Crítica | Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008)

estrelas 5

Quando se lançou na tarefa arriscada de trazer o nome de Batman/Bruce Wayne do limbo após o festival carnavalesco promovido pelo diretor Joel Schumacher em Batman Eternamente e Batman & Robin, poucos imaginaram o quão bem a nova roupagem idealizada por Christopher Nolan viria a calhar tão bem nas produções de super-heróis, naquela época, vítimas da pirotecnia visual. Nolan, entretanto, ousou e apostou em uma produção de toques sombrios e realistas, que atualizava o homem morcego a uma realidade mais intimista e palpável, não muito distante da própria realidade que vivemos. Batman Begins, mesmo com pouquíssima ação e bastante apoiado em diálogos, provou que bons roteiros nunca são indispensáveis mesmo para o público que busca o mero entretenimento, e obteve aprovação quase que unânime do público como o filme definitivo sobre o homem morcego.

As expectativas para a continuação, então, eram inevitáveis, mas de maneira trágica, um outro fator corroborou para a ansiedade em torno da chegada de Batman – O Cavaleiro das Trevas: a morte do ator Heath Ledger, encontrando sem vida em seu apartamento, causou um enorme furor na indústria cinematográfica, e logo as expectativas se misturaram com uma curiosidade mórbida em ver Ledger na pele do anárquico vilão Coringa.

E apesar de o Coringa ser, de fato, uma das principais atrações, O Cavaleiro das Trevas é um filme que vai muito, muito além do fascínio por apenas uma figura. Se Nolan já havia nos apresentado em Batman Begins um protagonista complexo, repleto de amargura, ódio e um forte senso de justiça, aqui um novo leque é aberto pelo diretor, que eleva sua dramaticidade a um novo patamar. De fato, Bruce Wayne, em certos momentos, parece se tornar um coadjuvante de sua própria história, tamanha é a dedicação do roteiro de Nolan, em parceria com seu irmão Jonathan Nolan, com sua história e personagens. Nenhum diálogo é indispensável, nenhum rosto é descartável. O Cavaleiro das Trevas é um filme ainda mais pesado e desafiador que seu predecessor, é um filme de poderosas discussões éticas e filosóficas, e que ao seu final, deixa o espectador completamente sem fôlego após seus nervosos 152 minutos de duração.

Why so serious?

Sem entrar em detalhes excessivamente expositivos, Nolan ambienta sua nova trama numa época em que Bruce Wayne (Christian Bale), após um período vestindo a capa e o uniforme do homem morcego, começa a sentir a chegada iminente de sua aposentadoria, especialmente devido ao trabalho incessante e produtivo do promotor Harvey Dent (Aaron Eckhart), que mantém um caso com o antigo amor de Bruce, Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal), com a qual Bruce ainda nutre esperanças de construir uma vida normal. É quando surge um novo vilão conhecido como Coringa (Ledger), um rosto sem passado e sem nome, cujo principal objetivo é virar Gothan de cabeça para baixo e promover o caos na cidade.

Sem a necessidade de seguir narrando os primórdios do personagem-título, Nolan dedica uma atenção ainda maior para sua galeria de personagens, que aqui ganham participações ainda mais intensas e definitivas. Enquanto que para alguns isto possa soar com um certo didatismo, devido ao considerável número de diálogos presentes, os irmãos Nolan não dispensam a oportunidade de, a cada momento, aprofundar seus personagens de maneira gradativa e paciente, permitindo que criemos um vínculo com os mesmos, fazendo com que estes sejam mais do que meras figuras desfilando pela tela.

O melhor de tudo é perceber como Nolan permite que cada trama se torne convergente da seguinte, evitando assim isolamentos na narrativa. Rachel Dawes, interpretada por uma corretíssima Maggie Gyllenhall, assume uma posição ainda mais completa dentro da trama, funcionando como o principal símbolo de esperança de que Bruce possa conseguir levar uma vida normal, ao mesmo tempo em que a própria enfrenta seu próprio dilema sobre qual dos seus sentimentos deve escolher: os que nutre por Harvey Dent ou aquele que sempre nutriu por Bruce Wayne; já Harvey, encarnado por um visceral Aaron Eckhart, se torna uma figura fascinante de acompanhar justamente pela complexidade que o segue: inicialmente um sujeito boa-pinta e pacífico, aos poucos vemos e sentimos o sentimento de raiva crescer dentro de Harvey devido as injustiças que cercam a cidade que ele tanto luta para proteger, e quando a virada radical sobre seu personagem acontece, conseguimos compreender e até mesmo compartilhar dos mesmos sentimentos que levam Harvey a tomar suas atitudes. E Bruce Wayne, apesar do pouco tempo em cena (ao menos para um protagonista), segue como um personagem que ultrapassa a divisão entre o bem e o mal, cultivando e lutando com seus próprios demônios, que em diversos momentos, desafiam a própria moralidade na qual o herói se apoia para proteger Gothan City.

Há ainda diversos outros nomes a serem lembrados. O comissário Jim Gordon (Gary Oldman, exemplar), o mordomo Alfred (Michael Caine, impecável) e Lucius Fox (Morgan Freeman, sempre excelente), cada um com sua própria função dentro da trama, funções que de início podem aparentar serem pequenas, mas que numa segunda análise, ganham contornos grandiosos e interessantíssimos.

E aqui, um parágrafo apenas para ele. Heath Ledger. O ator já havia demonstrado possuir talento não apenas no polêmico O Segredo de Brokeback Mountain, mas também em filmes que marcaram o início de sua carreira, como 10 Coisas Que Eu Odeio em Você, Coração de Cavaleiro e A Última Ceia. Com o Coringa, entretanto, Ledger comprovou sua completa devoção como ator, o que fez de sua morte uma perda ainda lamentável. Completamente distante da caracterização também marcante de Jack Nicholson no Batman de Tim Burton, Ledger passou um mês trancado num quarto de hotel, treinando sua voz e trejeitos, ao mesmo tempo em que anotava os pensamentos de seu personagem num diário particular. O resultado que vemos na tela é nada menos que impressionante: assustador, engraçado, violento, magnético, carismático, o Coringa surge como o perfeito contraponto às ações de Batman, quase um reflexo sujo e negativo do próprio Bruce Wayne (e Nolan parece saber disso, basta reparar na cena em que o vilão, cara a cara com o homem morcego, é posto de ponta à cabeça). Sem passado, sem futuro e sem nome, o Coringa é uma resposta direta às ações do homem morcego, e Ledger assume todas estas característica e nuances através de uma interpretação poderosa, completa e absolutamente marcante, o que apenas torna ainda mais lamentável a perda prematura de um ator com um futuro visivelmente feliz pela frente.

I believe whatever doesn’t kill you, simply makes you… stranger.

Além da exímia construção de personagens, o roteiro dos irmãos do Nolan é um exemplo de script consistente e bem escrito. O realismo visto em Batman Begins é acentuado por um trabalho de roteiro e direção que demonstra extrema preocupação em tornar aquele universo, governado por um homem vestido de morcego e um maluco com maquiagem de palhaço, em algo palpável e digno de identificação para com o espectador. E os irmãos conseguem. Mais do que nunca, Gothan City se assemelha a qualquer outra cidade do mundo, com sua própria sujeira, loucura e caos. De fato, Gothan City e seus habitantes podem também ser vistos como um personagem do filme,  que em uma longa sequência envolvendo dois navios armados com explosivos, coloca em xeque o senso de moralidade não apenas daquela cidade, mas do próprio ser humano. Tal qual os passageiros dos dois navios, somos obrigados a encarar nossos próprios conceitos sobre o que é certo e errado, o que é justo e injusto. Um soco no estômago, sem dúvidas.

Por isso, O Cavaleiro das Trevas adquire um tom sombrio ainda mais pesado e grandioso, o que somado a sua quase total ausência de humor, o torna uma experiência emocionalmente pesada. Mas isto faz parte do plano de Nolan em fazer o espectador mergulhar numa realidade que, aparentemente fantasiosa, parece pertencer a cada um de nós, onde um criminoso vestido de palhaço deixa de soar como uma possibilidade irreal. Nolan, em certas passagens, parece deixar sua auto-importância falar mais alto, inserindo subtramas que poderia  ter permanecido na sala de edição. Mas a força e densidade com que constrói sua narrativa praticamente paga de nossa mente estes excessos.

And I thought my jokes were bad.

Não esqueçamos O Cavaleiro das Trevas também é um filme de ação, e neste sentido, Nolan demonstra o mesmo senso de maturidade ao construir sequências de ação com um ar de grandiosidade ainda maior e mais impactante, sem perder a noção de realismo. De fato, há sequências capazes de deixar o espectador boquiaberto tamanha a veracidade com que acontecem aos nossos olhos, como toda a longa perseguição no túnel (que termina na espetacular cambalhota de uma caçamba) ou a explosão de um hospital (!), onde Ledger e seu Coringa protagonizam um momento absolutamente impagável. Deixando o uso da computação gráfica como último recurso, Nolan é competente ao manter o realismo e, assim, acentuar o sentimento de insegurança que rodeia os personagens, como se ninguém ali estivesse realmente à salvo.

Para tanto, o filme conta com um trabalho técnico muito bem finalizado. Os efeitos sonoros são essenciais para o impacto de muitas das sequências de ação, um trabalho que também é privilegiado pela trilha sonora de Hans Zimmer e James Newton Howard, que chega aos ouvidos no momento certo, sem jamais se sobrepor mais do que o necessário. Aliás, vale ressaltar o quão fascinantes são as composições da dupla Zimmer-Howard, que trabalham em cima de notas que mesclam o metal com notas mais harmoniosas. A fotografia de Wally Pffister, mergulhada num tom azul escuro, é perfeitamente adequada para com a proposta do longa. A montagem de Lee Smith, apesar de seus pequenos excessos, não permite que o ritmo soe dissonante ou cansativo demais, e o último ponto vai para o trabalho de maquiagem, finalizado sob medida para transmitir ao espectador reações a certos personagens, como o rosto desfigurado de Harvey Dent ou a maquiagem do próprio Coringa.

It’s a funny world we live in. Speaking of which, do you know how I got these scars?

Ao final, apesar de ter acabado de passar por uma experiência emocionalmente pesada, violenta e reflexiva, sentimos que O Cavaleiro das Trevas é um filme extremamente recompensador. Se Batman Begins já havia se firmado como referência aos filmes de super-heróis, O Cavaleiro das Trevas vai além e se firma como um exemplo que, dificilmente, será superado.

Batman – O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, EUA, 2008)
Roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan
Direção: Christopher Nolan
Elenco: Christian Bale, Heath Ledger, Michael Caine, Gary Oldman, Aaron Eckhart, Maggie Gyllenhall, Morgan Freeman, Eric Roberts, Cillian Murphy
Duração: 152 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.