Crítica | Batman – O Cavaleiro das Trevas (1986)

estrelas 5

Confissão Introdutória

Eu nunca comecei um texto assim. De peito aberto. Emotivo. Fora do campo quase neutro e propenso à razão que a crítica normalmente se obriga a permanecer. Como deve ser.

Mas para falar de O Cavaleiro das Trevas, obra de Frank Miller e Klaus Janson com cores de Lynn Varley, eu me permito reservar um espaço para o “não-acadêmico”, ou para o menos acadêmico, nem que seja só um pequeno espaço. Uma palavra do leitor emocionado que há em mim.

Quando penso nas histórias do Batman, uma lista me vem à mente: O Cavaleiro das Trevas, Ano Um, A Piada Mortal, O Longo Dia das Bruxas, Asilo Arkham, Morte em Família, O Advogado do Diabo, Guerra ao Crime… Essas citações não pretendem dar conta de todas as grandes fases do herói e nem pretendo esgotá-las aqui. Elas apenas mostram momentos que foram importantes, pelo menos para mim, no processo de “fixação definitiva” da alma, força e ícone do Homem-Morcego, como também do seu espaço de luta e de seus inimigos. Se eu precisasse enxugar ao máximo o número de indicações, ficaria com as três primeiras. E se ainda fosse preciso salvar uma única história dentre elas, eu não tenho dúvidas de que salvaria O Cavaleiro das Trevas. Esta é, de longe, a minha obra preferida dentre tudo o que já se publicou sobre o Batman.

A partir desse ponto, é lícito deixar o discurso pessoal e adotar uma postura mais racional sobre essa obra-prima. Então vamos lá.

The Dark Knight Returns

Tempo, espaço, ritmo e múltipla perspectiva narrativa. Quando se fala da importância e soberania de O Cavaleiro das Trevas frente a outras publicações do Batman, é preciso ter em mente esses quatro aspectos que estruturam a obra. Os dois primeiros andam juntos, e formam a espinha dorsal de toda a história: Bruce Wayne é um velho de 55 anos, amargurado e consumido por uma angústia que o isola e o faz reviver tormentos do passado como a morte de seus pais, por exemplo.

Ao resolver voltar a vestir o manto do Morcego, vemos uma mudança completa em seu comportamento. O teor psicologizante (no sentido negativo, forçado e mal explicado mesmo), que era uma tendência relativamente incômoda nos anos 1980/90, com retorno nos anos 2010, não atinge o roteiro de Frank Miller. O Bruce Wayne melancólico do início da obra tem um motivo de ser: ele vive “forçado” a se portar como um “simples cidadão milionário” que vê Gotham City afundar-se em sangue e miséria. Roteiros mais novelísticos fariam disso um grande poço de lamentos, com questionamentos profundos, exploração do existencialismo, introspecção chateante e pouco frutífera para uma HQ desse nível. Frank Miller usa a melancolia de Bruce Wayne como trampolim para a volta do Batman, em cuja máscara o velho Wayne se vê realizado, sedento de justiça, determinado a por fim a tudo o que faz Gotham morrer. Após voltar a ser “ele mesmo” — fica para o leitor a definição de quem é a máscara e quem é a persona real — Wayne/Batman não se lamenta uma única vez. Não choraminga indagações à sua existência. Não recua. Sua única manifestação sentimental é o reconhecimento da velhice.

Ao empreender essa transformação, Miller usa uma narrativa entrecortada, com acontecimentos não datados mas claramente separados por diferentes unidades de tempo, que vão de décadas a segundos. No campo espacial, temos referências não só a Gotham mas à ilha fictícia de Corto Maltese, a Chicago, Washington, Metrópolis, União Soviética, Cuba… Espaços geográficos fictícios e reais se misturam, bem como os acontecimentos que atravessam a história, com citações reais à Guerra Fria, elementos de cultura pop como a banda Led Zeppelin, aparecimento e citação de outros heróis do Universo DC e eventos da própria “cronologia oficial” do Batman (é importante ressaltar que O Cavaleiro das Trevas se passa em um futuro hipotético, um Elseworld). O ritmo com que o roteirista e artista logra agrupar todos esses aspectos é muitíssimo bem concebido, alternando as perspectivas narrativas de Gordon para o andrógino Coringa; de Batman para a imprensa; do Superman para Robin e assim por diante… A presença até então inovadora da televisão em toda a história também traz diversos pontos de vista de jornalistas e especialistas, mas todos eles são alvos de críticas ácidas de Frank Miller à imprensa, principalmente em seu funcionamento vicioso no modo como priorizam a futilidade em detrimento da notícia.

O Cavaleiro das Trevas, assim como a maravilhosa Watchmen, representa claramente o tom social e político da Era Reagan: o apocalipse nuclear, o medo do desconhecido e a perspectiva constante de um ataque fatal. Gotham City vive em um caos social que se assemelha muito a essa conjuntura histórica da época. A cidade é dominada pela Gangue Mutante e passa por uma terrível onda de calor. Além disso, vemos adicionado à história o elemento patriótico mais forte, o Superman, que age como emissário da Casa Branca e já na reta final do quarto volume empreende uma luta “pelo seu país” contra o Batman. O fato de Superman ser o único herói “livre” e a serviço do governo (todos os heróis vigilantes foram proibidos de agir) transforma-o em um boneco do Estado. Mas é importante ressaltar que essa perspectiva que nós temos, em sua maior parte, é construída pelo Batman, que vê o Superman como um covarde que presta um desserviço à causa dos heróis e vigilantes. É claro que fica impossível defender o Superman no que se refere à questão ideológica, mas é bom lembrarmos que parte dos valores que temos dele vem, como já dissemos,  do Batman, o seu absoluto oposto.

A melhor parte, no entanto, está no final da aventura. Depois de vencer o Duas-Caras e matar o Coringa; depois de por ordem nas ruas após o ataque nuclear que traz sérias consequências a Gotham; depois do pacto que faz com a gangue dos Mutantes e Os Filhos do Batman; depois da luta contra o Superman e sua fake death, Batman se prepara para uma batalha contra o próprio Estado, o mesmo Estado que permaneceu omisso à sociedade, às periferias, à violência, e que manipulava a voz popular através da mídia… O Estado com líderes governamentais que transferiam responsabilidades a terceiros, que atuava para as câmeras (principalmente o presidente, uma forte referência a Reagan, que fora ator de Hollywood antes de ser político)… Esse Estado é descrito por Bruce Wayne, na batcaverna, e é apresentado como o próximo e mais difícil alvo de sua luta:

 _ Aqui tem início um Exército para trazer sentido ao mundo infectado por algo pior do que ladrões e assassinos.

A luta do Batman passa agora a ter um outro significado. Ele será um oráculo para a nova geração. Frank Miller extrapola todos os sentidos básicos da concepção do herói que luta contra os monstros do seu mundo e sequer se aproxima da fonte primordial de todos os males, o motor gerador dos monstros. No caso de Gotham, a decadente cidade de crimes, pobreza e vícios, o motor gerador é o Estado. Ao invés de programar seus anos para apagar o fogo soprando a fumaça, Batman treina um Exército para enfrentar o fogo. Não há desfecho mais incrível para uma história desse tipo. E muito mais do que no início da saga, temos a noção clara e simbólica do que significa e o que representa o glorioso Cavaleiro das Trevas.

Em tempo: algumas análises e críticas apontam para um “desvio de atitude” do herói no final da história, o que nos faz perguntar essas pessoas: há mesmo uma tendência fascista na concepção final do Batman, em O Cavaleiro das Trevas? Mas assim, de verdade? Porque vejam bem… se formos considerar sua atitude de querer limpar Gotham de tudo quanto ele considera mal, sujo e criminoso, em um sentido generalizador, talvez até seja possível apontar isso. Uma leitura crua. Mas a questão aqui vai além dessa primeira impressão. Se olharmos os outros elementos que cercam e permitiram esta obra (o herói, os vilões, a cidade, a iniciativa inicial e final), veremos um bom contexto para trabalhar os caminhos ideológicos e atitudes do Morcego, então a resposta não será tão simples e imediata quanto parece…

Batman – O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight Returns) – EUA, 1986
Roteiro e Arte: Frank Miller
Arte-final: Klaus Janson
Cores: Lynn Varley
Letras: John Costanza
Editora nos EUA: DC Comics
Data original de lançamento: fevereiro a junho de 1986 (quatro edições)
Editora no Brasil: Editora Abril, Panini Comics
Datas de publicação no Brasil: abril a julho de 1987 (Editora Abril – em quatro edições), abril a maio de 1997 (Editora Abril – em quatro edições), março de 2002 (Editora Abril – em duas ediçõe), dezembro de 2006, março de 2007, setembro de 2011 e agosto de 2014 (Panini Comics – edições encadernadas)
Páginas: 223

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.