Crítica | Batman – O Retorno

estrelas 3

Três anos após a estreia de Batman, Tim Burton e Michael Keaton retornam como diretor e protagonista, respectivamente, da sequência do filme de 1989. À princípio, Burton, que não ficara à vontade com o resultado de sua adaptação anterior, não pretendia reprisar a cadeira de direção. Sua ideia mudou com o roteiro de Daniel Waters que garantia ainda mais espaço para sua estética expressionista.

Dessa forma temos uma continuação que é tão visualmente impressionante quanto o primeiro, com ambientações e maquiagens que nos levam de volta à Alemanha dos anos 1920. Gotham é, mais do que nunca, uma odisseia gótica/ steampunk que, desta vez, é retratada somente em tomadas noturnas. O anterior, por sua vez, ainda víamos a cidade à luz do dia em poucas cenas. O que se destaca em Batman – O Retorno é a retratação do Pinguim (Danny DeVito) e Mulher-Gato (Michelle Pfeiffer), fator que garantiu a nomeação de Oscar por melhor maquiagem. Dando ainda mais relevância a esses aspectos está a fotografia Stefan Czapsky e edição de Bob Badami e Chris Lebenzon, que, novamente, trabalham na pouca exposição do herói e enquadramentos que destacam os antagonistas. Czapsky enaltece a loucura de cada personagem enquanto Badami e Lebenzon garantem o dinamismo em um filme que trabalha com o interior (personalidades) e exterior (aspecto visual) ao mesmo tempo

A continuação, enquanto é bem sucedida no aspecto visual, carece do mesmo cuidado no roteiro. A história criada por Daniel Waters e Sam Hamm garante mais espaço criativo para o diretor, mas peca tanto na progressão da história quanto no sentido. Muitas sequências contam com elementos que exageram na fantasia do longa, como o gigante pato que o Pinguin utiliza como transporte ou seu guarda-chuva-helicóptero. Tais ocorrências deixam o filme com um tom quase que onírico, tirando a imersão do espectador daquele universo sombrio. Deixando esses fatores à parte ainda contamos com situações forçadas dentro da trama, como a alteração do batmóvel por criminosos comuns e um homem que passou sua vida inteira no esgoto.

Compensando os inúmeros deslizes do texto, estão as atuações do elenco principal, que produzem uma verdadeira química entre os personagens. Burton se aprofunda no tragicômico de seus personagens, trazendo monstruosidades que chegam a ser assustadoras e caricatas ao mesmo tempo.  Danny DeVito produz uma figura tão marcante quanto o Coringa de Jack Nicholson e se encaixa perfeitamente dentro da proposta de Burton – uma figura claramente distorcida, mas que hipnotiza a população de Gotham. Keaton nos entrega um herói tão maníaco-depressivo quanto nunca, mergulhando no interior de sua personalidade, mantendo seu aspecto taciturno. Sua cara-metade é vivida por Michelle Pfeiffer, uma mistura de loucura e sensualidade que certamente rouba as cenas nas quais aparece. Por fim temos Christopher Walken dando vida ao empresário Max Schreck, mais uma personalidade caricata e que, dentro de toda a loucura do restante dos protagonistas e antagonistas consegue se destacar como um homem comum à procura de mais poder – que, segundo ele mesmo, nunca é o suficiente.

O segundo Batman de Tim Burton é um longa-metragem hipnótico que consegue nos prender em cada aspecto de suas sombras. O roteiro comete dezenas de deslizes que podem estragar o filme para qualquer espectador. Isso gera um filme que será melhor aproveitado como uma obra que tende ao surreal, ao onírico, vale ser aproveitada pelo desvirtuamento de cada personagem que nos atraem tanto pelas maquiagens quanto pelas atuações. É uma obra que, definitivamente, não vale de comparação – é única por nos trazer uma Gotham tão sombria quanto nunca, algo que chega somente a ser resgatado, em parte, nos filmes de Christopher Nolan.

Batman – O Retorno (Batman Returns, EUA/ Reino Unido – 1992)
Direção: Tim Burton
Roteiro: Sam Hamm, Warren Skaaren
Elenco: Michael Keaton, Danny DeVito, Michelle Pfeiffer, Christopher Walken, Michael Gough, Michael Murphy, Cristi Conaway, Andrew Bryniarski, Pat Hingle, Vincent Schiavelli, Steve Witting, Jan Hooks
Duração: 126 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.