Crítica | Batman – O Cavaleiro das Trevas 3 #3 / Dark Knight III: The Master Race #3

estrelas 3,5

Obs: Pode conter spoilers dos números anteriores, cujas críticas podem ser lidas, aqui

batman_o_cavaleiro_das_trevas_3_3_capa_plano_criticoFrank Miller e Brian Azzarello sem dúvida estão funcionando como a dupla de roteiristas de O Cavaleiro das Trevas 3. A narrativa vem funcionando bem, com os dois números anteriores servindo de apresentação do novo status quo, que bebe muito da injustamente odiada O Cavaleiro das Trevas 2.

No terceiro número, os dois pisam no acelerador, depois que a cidade miniaturizada de Kandor teve seus habitantes convertidos para o tamanho normal por Eléktron, a partir de pedido de Lara, filha de Superman com a Mulher-Maravilha apresentada na minissérie anterior. No lugar de pacíficos kriptonianos, o que vemos, porém, é o surgimento de uma seita religiosa fanática e extremamente violenta que rapidamente subjuga a Terra, exigindo a adoração dos humanos como se eles fossem deuses. A raça suprema ou dominante do título finalmente aparece.

Se lutar contra um kriptoniano já foi muito complicado, o que Batman poderia fazer diante de tamanha ameaça? O lado humano e intimista que vimos na obra seminal de Miller, O Cavaleiro das Trevas, e que também está presente no primeiro número de O Cavaleiro das Trevas 3, dá lugar a uma estrutura de gigantesca escala que periga transformar o Batman em um idoso inútil que não tem muito mais o que fazer que não seja soltar frases de efeito aqui e ali. Claro que Miller, sendo Miller, acabará encontrando uma forma de escrever Batman e também a Robin Carrie Kelley de maneira relevante, ainda que potencialmente pouco crível, com boas doses de kriptonita para ajudá-los na empreitada. No momento, porém, Batman nada mais é do que alguém que precisa acordar o sumido Superman e fazê-lo enfrentar seus pares, algo mais do que óbvio. A Mulher-Maravilha, que ganhara destaque antes, não dá as caras no terceiro número.

Por incrível que pareça, a magnitude da história mascara sua mais absoluta simplicidade. Trata-se de uma narrativa linear, bastante clichê (ainda que obviamente muito violenta) e previsível até certo ponto. Não é um defeito grave única e exclusivamente porque a história ainda está no começo, com as peças ainda encontrando seus respectivos espaços no tabuleiro. Assim, é perfeitamente possível relevar boa parte dos problemas com diálogos de efeito e a presença firme de um combalido Bruce Wayne e, em momento seguinte, de um furioso Superman.

Sem dúvida alguma, porém, os subtextos políticos e a sátira de O Cavaleiro das Trevas original desapareceram por completo, algo que ainda estava presente na continuação. Aqui, Miller e Azzarello escrevem uma aventura padrão, sem ainda grandes arroubos criativos. Se o leitor souber segurar sua ansiedade e seu hype pela história e esquecer um pouco da primeira obra, O Cavaleiro das Trevas 3 será diversão garantida. Caso contrário, a história até aqui poderá ser um desapontamento.

Mas, como disse, ainda é o começo. O vilão kriptoniano, Quar, caracterizado como não muito mais do que um terrorista religioso em seu Jihad, pode ser desenvolvido a contento, ganhando mais camadas do que o que foi apresentado até agora. Lara pode ganhar mais relevo e substância do que a garotinha mimada que está demonstrando ser. A Mulher-Maravilha. Bem… A Mulher-Maravilha pode pelo menos aparecer para ajudar, não é? E o Superman precisa deixar de ser só um mané para aceitar sua função no mundo ao lado – sim, ao lado e não contra – de Batman, o único sujeito que, no millerverso, parece ter a cabeça no lugar. Se Miller e Azzarello trabalharem esses pontos com afinco nos próximos números, a aventura padrão poderá tornar-se uma aventura memorável, ainda que longe da relevância da original.

A arte de Andy Kubert, com finalização de Klaus Janson continua certeira e deslumbrante, emulando a obra original no trabalho com os quadros e com as sequências grandiosas. Wayne continua caracterizado como um gigante – só que agora muito frágil – e Kelley continua diminuta – mas poderosa – criando um contraste muito interessante e que é deslumbrante nas páginas da publicação. Neste quesito, não há realmente o que reclamar e, se Miller e Azzarello se contentarem com a aventura padrão, então ao menos teremos uma aventura padrão com arte de cair o queixo.

Na história secundária, o foco é em Hal Jordan, o Lanterna Verde. Descobrindo o que está acontecendo com a Terra, ele volta à sua forma original e, em poucas páginas, precisa lidar com o que parece ser as esposas de Quar indagando sobre a condição humana em frente à esfinge no Egito. Essa história sim mostra todo o potencial da parceria entre Miller e Azzarello. Apesar de breve, as questões levantadas – quem é deus, qual é o papel da humanidade no mundo – e não respondidas são instigantes, assim como o anticlimático embate entre o herói e as kryptonianas. É torcer para que os autores enxertem a narrativa de Jordan no arco maior.

A arte, ao encargo de John Romita Jr., com arte final de Frank Miller é o que se poderia esperar desta combinação: estranha. Romitinha já desenhou muito bem e, quando quer, ainda produz artes fantásticas, como seu trabalho em Perdido na Dimensão Z, do Capitão América. Aqui, ele é apenas burocrático, deixando seus traços inacabados para uma arte-final de um Miller em final de carreira artística. No entanto, como a história em si carrega um ar de estranheza – o enigma da esfinge!- a estranheza na arte não incomoda e até de certa forma combina com o desenrolar da história.

O terceiro número de O Cavaleiro das Trevas 3 é um ponto de virada. Deixa entrever uma sensacional história que precisa ainda desabrochar de verdade. É torcer para que os próximos números sejam memoráveis.

DK III: The Master Race #3 (EUA, 2016)
Roteiro: Frank Miller, Brian Azzarello (ambas as histórias)
Arte: Andy Kubert (história principal), John Romita Jr. (história secundária)
Arte-final: Klaus Janson (história principal), Frank Miller (história secundária)
Cores: Brad Anderson (história principal), Alex Sinclair (história secundária)
Letras: Clem Robins (ambas as histórias)
Editora nos EUA: DC Comics
Data original de lançamento: 24 de fevereiro de 2015
Páginas: 53 (as duas histórias mais páginas extras com capas variantes)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.