Crítica | Batman: Veneno

estrelas 4

Venom, arco da revista Lendas do Cavaleiro das Trevas introduz a droga que posteriormente seria utilizada por Bane em Knightfall. Embora comece na edição #16, a história não requer nenhum conhecimento prévio, podendo ser lida por completos leigos quando se trata do universo do Homem-morcego. Escrito por Denny O’Neil, trata-se de uma abordagem bastante humana do personagem.

Após falhar em salvar a vida de uma garotinha, Bruce começa a se culpar pela sua falta de força física – um limite que nem mesmo ele pode ultrapassar. Oportunamente, contudo, o cientista Randolph Porter, pai da menina recentemente falecida, oferece ao herói uma pílula que, supostamente, irá aumentar sua força física. A partir deste ponto, acompanhamos Batman, aos poucos, entrando em um vício pela droga, que, ao mesmo tempo, o deixa mais violento.

A transformação do personagem é conduzida de forma dinâmica e natural pelo roteiro perfeitamente em harmonia com os traços de Russel Braun, que consegue garantir um tom sombrio à história mesmo diante das cores mais vivas dos quadrinhos da época. A seriedade de Wayne aos poucos decai em uma personalidade praticamente homicida, deixada clara pelas suas risadas histéricas, descontroladas. A mudança gradual do Morcego também é trabalhada nas relações com as pessoas mais próximas, como Jim Gordon e, especialmente, Alfred Pennyworth, que acompanha Bruce durante todo o processo.

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O texto possui, sim, suas falhas – em especial quando se trata da progressão dos vilões, exibindo inúmeros furos e trechos que sequer fazem sentido. Estes, contudo, são poucos e quase que completamente ocultados pela memorável retratação dada ao herói. Vemos um Batman incrivelmente fragilizado, que nos leva ao ponto alto da história, na edição #18, organicamente conduzido através de bem inseridas elipses temporais.

Chegamos, então, a uma grande qualidade do arco: o equilíbrio entre texto e imagem. Venom consegue nos transmitir com exatidão sua trama, sem a necessidade de textos extensos ou ações esmiuçadas em seus quadros. O’Neil introduz diálogos relevantes e poucos balões de narração, garantindo uma fluidez à obra. Enquanto que Braun nos entrega quadros precisos que cumprem seu papel sem pecar pelo excesso ou falta. O trabalho conjunto de ambos permite um ideal balanceamento entre a ação e investigação presentes nos quadrinhos do Homem-morcego.

Venom é um inesquecível arco do Morcego que consegue manter seu leitor na tensão durante todas as suas páginas. Nele vemos o herói no auge de sua fragilidade, nos forçando a enxergar que, mesmo com a máscara, ele continua sendo um simples homem. Seu roteiro, embora apresente algumas falhas, não deixa a desejar, trazendo uma história bem conduzida e fechada, que constitui uma perfeita harmonia com a arte de cada quadro. Definitivamente uma leitura obrigatória para qualquer apreciador de Batman.

Batman: Venom [Lendas do Cavaleiro das Trevas #16 a 20] – EUA, 1989 – 1990
Roteiro: Dennis O’Neil
Arte: Russel Braun
Arte-final: José Luiz Garcia-Lopéz
Cores: Steve Oliff
Editora: DC Comics
Páginas: 30 (cada número)

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.