Crítica | Batman – O Cavaleiro das Trevas, Parte 1

estrelas 3,5

Sei que, para os não iniciados em HQs, o título acima pode parecer confuso. No entanto, foi Christopher Nolan quem copiou o nome da minissérie de Frank Miller de 1986 e não vice-versa. Além do mais, a obra de Miller é, provavelmente, a mais importante em quadrinhos de heróis mainstream já feita e uma adaptação audiovisual era mais do que merecida. Se você sabe do que se trata e não quer ler nada mais do que a crítica, pule os próximos seis parágrafos, que contextualizam e explicam minha relação direta com a HQ.

Bom, se você está lendo esse parágrafo, vale repetir, se é que já não ficou claro: essa crítica é sobre o desenho animado da DC Entertainment lançado direto em home video que adapta, em duas partes, a lendária minissérie em quadrinhos escrita e desenhada por Frank Miller, com arte final de Klaus Janson e cores de Lynn Varley, intitulada O Cavaleiro das Trevas (em inglês, The Dark Knight Returns), publicada pela primeira vez em 1986. Se você não a leu, pare tudo agora e leia, já que ela se encontra facilmente disponível em lojas especializadas pelo Brasil, publicada pela Panini e é simplesmente imperdível.

Para quem viveu em uma caverna nos últimos 30 anos e não sabe do que se trata a trama, aqui vai um resumo: Batman está aposentado há dez anos e o crime tomou Gotham City. Agora, com mais de 50 anos, Bruce Wayne é levado a vestir sua roupa de morcego mais uma vez para livrar a cidade de enormes ameaças, dentre elas um violento líder de gangue, Duas Caras, Coringa (claro!) e um certo azulão. Essa história revitalizou o herói e literalmente catapultou sua bilionária carreira no cinema.

Assim como fez meu colega Luiz Santiago, em sua crítica da HQ, tenho que confessar que essa minissérie é próxima demais de meu coração para ser completamente imparcial. Acompanhei a publicação original, no Brasil, número a número (foram quatro em “formatão”, algo raro na época) e li e reli incontáveis vezes desde então tanto a versão nacional quanto a americana. É uma das melhores HQs já escritas e ponto final.

Assim, foi com muita antecipação que aguardei o lançamento da adaptação animada dessa história em home video, lançado no Brasil pela Warner de maneira inédita, antes ainda do lançamento nos EUA. Pena que a Warner não ousou mais, lançando também a versão em alta definição. Mas não se pode ter tudo, não é mesmo?

Se você é fã da HQ como eu sou, nada o impedirá de sair correndo para as lojas para procurar seu exemplar e aconselho que o faça. Mas, isso é um movimento involuntário movido pela curiosidade, algo que respeito e entendo. A pergunta que fica é: será que a adaptação faz jus ao material original?

E essa pergunta é difícil de responder. Primeiro porque, quando a obra primígena é tão adorada como é o caso de O Cavaleiro das Trevas, é uma tarefa impossível uma adaptação ser tão boa. Segundo porque são dois meios diferentes. Uma HQ é uma HQ, com sua forma de se comunicar com o público, enquanto que um desenho animado é um desenho animado, também com suas características únicas.

Mas vamos começar pelo começo.

A animação da HQ de Frank Miller é muito fiel ao material fonte e isso já será um grande alívio para os fãs. Todos os eventos da história (pelo menos até o final da fita, com a briga na lama contra o líder dos Mutantes) são contados na ordem em que eles acontecem no trabalho de Miller.

Como os quadrinhos de Frank Miller são fortemente cinematográficos, a conversão para uma obra animada funcionou muito bem, com um roteiro ditado pelo que o autor escreveu, sem qualquer tentativa de inovação. A única alteração sensível, mas com sentido, é a dissociação direta com os anos 80, algo muito presente nos quadrinhos. Não vemos mais um Ronald Reagan envelhecido como presidente dos EUA. Na verdade, não há menção à presidência do país. Mas o uso de uma narrativa dependente de telejornais continua lá, intacta, servindo como comentário à ação que se desenrola na tela.

O diálogo interno de Bruce Wayne/Batman também não está presente e isso também tem razão de ser, pois a sobreposição de comentários jornalísticos com uma “voz interior” seria, provavelmente, um exagero de informações que são mais suavemente passadas com as imagens em movimento. O que funcionou muito bem na HQ não seria tão eficiente no desenho.

O trabalho de voz é excepcional, com a escolha acertada de atores como Peter Weller  para viver Batman, Ariel Winter como Robin, Wade Williams como Harvey Dent/Duas Caras e David Selby como James Gordon. Aqueles que sentem falta do também incrível trabalho de Kevin Conroy como o herói na série animada para a TV, talvez torçam o nariz para Weller, mas isso seria apenas implicância. O ator que viveu Robocop no cinema consegue empregar um tom de voz que deixa transparecer o peso da idade sobre os ombros do Homem-Morcego, e isso é um elemento essencial à trama. Não deixa absolutamente nada a dever ao trabalho de Conroy.

O trabalho de direção ficou ao encargo de Jay Oliva, que fez os storyboards de Homem de Aço, de Zack Snyder e de diversas séries animadas de TV da DC Comics. Talvez por ser um artista gráfico, Oliva tenha escolhido uma estética que, ao mesmo tempo que é próxima da de Miller (especialmente no design dos personagens e elementos-chave como o Batmóvel), consegue ser diferente o suficiente para ser original. No entanto, seu trabalho não é muito inspirado e ele acaba não ousando muito, talvez com receio de fugir demais da reverência à obra original.

Além disso, Oliva optou por contrastes muito fortes de cores em uma obra que tem todo o ar sombrio e lúgubre possível e isso, às vezes, distrai o espectador. Os traços mais simplistas dos desenhos dão impressão de algo feito às pressas, o que me leva à minha maior crítica ao desenho: ele é desanimado demais, com poucos detalhes de fundo.

Em muitos momentos, o que vemos são apenas algumas feições corporais e faciais dos personagens se alterando, mas todo o resto permanece o mesmo. Seria maldade dizer que se parece com aquelas revistas em movimento da Marvel da década de 60, mas foi a primeira coisa que me veio à cabeça. Para ser justo, lembra a estética de animações mais simples como o clássico Speed Racer e isso acaba retirando muito do valor da fita. Afinal de contas, uma obra tão reverenciada como a de Miller mereceria um tratamento diferenciado, algo que fosse marcante o suficiente para não ser esquecido. Se a história não fosse tão genial, seria um desenho facilmente esquecível como, aliás, o são vários outros da DC Entertainment.

Se dificilmente veremos a HQ de Miller tornar-se um filme da forma como foi concebida, é uma espécie de consolo tê-la na forma de desenho animado. Poderia ser uma experiência incrível, mas, no final das contas, é, apenas, um passatempo divertido, especialmente para aqueles que gostam dos quadrinhos.

É o suficiente para correr para a estante e reler O Cavaleiro das Trevas pela enésima vez.

Batman: O Cavaleiro das Trevas – Parte 1 (The Dark Knight Returns – Part 1, Estados Unidos, 2012)
Direção: Jay Oliva
Roteiro: Bob Goodman
Elenco: Peter Weller, Ariel Winter, Michael Emerson, Michael McKean, Wade Williams, Gary Anthony Williams, Rob Paulsen, David Selby, Maurice LaMarche, Gary Anthony Sturgis
Duração: 76 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.