Crítica | Batman: O Retorno da Dupla Dinâmica

estrelas 3,5

Para comemorar os 50 anos de uma das mais famosas versões de Batman e Robin, a DC e a WB Animation trouxeram os memoráveis Adam West, Burt Ward e Julie Newmar de volta para emprestarem suas vozes mais uma vez para a dupla dinâmica e a Mulher-Gato, papéis que definiram suas respectivas carreiras na jocosa série sessentista dos personagens. A animação consegue perfeitamente encapsular o espírito do exagerado seriado e ainda elevá-lo a décima potência sem perder o charme, ainda que a qualidade em si da técnica de animação continue deixando muito a desejar, marca de longas mais recentes do estúdio, como Batman: A Piada Mortal.

O roteiro de Michael Jelenic e James Tucker e a direção de Rick Morales, todos veteranos, em diversas capacidades, em animações da Warner/DC, são precisos em capturar tudo aquilo que fez da colorida série aquela que até hoje muitos fãs de outras gerações mais ligam com a Dupla Dinâmica. Estão presentes os absurdos ângulos holandeses (aqueles que mexem no eixo da câmera para que a imagem fique “torta), as onomatopeias dos socos e chutes, as aliterações constantes, os vilões exagerados e, claro, os mais diversos bat-gadgets para o delírio dos saudosos e alegria dos mais jovens pouco acostumados com essa versão de seus heróis. E tudo é feito de maneira auto-consciente, como se tudo não passasse – e não passa mesmo! – de uma grande e divertida brincadeira.

Mas se na série tudo já era inflado, na animação o objetivo de Jelenic e Tucker parece ser bater o recorde de referências e histrionismo, com textos que exaltam a virtude inabalável e a capacidade dedutiva de Batman, a inocência extrema de Robin e a sensualidade pegajosa da Mulher-Gato. A dupla trabalha os diálogos, que são longos e expositivos exatamente como eram na série, determinados a estabelecer a engraçadíssima reputação ilibada especialmente de Batman para, no momento seguinte, desconstruí-la com uma poção da Mulher-Gato que leva o herói ao seu lado sombrio depois que ele e Robin impedem um plano maluco do Coringa, Pinguim, Charada e da vilã felina favorita de todos.

Essa gradativa e tresloucada “queda” de Batman é uma belíssima cutucada nas versões cada vez mais violentas e pesadas do Homem-Morcego no cinema e nos quadrinhos, com direito até mesmo a um grau incomum de violência em tela na animação que é representada por um bat-soco inglês e onomatopeias modificadas para ilustrar o que está acontecendo, além de um batmóvel tunado em direta referência ao “Tumbler” da Trilogia Batman de Christopher Nolan. Em outras palavras, ao trabalhar fortemente com a nostalgia e com a versão lisérgica de Batman e Robin, os roteiristas não fazem apenas o básico. Muito ao contrário, conseguem ir além e nos fazer pensar que tipo de personagem queremos, que tipo de herói ansiamos. Mas julgamentos não são feitos. Jelenic e Tucker não condenam um lado para enaltecer o outro, apenas os colocam em oposição para lembrar aos fãs que um não anula o outro e que a coexistência é mais do que sadia. E isso em meio a referências à própria série sessentista, como a breve, mas respeitosa aparição das “três Mulheres-Gato”, lembrando que Newmar foi a primeira, Lee Meriwether a segunda (no longa) e Eartha Kitt a terceira, cada uma sensacional de seu jeito próprio.

O trabalho de vozes é um dos grandes atrativos da animação. Afinal, ver West, Ward e Newmar dando vida novamente aos personagens que marcaram suas carreiras não tem preço (assistir o filme dublado em qualquer outra língua deveria ser crime inafiançável) e são imperdíveis, ainda que a afetação na voz de West tenha aumentado ainda mais com a idade, distraindo-nos talvez um pouco demais. Ward e Newmar, ao contrário, parecem que não envelheceram nada. Fechem os olhos e parecerá que estão ouvindo a série original. Mas as novas vozes também fazem um trabalho excepcional em emular as originais. Jeff Bergman como o Coringa, William Salyers como o Pinguim e Wally Wingert como o Charada homenageiam respectivamente os saudosos Cesar Romero, Burgess Meredith e Frank Gorshin sem deixar de imprimir suas próprias flexões vocais típicas e completam um respeitável time que desde logo dá vontade de vê-los novamente em ação em possível continuação (afinal, ainda queremos ver a Batmoça!).

O grande problema de O Retorno da Dupla Dinâmica é o mesmo que constantemente assola as animações da DC: a técnica. Se quando a DC embarcou no projeto de trazer seus personagens para as telinhas por meio de séries e longas animados fazer uma animação de poucos frames por segundo ainda era aceitável, hoje não é mais. A DC simplesmente parou no tempo e continua girando sua máquina da mesma forma como fazia nos anos 90, com um trabalho para lá de preguiçoso que dificulta a imersão dos espectadores. Os movimentos de boca quase não são sincronizados com as vozes, os detalhes de fundo são escassos e há uma variação muito grande na presença e ausência de determinados pequenos aspectos dos uniformes, como botões e bolsos que aparecem e somem de uma tomada para outra.

E antes que venham me dizer que isso não importa, pois são longas feitos para a TV, confesso que a explicação é conveniente demais e típica de quem está pronto para aceitar qualquer coisa. Animações para TV – assim como séries live-action – claramente recebem menos investimento e tem que economizar aqui e ali. Não se discute isso. O que se discute é que não se vê evolução entre o que a DC soltava há mais de 20 anos e o que solta agora em termos de longas animados de seus heróis. A (des)animação prevalece e isso detrai demais das obras, especialmente considerando que a própria DC tem séries animadas que conseguem fazer muito mais com até menos como é o caso de Teen Titans Go!. É uma pena que os excelentes personagens da editora e que roteiros espertos como o de O Retorno da Dupla Dinâmica sejam manchados por um trabalho que já nasce datado.

De toda forma, o longa é uma diversão nostálgica como poucas. E tem material para todo mundo aqui: novos a velhos fãs; conhecedores profundos e novatos nesse universo super-heroístico e também para aqueles que só querem mesmo 78 minutos de bat-bobagens e bat-risadas.

Batman: O Retorno da Dupla Dinâmica (Batman: Return of the Caped Crusaders, EUA – 2016)
Direção: Rick Morales
Roteiro: Michael Jelenic, James Tucker
Elenco: Adam West, Burt Ward, Julie Newmar, Jeff Bergman, William Salyers, Wally Wingert,  Steven Weber, Jim Ward, Thomas Lennon,  Lynne Marie Stewart,  Sirena Irwin
Duração: 78 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.