Crítica | Batman Preto e Branco (1996)

O que é realmente frustrante é imaginar como essa série poderia ter sido se alguns dos mestres do passado ainda estivessem vivos.
-Mark Chiarello

estrelas 5,0

Inspirado pela revista Creepy – Contos Clássicos de Terror, que reúne diferentes histórias, de diversos autores, dentro de uma mesma temática, Mark Chiarello, após uma conversa com diversos artistas do ramo, teve a ideia de realizar um projeto similar focado no Homem-morcego. Já como editor das revistas do herói, Chiarello cria o projeto Batman Preto e Branco, trazendo para suas quatro edições, nomes de destaque dentro do cenário dos quadrinhos, tanto ocidentais, como Neil Gaiman, quanto orientais, mais especificamente Katsuhiro Otomo, responsável pelo incrível Akira. Com uma maior liberdade criativa essas pessoas poderiam abordar diferentes aspectos do vigilante mascarado, de sua mitologia, garantindo histórias que em muitos fatores se diferenciam do que costumamos ler quando se trata de Batman.

É justamente essa liberdade que torna a revista tão atrativa, não só reunindo roteiros incrivelmente criativos, como traçados nada convencionais. A limitação do preto e branco, no fim, se torna um elemento expansivo, forçando cada desenhista a explorar as infinitas possibilidades dentro da proposta. Impossível não se deixar impressionar com vinte histórias colecionadas com artes tão distintas uma das outras, que vão de linhas similares ao cubismo de Matt Wagner, passando pelo traçado de Batman: The Animated Series de Bruce Timm, até uma espécie de surrealismo presente nas páginas ilustradas por Simon Bisley. Perante todas essas diferenças, contudo, encontramos um ponto em comum que se mantém quase que na totalidade das edições: a ausência do dégradé. O título da obra não poderia descrever melhor, ao passo que as páginas fazem uso apenas do preto e do branco, dispensando os tons de cinza que poderíamos esperar, criando uma ainda maior riqueza em cada página.

Como vai a família?

Como vai a família?

Toda a criatividade da arte ainda consegue perfeitamente se encaixar com cada trama presente nessa coletânea, dialogando com os personagens em quadro e contribuindo fluidamente para a criação de cada tom, seja uma abordagem mais adulta, como em Criando Monstros, de Jan Strnad ou uma retratação dos anos 50, o auge do American Way of Life em uma história que trabalha, justamente, em cima de seu declínio. Aqui não posso deixar de destacar esse fragmento de Preto e Branco, nomeado Pequenos Crimes, que foca em um cidadão comum realizando crimes baseados em situações cotidianas, como desrespeito na sala do cinema ou péssimo atendimento ao cliente. O roteiro de Howard Chaykin abre uma via direta com o leitor, expondo muitas de nossas vontades secretas, nossos acessos de fúria interna.

O verdadeiro “astro” da revista, contudo, é Neil Gaiman, que apoiado pelos traços surrealistas, já citados, de Bisley, cria uma narrativa completamente inesperada. Nela, Batman e o Coringa trabalham como personagens de quadrinhos, como atores que simplesmente gravam suas cenas e, em seguida, voltam a suas vidas normais. São páginas completamente indescritíveis, que conseguem trazer risadas do leitor, mesmo diante de uma arte perturbadora. O traçado, enfim, adota seu significado duplo, denotando que há algo de errado naquelas páginas, como um sonho ou pesadelo, distorcendo a realidade que já conhecemos.

Este, porém, é apenas mais um exemplo das amplas possibilidades que Batman Preto e Branco nos traz. Com uma diversa miríade de autores, o que temos são páginas indispensáveis para qualquer leitor dos quadrinhos – histórias curtas, dinâmicas que não precisam ser lidas em ordem ou juntas uma da outra. É como um livro de cabeceira, nos permitindo abri-lo a qualquer hora do dia para nos depararmos com algo definitivamente não convencional. Leitores novos ou antigos do homem-morcego irão se impressionar com estas páginas, cuja arte e roteiro, definitivamente, permanecerão em nossas mentes.

Batman Preto e Branco (Batman Black and White) – EUA, 1996
Minissérie em 4 edições
Lançamento no Brasil:
Panini Books (encadernado de luxo)
Roteiro:
Ted McKeever, Bruce Timm, Joe Kubert, Howard Chaykin, Archie Goodwin, Walter “Walt” Simonson, Jan Strnad, Kent Williams, Chuck Dixon, Neil Gaiman, Klaus Janson, Andrew “Andy” Helfer,  Matt Wagner, Bill Sienkiewicz, Denny O’ Neil, Brian Bolland, Archie Goodwin, Denny O’ Neil, Katsuhiro Otomo 
Arte:
Ted McKeever, Bruce Timm, Joe Kubert, Howard Chaykin, José Muñoz, Walter “Walt” Simonson, Richard Corben, Kent Williams, Jorge Zaffino, Simon Bisley, Klaus Janson, Gaetano “Tanino” Liberatore, Matt Wagner, Bill Sienkiewicz, Teddy Kristiansen, Brian Bolland, Kevin Nowlan, Gary Gianni, Brian Stelfreeze, Katsuhiro Otomo 
Páginas:
246

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.