Crítica | Batman Versus Predador

Além de expandir exponencialmente a mitologia dos Predadores com HQs próprias a partir da minissérie Concrete Jungle, de 1989, a Dark Horse Comics esmerou-se em colocar os alienígenas caçadores em crossovers variadíssimos, começando, claro, com Aliens vs Predador, de 1990, já que a editora era licenciada das duas propriedades da Fox. O primeiro embate inter-editoras e o segundo crossover com o Predador foi logo em 1991, que colocava o monstro com ninguém menos do que o Batman, em plena Gotham City, no que seria o primeiro confronto de um total de três dessa natureza em publicações dedicadas.

O roteiro de Dave Gibbons é como deveria ser: simples, sem invencionices. Ele coloca um Predador caçando os troféus humanos que ele considera como mais valiosos da cidade, começando por um recém-vitorioso campeão de boxe e, daí, partindo para os chefões do submundo e quem mais oferecer resistência. Claro que, nesse meio, Batman envolve-se como o grande desafio do caçador intergalático. Se a simplicidade dá espaço para a criatura retalhar, chacinar e arrancar o crânio e a espinha dorsal de suas vítimas, sem qualquer economia de gore, por outro lado ela quase não justifica as três edições que compõe a minissérie.

Gibbons, para conseguir preencher o “espaço”, é obrigado a recorrer a um expediente extremamente batido e para lá de conveniente, que é tirar Batman completamente da equação depois do primeiro embate corporal dele com a criatura invisível de sangue fosforescente. Uma edição inteira coloca Batman apenas nos bastidores, literalmente como uma múmia, recuperando-se da pancadaria aos cuidados de seu fiel mordomo Alfred. É como um interlúdio que, infelizmente, é usado para descaracterizar Jim Gordon de maneira até aviltante, tamanha é a dependência que ele demonstra ter do Batman e sua completa incompetência para lidar com a crise (e isso sem contar que ele é o único personagem que, mesmo sendo atacado pelo Predador, sobrevive quase intacto).

As capas originais.

Quando Batman volta, Gibbons pega emprestado a ideia de Frank Miller e o coloca em uma armadura anti-Predador. No entanto, respeitando a mitologia do alienígena, mesmo assim não é fácil derrotá-lo e a luta que se segue é longa, difícil e destruidora, com Batman realmente tendo que recorrer a todos os truques de seu cinto de utilidades.

Se Batman Versus Predador tem um roteiro eficiente em sua simplicidade, o mesmo não se pode dizer da arte de Adam Kubert. Na verdade, deixe-me qualificar: a arte em si não é o problema, mas sim o comando de Kubert da progressão narrativa. Afinal, o desenhista consegue trabalhar muito bem uma atmosfera suja e doentia para a Gotham sob o jugo do Predador, algo que as cores de Sherilyn van Valkenburgh, tendendo para o sépia, cinza e preto, amplifica maravilhosamente bem, emulando a atmosfera de Batman: Ano Um e outras histórias do Morcegão passadas nesse início de carreira. Além disso, o Predador de Kubert é imponente e reminiscente daquele que vemos no filme original, com um Batman igualmente bem trabalhado.

O problema da arte reside mesmo em sua fluidez. Considerando a simplicidade narrativa, posso dizer sem errar que esse foi um dos trabalhos artísticos da Nona Arte mais confusos com que já me deparei, com diversos momentos em que tive que reler para entender a lógica e o “caminho” a ser seguido e outras vezes que simplesmente tive que aceitar que não dava mesmo para entender e “bola para frente”. Usando quadros que se interpenetram e raramente abrindo espaço para expandir sua arte em momentos potencialmente épicos, Kubert faz gato e sapato do pouco texto de Gibbons, quase que soltando-o aleatoriamente em cima de sua arte a ponto de nem sempre haver uma conexão direta entre uma coisa e outra. Foi uma experiência frustrante – e particularmente demorada – ler as pouco mais de 100 páginas da minissérie.

Batman Versus Predador era um crossover lógico para a Dark Horse Comics. O maior detetive dos quadrinhos contra o maior caçador do cinema. Não tinha como dar errado. E realmente não deu, por pouco, mas a minissérie é um caso claro de potencial desperdiçado por uma arte que confunde e irrita mais do que deslumbra.

Batman Versus Predador (Batman Versus Predator, EUA – 1991/2)
Contendo: Batman Versus Predador #1 a 3
Roteiro: Dave Gibbons
Arte: Adam Kubert
Arte-final: Adam Kubert
Cores: Sherilyn van Valkenburgh
Capas: Adam Kubert
Editoria: Diana Schutz, Dennis O’Neil
Editora original: Dark Horse Comics, DC Comics
Data original de publicação: dezembro de 1991 a fevereiro de 1992
Editora no Brasil: Editora Abril (três edições), Mythos Editora (duas edições)
Data original de publicação: agosto e setembro de 1992 (Abril), outubro e novembro de 2002 (Mythos)
Páginas: 104

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.