Crítica | Batman: Silêncio

estrelas 2,5

Jeph Loeb escreveu obras brilhantes como O Longo Dia das BruxasVitória Sombria na DC e a série das “cores” na Marvel. Trabalhou também em um sem número de publicações em andamento de diversos heróis em diversas editoras, notadamente DC e Marvel, mas seu trabalho em graphic novels fechadas sempre foi superior.

Apesar disso, o arco Silêncio (Hush), publicada na revista mensal Batman, entre os números #608 e 619, é normalmente reconhecida como um de seus melhores trabalhos, além de uma das melhores histórias de Batman. Tenho para mim, porém, que essa aclamação toda se deve muito mais à impressionante arte de Jim Lee do que pela história em si.

Basicamente, Silêncio é um whodunit escrito com muita enrolação ao longo de 12 edições que funcionam como uma espécie de antologia da vida de Batman, em que ele enfrenta uma galeria de seus maiores vilões – Killer Croc, Hera Venenosa, Harley Quinn, Coringa, Charada, Duas Caras, Ra’s Al Ghul, Lady Shiva, Espantalho e Cara de Barro – além de lidar com seu grande amigo/inimigo Superman (mais uma luta entre os dois!) e com a ex-ladra Mulher Gato, com quem passa a ter um caso um tanto quanto apressado. Nesse processo, claro, não faltam Jim Gordon, Talia Head (filha de Ra’s), Asa Noturna, Robin (Tim Drake), Caçadora e mais um divertido passeio visual pelo passado do herói, com direito, até, ao Batmóvel usado na série dos anos 60 (está lá sim, na Batcaverna, é só procurar).

Falando em passado, Loeb tem mérito em homenagear toda a carreira do Homem Morcego ao não só inserir pequenos easter eggs como o mencionado Batmóvel, mas também ao escrever o texto de maneira anacrônica, como quando faz Batman mencionar até sua corda de “batcorda” e repetindo situações como a clássica sequência setentista em que Ra’s Al Ghul enfrenta Batman no deserto com espadas. E Jim Lee, nessa mesma esteira, faz de tudo para trabalhar a iconografia do morcego até na luz do farol do Batmóvel. Chega a ser divertido de tão propositalmente ridículo que é.

O que não funciona é a estrutura de publicação normal – em oposição a uma estrutura de graphic novel – em que o leitor é obrigado a passar por “cenas do capítulo anterior” a cada número. Dá nos nervos. E dá nos nervos também a necessidade que Loeb sente de fazer com que Batman explique quem são seus inimigos, quase como se fosse uma leitura de ficha criminal de cada um deles.

Em termo de trama, o whodunit é muito simples: uma misteriosa figura com bandagem no rosto e sobretudo manipula os vilões e amigos de Batman em uma intricadíssima história que faz o Homem Morcego revisitar seu passado e, por conseguinte, seus piores pesadelos. E Loeb começa a ação logo acelerando, com Batman tentando salvar um menino sequestrado por um monstruoso Killer Croc. Depois de muita pancadaria, a Mulher Gato furta o dinheiro do resgate e, na perseguição, a “batcorda” de Batman arrebenta e ele cai, sendo salvo pela Caçadora. Mas suas feridas são graves e ele precisa de um médico. Entra, então, Tommy Elliot, o único amigo de infância de Bruce Wayne, hoje cirurgião especialista em operações no cérebro. Se você antes nunca havia ouvido falar nele, é porque Loeb o criou para essa história e, ao longo da narrativa, com belos flashbacks pintados vemos um retcon acontecer, com Elliot sendo inserido na vida do pequeno Bruce a cada passo.

Retcons funcionam quando são bem pensados. Esse parece um “elefante em uma loja de louça”. Sério? Um amigo de infância que opera o cérebro de Bruce Wayne (que, diga-se de passagem, no dia seguinte, já sai caçando bandidos como Batman) e que aparentemente só tem como função encher as páginas da publicação? E sério que ele morre no meio da narrativa aparentemente pelas mãos do Coringa, somente para levar Batman novamente à loucura e a racionalizar (pela vigésima vez) que deve matar o Palhaço do Crime sendo impedido por Jim Gordon que literalmente aparece do nada para impedi-lo? Qualquer leitor de quadrinhos de meia-tigela e que tiver QI acima de 50 perceberá o que Loeb está fazendo e, com isso, ele completamente mata seu whodunit nas primeiras páginas, afogando o mistério em um monte de complicações desnecessárias e irritantes, que só servem mesmo para expor o talento de Jim Lee na arte e, no final, mesmo assim fazer a revelação que fica dolorosamente óbvia no começo.

Falando em Jim Lee, apesar de seu trabalho aqui ser mesmo de tirar o fôlego, com imagens icônicas de Batman e sua turma que fizeram a alegria dos fãs, fato é que todo mundo se parece. Os rostos dos homens – até de Alfred – são angulares e belos. As mulheres são todas, até Lois Lane (em um participação ridícula), extremamente (ênfase no extremamente) voluptuosas, sempre com a “câmera” em ângulo que permita uma observação perfeita, em uma espécie de arte fetiche que funcionaria muito melhor em uma obra de Milo Manara. Mas o detalhamento do trabalho de Lee não fica diminuído por esses comentários. Ele está lá em toda sua glória, com splash pages poderosas, inesquecíveis, além de excelentes e atléticas lutas, que fazem perfeito aproveitamento do espaço.

Mas é aquela velha história: é bonito e tal, mas cansa. Loeb repete tanto as situações, seguindo a estrutura de um vilão por número, que lá pelo oitavo ou nono o leitor já fica saturado, especialmente lendo direto, como se fosse (mas não é!) uma graphic novel. Silêncio teria se beneficiado de economia de viravoltas e histórias paralelas inúteis, além de uma trama mais engajante e menos óbvia (sei que depois essa trama sofreria também um retcon, mas estou analisando somente Silêncio como uma história auto-contida).

Batman: Silêncio (Batman: Hush, EUA – dezembro de 2002 a setembro de 2003)
contendo Batman (vol. 1) #608 a #619
Roteiro: Jeph Loeb
Arte: Jim Lee
Cores: Alex Sinclair
Editora (nos EUA): DC Comics
Editora (no Brasil): Panini Comics (Edição Definitiva em capa dura – 2006)
Páginas: 285

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.