Crítica | Batman & Robin

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Alguns críticos e veículos de informação têm símbolos que classificam com mais exatidão a falta de qualidade de um filme do que o sistema de estrelas. Por exemplo, o jornal O Globo tem os famosos bonequinhos, sendo que há um deles indo embora do cinema. Mais claro impossível, não? Leonard Maltin, autor de compêndios de críticas, usa o desenho de uma bomba prestes a explodir. Mick Martin e Marsha Porter, também autores de grossos livros de breves críticas, usam o desenho de um peru (a ave, por favor!) para indicar uma porcaria (turkey, em inglês). Não temos isso aqui no Plano Crítico, mas é em momentos como esse que sinto falta de algo mais, digamos, contundente.

Acho que já deu para perceber em que direção vai essa crítica, não é mesmo?

Mas vamos lá mesmo assim.

Batman – O Retorno, de 1992, havia feito um pouco acima de 266 milhões de dólares, contra um orçamento de 80 milhões. Esse valor não satisfez a Warner, que culpou a violência e o tom sombrio do segundo filme de Burton para esse relativo fracasso. Assim, Schumacher foi chamado para dar nova vida à franquia do Homem Morcego. O resultado foi Batman Eternamente, carregado de luzes multicoloridas e personagens histriônicos, que fez belos 336 milhões contra um orçamento de 100 milhões. A conclusão era óbvia: o público queria mais leveza e cores e não aquele visual triste e sombrio de antes.

Isso fez com que a Warner colocasse Batman & Robin em produção acelerada, para ser lançado meros dois anos depois do terceiro filme. E as poucas rédeas impostas ao diretor Joel Schumacher foram retiradas completamente. Assim, o quarto capítulo da franquia ganhou ainda mais cores, mais personagens e mais closes nas bundas dos atores, além de vários e salientes bat-mamilos (estranhamente ausentes do uniforme de Batgirl) e bat-protetores de virilha bem avantajados.

Como Schumacher não gostou da postura desobediente de Val Kilmer durante as filmagens anteriores, decidiu escalar outro ator para o papel de Batman/Bruce Wayne e George Clooney, então ainda com a carreira em ascensão, entrou em cena. Chris O’Donnell voltou ao papel de Robin/Dick Grayson e Uma Thurman e Arnold Schwarzenegger foram escalados nos papéis dos vilões Hera Venenosa e Senhor Frio. Alicia Silverstone também foi trazida para a família do morcego, como Barbara Wilson, sobrinha do moribundo mordomo Alfred (Michael Gough), para tornar-se Batgirl. Ah, o vilão Bane (Jeep Swenson) também dá as caras como um capataz demente de Hera Venenosa.

Mas tudo que há de errado em Batman & Robin está encapsulado nos seus primeiros 15 minutos. Nesse tempo, os heróis do título partem da batcaverna para impedir que o Senhor Frio roube um ridiculamente enorme diamante de um museu de Gotham. Nessa ação de abertura, temos Schwarzenegger falando única e exclusivamente por meio de irritantes frases de duplo sentido com gelo ou frio (Akiva Goldsman é o culpado por isso, novamente). Vemos a dupla dinâmica bater os pés e bat-lâminas de patinação saem de suas botas. Testemunhamos uma partida de hockey no gelo, com direito até aos bastões. Isso sem contar com um sem fim de malabarismos impossíveis, efeitos especiais abaixo do padrão e uma cena de surf aéreo capaz de arrepiar os cabelos dos mais tolerantes críticos de cinema.

A pièce de résistance vem mesmo algum tempo depois dessa cena inicial, quando Schumacher e Goldsman nos obrigam a ver o Exterminador do Futuro na cena mais humilhante de sua carreira cinematográfica: ele, careca, pintado com tinta prateada e cheio de purpurina, vestindo um roupão e pantufas de ursos polares, com um charuto na boca, vendo um desenho em stop motion na televisão e fazendo com que seus congelados comparsas cantem em conjunto. A primeira reação é fugir de horror e, a segunda, arrancar os olhos como Édipo ao descobrir que Jocasta era sua mãe.

A direção de Schumacher é uma repetição de seu filme anterior, ou seja, uma lição do que não fazer. Montagem terrível, fazendo a película parecer uma colcha de retalhos e uso de luz e cores de maneira a invadir os sentidos da pior maneira possível. Isso sem contar com o uso incessante do chamado ângulo holandês, em que a câmera é virada, para dar uma sensação de estranhamento.

E o roteiro de Akiva Goldsman também não ajuda, ainda que seja marginalmente superior ao anterior, por apresentar um Senhor Frio atormentado por sua incapacidade de curar sua esposa. Mas mesmo esse aspecto é diluído completamente quando reparamos que, por uma daquelas coincidências que só existem em livros ruins, daqueles vendidos em papel jornal por dois reais nas bancas de jornal, o mordomo Alfred Pennyworth sofre da mesma doença fatal da mulher do Senhor Frio. Qualquer resquício de credibilidade (algo que realmente é difícil de achar) desaparece nesse exato momento.

E a presença aleatória de Barbara Wilson (Silverstone, fazendo beicinho) e sua transformação em Batgirl mostram a fraqueza e a incapacidade de se construir personagens interessantes. Ela é uma garota rebelde debaixo do verniz de uma estudante certinha que, absolutamente sem mais nem menos, é uma exímia lutadora, do nível dos super-treinados heróis do título. E mais: sua roupa de Batgirl já estava pronta, esperando por ela, já que Alfred, além de mordomo, é apresentado, aparentemente, como alguém capaz de prever o futuro, só faltando uma bola de cristal, um roupão com estrelas e luas, um chapéu pontudo e uma longa barba.

Entre bat-cartões de créditos e efeitos sonoros retirados de desenhos dos Looney Tunes, Batman & Robin não resiste ao mais superficial escrutínio. Só duas lições podem ser tiradas dessa obra: (1) George Clooney é um cara perseverante, que, para nossa sorte, não deixou sua carreira ir por água abaixo por causa desse filme e (2) o público não é tão otário como a produtora achava e o filme só fez 238 milhões de dólares, tendo custado 125, o que acabou por enterrar por oito anos a carreira do morcegão que somente seria revivida debaixo da batuta certeira de Christopher Nolan.

Ah, um último comentário: não se deixem enganar pela “zero estrela” que vocês vêem aqui. Esse filme merecia algum dos símbolos do primeiro parágrafo ou, talvez, aquele aviso de lixo tóxico nuclear.

Batman & Robin (Idem, EUA, 1997)
Direção: Joel Schumacher
Roteiro:  Akiva Goldsman
Elenco: George Clooney, Chris O’Donnell, Arnold Schwarzenegger, Uma Thurman, Alicia Silverstone, Michael Gough, Pat Hingle, Jeep Swenson
Duração: 125 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.