamento possível. Mas eu disse, é pessoal, portanto, os leitores que não gostam de um retrato do Batman dessa forma podem usar as minhas mesmas justificativas sob outro prisma, outra interpretação, e afirmar que não há espaço para um “Morcego Sangue Nuzóio” como o que temos aqui. O fato, nesse caso, é um detalhe dispensável. Gostar ou não desse retrato é, pela terceira e última vez, algo pessoal.

O fio da meada do volume vem com um narrador em off. Nós percebemos que todo o tempo essa linha é irônica, não 100% espelhada nas ações do Batman como Scrooge, mas serve, obviamente, como semelhanças de comportamento. O que o leitor precisa entender é que a história que Bob conta para o filho nada mais é que a reprodução de Um Conto de Natal de Dickens. Em paralelo, a história do Batman ocorre, com ele se assemelhando ao protagonista da obra britânica. Colocadas nas mesmas páginas, a nossa impressão vai sendo moldada para olhar o Morcegão de forma mais dura, negativa mesmo, ponderando suas ações de maneira mais crua, algo que, devo confessar, me agradou demais, expondo um pouco de fragilidade e raiva no herói, fazendo-o humano, mais dado aos excessos e erros comuns, o que é bom.

O efeito do roteiro de Bermejo me lembra imediatamente a teoria cinematográfica de Sergei Eisenstein chamada “montagem de atrações”. Dizia ele que “uma vez reunidos, dois fragmentos de filme de qualquer tipo combinam-se inevitavelmente em um novo conceito, em uma nova qualidade, que nasce, justamente, de sua justaposição” […]. Esse é precisamente o resultado que temos da narração da obra de Dickens + Batman: Noel. As escolhas de Bermejo para a visita dos “três fantasmas” (o Natal do passado, do presente e do futuro, como no livro), a forma como o Morcego reage a eles e às lembranças de sua própria trajetória — ponto metalinguístico que traz coisas da Era de Ouro; do Batman da série de TV dos anos 60 e da morte de Jason Todd — são acertos internos que não negam em nenhum momento a linha narrativa, como muitas pessoas gostam de apontar. O que existe são memórias e possibilidades aglutinadas dentro de uma situação extrema.

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A arte de Bermejo é um espetáculo à parte. Mesmo para os que não gostam dessa história, trata-se de um trabalho incrível, com diagramação fluída, ótimas interações; desenhos e finalização de traços e preenchimento fortes, imensamente marcados por sombras, desembocando em um visual gótico e “mau” para a cidade e até para aos personagens (exceto o Superman), algo que combina muito bom Gotham e com o Batman. As cores pasteis de Barbara Ciardo ajudam a suavizar algumas partes da história, com destaque para as sequências com o filho de Krypton e os quadros do final, com o “milagre de Natal” acontecendo para Bob e seu filho.

O conceito crítico adotado em um livro do século XIX é abordado aqui por um artista do século XX no Universo de um herói conhecido no mundo todo, agindo em uma cidade apodrecida pelo crime, acompanhando um bandido menor, cujas causas para fazer o que faz não são exatamente comuns, embora essa situação não sirva para “limpar” o ato errado — o autor jamais quis seguir por este caminho, a conversa com o Super deixa bem claro. A reta final serve como um olhar do Batman para ele mesmo, uma auto-análise que já havia tempos que ele não fazia e da qual precisava. Batman: Noel é um estudo de personagem, com um contrapeso social nada simples de se finalizar.

O único ponto que não gosto é da forma menos “real”, em comparação com todo o restante da história, com a qual a sequência do Coringa é encerrada, no cemitério. De resto, Batman: Noel serve como uma sombria aventura de Natal, ocorrida sob a neve e com o Batman praticamente com pneumonia, insistindo em algo que não lhe traz nenhum bem, mas que abre as portas para que ele veja, pelo menos por um instante, que há muito mais no mundo do que o pensamento binário de “ladrão de Gotham que precisa ser preso” versus “cidadão de Gotham que precisa ser protegido”. Sob esse aspecto, tocando em situações sociais que entendemos muito bem, pois fazem parte do nosso dia a dia, a HQ entra em um cenário excelente para debate. Basta pegar a deixa e discutir a respeito.

Batman: Noel (Batman: Noël) — EUA, novembro de 2011
Roteiro: Lee Bermejo
Arte: Lee Bermejo
Cores: Barbara Ciardo
Letras: Todd Klein
116 páginas (encadernado da Panini: história + extras)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.