Crítica | Batman – O Cavaleiro das Trevas, Parte 2

estrelas 3,5

O tratamento diferenciado da DC Entertainment para a adaptação de O Cavaleiro das Trevas em desenho animado pode ser visto, quase que exclusivamente, pelo fato de o lançamento ter sido feito em dois volumes, efetivamente duplicando a duração. Assim, nada da obra original ficou de fora, com direito, ainda, a alguns combates estendidos, o que, no caso do mais famoso deles, entre Batman e Superman, é uma ótima notícia.

Mas, assim como aconteceu na Parte 1, a Parte 2 sofre com a (des)animação do trabalho dirigido por Jay Oliva. Ao emular os traços de Frank Miller e Klaus Janson, além das cores de Lynn Varley, Oliva e sua equipe de animadores, que deveriam ter à sua disposição orçamento e cuidado à altura da importância histórica e narrativa da obra original, apresentam um trabalho sem detalhes de fundo e nos personagens, além de movimentos endurecidos e pouco fluidos. A animação somente resiste graças à força do trabalho de Frank Miller, que apresenta uma história poderosa e inesquecível. Não fosse isso (e os trabalhos de voz – chegarei a isso em breve), o resultado final seria algo completamente descartável, certamente muito aquém do que deveria ter sido.

Estou sendo muito duro?

Talvez, mas não consigo me conformar com a DC Entertainment ao não ter se esmerado aqui. Essa deveria ser sua mais importante animação e não mais uma em seu extenso catálogo de animações. Essa deveria ser a obra para soterrar os demais desenhos animados de super-heróis, assim como a graphic novel foi em sua época em relação às demais HQs. Definitivamente, uma grande oportunidade desperdiçada, especialmente considerando que estamos falando de um desenho que, em sua duração total, passa de 2h30′.

A Parte 2 começa três meses após Batman (voz de Peter Weller) ter vencido o líder dos Mutantes no braço em uma arena no esgoto a céu aberto de Gotham City. Os três grandes inimigos do Morcego, nesse segundo capítulo, são a nova comissária de polícia, Ellen Yindel (voz de Maria Canals-Barrera) que, tomando o lugar do aposentado Comissário Jim Gordon (voz de David Selby), jura capturar o justiceiro mascarado; o Coringa (voz de Michael Emerson) que acorda de seu estado catatônico quando vê Batman voltar à ativa, em uma sensacional reiteração que um só existe por causa do outro e, finalmente, o escoteiro do Universo DC, o Superman (voz de David Selby), agora um mero pau-mandado do presidente dos EUA. A narrativa ainda envolve uma envelhecida Selina Kyle (voz de Tress MacNeille), a nova Robin (voz de Ariel Winter), fiel escudeira de Batman e, finalmente, um amargo Oliver Queen (voz Robin Atkin Downes) em participação pequena, mas crucial.

Pessoalmente, apesar do grande clímax entre Batman e Superman, sempre achei o derradeiro embate entre o Morcego e seu nêmesis bem mais interessante. E o mesmo aconteceu na animação. A sensação de perigo e de finalidade na luta no parque de diversões entre dois homens cuja existência de um se justifica pela do outro (A Piada Mortal viria novamente tratar desse tema em 1988, com um clímax mortal também em um parque de diversões, aliás) é amplificada pela animação e por uma sequência estendida trabalhando a mortandade aleatória causada pelo Coringa, além dos ferimentos sofridos por Batman. É uma sequência de tirar o fôlego ainda que Oliva se perca em seu prelúdio, com Batman invadindo o prédio da televisão onde o vilão está participando de um talk-show. Essa longa cena parece perdida e completamente sem propósito, com Batman atacando a polícia sem um plano maior aparente e sem que o que testemunhamos afete a narrativa, tornando-se supérflua. E, antes que os fanboys venham com pedras na mão dizendo que isso também está na graphic novel (e está, eu sei), reparem que, na animação, esse momento é aleatório, longo demais e dissociado do próprio evento principal acontecendo alguns andares abaixo. Poderia ser cortada do filme? Provavelmente sim, mas a melhor solução teria sido integrá-la  melhor à narrativa.

Apesar de achar mais interessante o embate entre Batman e Coringa, o clímax mesmo se dá no Beco do Crime, com Superman vindo apagar Batman da existência depois de resolver uma crise nuclear em Cuba, digo Corto Maltese. Com o kryptoniano enfraquecido e com o terráqueo fortalecido por uma sensacional armadura, além de outros brinquedinhos, a luta épica se desenrola por vários e vários minutos, com Oliva realmente extraindo o melhor da graphic novel para sua animação. Ainda há problemas com o detalhamento dos desenhos em si, mas a neve caindo e o próprio escopo do combate desviam a atenção do espectador o suficiente para que esses “detalhes” sejam esquecidos.

Um aspecto que sempre foi destaque nas séries de Batman é o trabalho de voz. Kevin Conroy e Mark Hamill fizeram interpretações colossais como, respectivamente, Batman e Coringa na série clássica e muita gente defende que essas são as duas vozes definitivas dos personagens. E sim, eles são muito bons, mas, aqui, o mesmo acontece como Peter Weller, o eterno Robocop, como Batman/Bruce Wayne e Michael Emerson, o  Benjamin Linus de Lost, como o Coringa, que interpretam as versões envelhecidas dos dois personagens de maneira tão definitiva quanto a dupla Conroy/Hamill. A característica voz metálica de Weller empresta peso ao Batman, peso da idade, peso da sabedoria e peso por saber que seu trabalho de anos não resultou em muita coisa. O Coringa tem a voz suave, mas sinistra ao ponto de arrepiar os cabelos do braço. Não há histrionismo por parte de Emerson, apenas um caráter letal à sua fala que é difícil de medir.

Em menor escala, o mesmo vale para as demais vozes, com especial destaque para Ariel Winter como Carrie Kelley/Robin e Mark Valley como Clark Kent/Superman. A primeira passa inocência e força e, o segundo, todo o bom mocismo enfraquecido por anos de obediência cega à ordens que sabe que não deveria obedecer.

É, portanto, uma verdadeira pena que a técnica da animação não faça jus ao material fonte e às vozes empregadas. Se Batman – O Cavaleiro das Trevas não tivesse sido trabalhada como “mais uma” animação da DC e sim como A animação da DC, não haveria estrelas suficientes para coroá-la. Do jeito que ficou, é quase que um consolo para os fãs que sempre clamaram por ver a obra de Miller em forma de animação. Longe de ser ruim, apenas é um grande desapontamento.

Batman – O Cavaleiro das Trevas, Parte 2 (Batman: The Dark Knight Returns, Part 2, EUA – 2013)
Direção: Jay Oliva
Roteiro: Bob Goodman (baseado em personagens criados por Bob Kane, Bill Finger, Jerry Siegel e Joe Shuster e graphic novel de Frank Miller e Klaus Janson)
Elenco: Peter Weller, Ariel Winter, Michael Emerson, David Selby, Mark Valley, Carlos Alazraqui, Dee Bradley Baker, Paget Brewster, Maria Canals-Barrera, Townsend Coleman, Robin Atkin Downes, Michael Jackson, Tress MacNeille
Duração: 76 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.