Crítica | Batman vs Superman: A Origem da Justiça (Sem Spoilers)

estrelas 3

Obs: Leia nossa crítica  COM SPOILERS, aqui.

Quando a Marvel Studios lançou o aguardado filme dos Vingadores em 2012, ficava a constatação de que o cinema de quadrinhos precisaria apostar em grandes universos cinematográficos para se manter vivo. Aliás, não apenas quadrinhos, mas blockbusters em geral: da nova franquia de Star Wars iniciada pela Disney e até mesmo o vindouro reboot de Os Caça-Fantasmas, tudo precisa ser realizado visando um quadro maior. O que nos traz, enfim, à aurora do Universo Cinematográfico da DC Comics.

O Homem de Aço não foi feito com a intenção de iniciar uma grande safra de produções dos heróis da DC, mas rapidamente o cenário mudou quando a continuação da reivenção do Superman transformou-se em Batman vs Superman: A Origem da Justiça, filme que enfim reuniria os dois maiores ícones dos quadrinhos de super-heróis de todos os tempos, além de introduzir apropriadamente as peças de seu quadro geral. Infelizmente, o maior embate de gladiadores da História acaba embolado em suas ambições megalomaníacas.

Assinada pelo irregular David Goyer e revisada pelo ótimo Chris Terrio, a trama começa 18 meses após a Batalha de Metrópolis, com o mundo dividido em relação às ações de Superman (Henry Cavill): uns os veem como um salvador, enquanto outros o enxergam como uma força destrutiva que deve ser impedida. Uma dessas pessoas, claro, é um soturno e experiente Bruce Wayne (Ben Affleck), que usa sua identidade de Batman para investigar o alienígena e encontrar uma forma de neutralizá-lo. Nesse cenário, o milionário excêntrico Lex Luthor (Jesse Eisenberg) rapidamente enxerga aí uma forma de fazer com que os dois heróis batalhem entre si.

Esse é apenas o miolo central, já que a densa trama ainda se preocupa em introduzir a Mulher-Maravilha de Gal Gadot e o restante dos integrantes da vindoura Liga da Justiça, aprofundar-se nas relações entre Clark Kent e Lois Lane (Amy Adams), Bruce Wayne e seu leal mordomo Alfred Pennyworth (Jeremy Irons) e uma subtrama excessivamente longa envolvendo uma balística após uma operação fraudulenta no deserto.

Com uma projeção de 153 minutos, não é de se espantar que a experiência seja inchada e embolada, mas o grande problema reside mesmo na distribuição. A montagem de David Brenner certamente merece grande parcela da culpa, já que temos uma linha narrativa torta e problemática, sendo incapaz de construir tensão ou antecipação. Tome por exemplo um momento em que Batman enfim coloca a armadura high tech para enfrentar o Superman pela primeira vez: vemos enquanto este liga o bat-sinal e aguarda na chuva a chegada de seu oponente… Apenas para cortarmos para outras duas subtramas envolvendo Lex Luthor e que deixam o coitado do Morcego esperando na chuva por uns bons 10 minutos. A justificativa para o embate dos dois também é defeituosa, ainda mais pelo motivo apressado e clichê que coloca o Homem de Aço na disputa – todo o plano mirabolante de Lex Luthor é um festival de furos e nonsense.

Curto e grosso, não há uma estrutura bem definida, nem um esqueleto que sustente com força os diversos blocos de história, passando a desagradável impressão de desconectividade entre muitas cenas.

E como diretor de ação, Zack Snyder sabe o que faz. Acerta ao trazer um Batman mais violento e brutal do que aquele visto na trilogia de Christopher Nolan e também por aumentar a escala da produção: viajamos por diversos ambientes, países e realidades, tudo bem captado pela fotografia radiante de Larry Fong, que mantém o granulado cru visto em O Homem de Aço, mas acrescenta mais cor e a tecnologia IMAX para suas sequências mais empolgantes; o pesadelo do Morcego em um mundo pós-apocalíptico é de longe o mais fascinante, ainda mais por nos presentear com um plano sequência muito eficaz.

 Porém, Snyder é muito dependente de efeitos visuais. É impossível não torcer o nariz na aparição de um boneco digital do Batman ou um Batmóvel CGI quebrando todas as leis da física em uma amalucada perseguição, especialmente depois de todo o realismo estético pregado por Christopher Nolan em seus três filmes, onde tombou caminhões e pendurou aviões de verdade a fim de mergulhar o espectador em um universo verossímil. Com Snyder, é uma cansativa ode ao exagero, ao espetáculo de bonecos digitais se chocando incansavelmente. Até em cenas mais simples, como no encontro entre Luthor e a senadora Finch (Holly Hunter), Snyder pesa a mão e é incapaz de construir uma tensão de forma sutil, desperdiçando o bom diálogo de “os capas vermelhas estão chegando” ou a revelação de um sinistro quadro.

Novamente, O Homem de Aço foi duramente criticado pela exageração da destruição da cidade no confronto final, e Batman vs Superman inteligentemente usa dessa tragédia para iniciar sua história. Mas tudo se perde quando, no clímax, Batman tem a brilhante ideia de atrair uma força bruta de destruição de volta para a cidade…

Não que seja um desastre. Ao contrário da reação inicial de praticamente toda a internet, Ben Affleck revela-se um excelente Bruce Wayne, pela postura mais rígida e o nítido peso da idade que vai chegando. O lado mais sombrio de sua persona, quando percebemos que deseja a destruição de Superman, também são fascinantes de se observar. Do outro lado, Henry Cavill continua mostrando carisma genuíno na pele de seu super-herói kryptoniano, mas infelizmente não temos uma evolução nítida de caráter do personagem aqui.

Quem rouba mesmo o show são os dois novos personagens principais. Primeiro, outro ator que contraria as expectativas negativas é Jesse Eisenberg como Lex Luthor. Mais jovem, malandro, nerd e com uma cabeça cheia de cabelo, Lex é um reflexo do jovem milionário, dos empresários da geração Steve Jobs e Mark Zuckerberg, algo que o design de produção de Patrick Tatopoulos retrata muito bem em seu escritório moderno e jovial. Eisenberg acerta por utilizar seus maneirismos típicos, como a fala rápida e o desconforto de situações sociais em uma construção psicótica e divertida de se observar.

A outra, claro, é a Mulher-Maravilha de Gal Gadot. Uma presença sempre misteriosa antes de enfim se revelar, Gadot se sai bem e acaba roubando a cena quando sua persona Amazona enfim sai à luta. Valem créditos ao excepcional trabalho de Michael Wilkinson com seu figurino modernizado (aliás, Wilkinson merece aplausos por todo o seu trabalho de vestimentas neste filme) e o tema musical memorável de Hans Zimmer e Junkie XL.

São bons elementos, mas que infelizmente não são capazes de sustentar sozinhos toda a experiência frustrante de A Origem da Justiça. Seja pelo inchaço de personagens e a péssima distribuição de suas linhas narrativas, o filme não deixa de ser uma grande decepção, mas deve agradar aos fãs mais fervorosos dos quadrinhos.

Mas fica a esperança de que, em seus filmes isolados, esses ótimos personagens sejam melhores explorados. Até lá, ainda teremos que ver como essa interação de universos vai funcionar.

Sinceramente? Saudades dos tempos mais simples de histórias isoladas.

Batman vs Superman: A Origem da Justiça (Batman v Superman: Dawn of Justice, EUA – 2016)

Direção: Zack Snyder
Roteiro: David Goyer e Chris Terrio
Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Jesse Eisenberg, Gal Gadot, Holly Hunter, Jeremy Irons, Scoot McNairy, Diane Lane, Laurence Fishburne, Tao Okamoto
Duração: 153 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.