Crítica | Batman/Superman: Fim de Jogo / Worlds’ Finest: Poderosa & Caçadora: Primeiro Contato

estrelas 3,5

Spoilers!

[CROSSOVER]

Antes de começarmos a falar de fato sobre este arco, é importante comentar sobre suas bases fundamentais. Como deixei claro acima — e também no título do texto — trata-se de um crossover entre as revistas Batman/Superman (edições #5 a 9, arco Fim de Jogo) e Worlds’ Finest (edições #18 a 21, arco Primeiro Contato), protagonizada pela Poderosa e pela Caçadora da Terra 2. Como o modelo pede, a trama será analisada em conjunto, a partir daquilo que pretende mostrar. Minha sequência de análise será a partir de elementos próprios das duas revistas que se unem para gerar uma determinada situação mais à frente. Dito isto, vamos a um pequeno resumo.

  • Worlds’ Finest: Poderosa & Caçadora — na Terra 2 elas eram Robin e Supergirl. Mas elas estão na nossa Terra, tentando fazer suas vidas funcionarem e quem sabe, em breve (?) voltarem para casa. Então elas encontram o Batman e o Superman desta Terra. E eis o arco Primeiro Contato.
  • Batman/Superman: no arco Mundos Cruzados eles se conheceram, tanto no nosso mundo quanto na Terra 2. Um encontro com um resultado final ainda em aberto e que neste Fim de Jogo também se faz presente, ao menos de forma indireta.

Worlds'_Finest_Vol_1_19Em Fim de Jogo Greg Pak nos mostra uma história cujo início é completamente desligado daquilo que vemos no arco anterior. Surge pela primeira vez o jovem empreendedor, inventor e gamer Hiro Okamura (Toymaster / Mestre dos Brinquedos) e seu primeiro teste de um jogo hiper-realista que não termina da forma como ele e seus amigos testadores esperavam. Pak consegue se livrar de uma apresentação potencialmente chata de um novo arco — isso porque como já dissemos, no início, a história é isolada de Mundos Cruzados — e assume a metalinguagem, expondo clichês de roteiros de super-heróis nos diálogos de Hiro, ao mesmo tempo que se utiliza de uma realidade muito bacana para ser trazida para as HQs: o mundo dos games.

Certa confusão sobre os papeis de Batman e Superman paira sobre as primeiras páginas da edição #5 (Game Over), mas em pouco tempo os temores, alfinetadas e clara visão do que um herói pensa a respeito do outro é exposta e tudo entra nos trilhos. Para este momento, a arte de Brett Booth e finalização de Norm Rapmund representa um bom papel, porque é limpa, com forte mão do digital na parte final do desenho, dando suporte ao mundo dos jogos e ao vilão que Batman enfrente no lugar do Superman, no início. A posterior entrada de  Jae Lee (nas edições #8 a 9) impactam o leitor pela sempre alta qualidade e interessantíssima dinâmica de luta, algo que, convenhamos, não é muito o forte dele.

Batman_Superman_Vol_1_8_Primeiro ContatoNesse meio tempo, temos na Worlds’ Finest uma sequência muito mais fluída, simpática e interessante de eventos, que curiosamente também coloca uma humana e uma kryptoniana como amigas e lutando para um bem comum. Sabemos então do descontrole de Kara em relação aos seus poderes e acompanhamos um pouco da dinâmica cotidiana dela com Helena Wayne (filha do Batman com a Mulher-Gato da Terra 2), a Caçadora. A arte de Scott McDaniel e R.B. Silva, com finalização de Joe Weems dá uma aparência exótica para a cidade, com traços grossos de nanquim, forte delineação das linhas faciais das heroínas e representação de uma cidade que nos parece convidativa e ao mesmo tempo ameaçadora, como se algo ruim se escondesse a cada esquina — e no meio do arco descobrimos que esconde mesmo –, efeito completado pela precisa coloração de Jason Wright, especialmente para as cenas noturnas.

Com o fechamento do arco dos games (Mogul, o vilão da vez, é bastante patético, mas diverte), o mundo do morcego e do alien se mistura com o das literalmente extraterrestres Helena e Kara. Eu me perguntei o por quê Bruce ou o próprio Clark não haviam identificado a presença delas na Terra até o momento e nem a história nos coloca isso de maneira clara. Fica subtendido que o fato dessas versões dos heróis ser mais novas que a de seus dublês da Terra 2 (e mesmo assim há uma certa diferença de idade aqui, pois Bruce é mais velho que Clark) faz com que sejam mais descuidados em identificar “invasores”. O argumento é frágil mas não é algo assim tão relevante, além de configurar um elemento sobre o qual vários leitores conseguirão encontrar justificativas para cobrir. De todo modo, não é o fim do mundo.

Batman_Superman_Vol_1_9As várias frentes de ação aqui são muito interessantes porque deixam a mente do leitor tentando resolver diversos mistérios ao mesmo tempo e com modulações de texto e arte bem distintas. Mesmo torcendo o nariz para esse tipo de crossover forçado que a DC nos enfiou goela abaixo, devo admitir que passar pelo universo das heroínas e acompanhar o cruzamento de seu drama com a corrente “aminimizade” Bat-Super foi divertido e acendeu a curiosidade para ler Worlds’ Finest: Poderosa & Caçadora.

Não há também o que reclamar da elaboração de sequência narrativa entre as duas revistas. Apesar da equipe criativa ser diferente (se bem que Greg Pak divide os créditos de roteiro com Paul Levitz na edição #21 de Worlds’ Finest), a trama funciona sem maiores problemas. Por outro lado, há uma grande perda de tempo na pequena novela emocional entre Kara e Helena sobre voltar ou não para a Terra 2; sobre os mistérios relacionados ao Superman, que aparece no final e sobre o papel inicialmente aceitável e depois chateante de Kaizen Gamorra na história toda. A mistura de dúvida e anti-clímax do desfecho também nos decepciona um pouco, no entanto, nada que vá inutilizar por completo o crossover.

Fim de Jogo e Primeiro Contato serviram para apresentar personagens, fazer com que outros já apresentados se encontrassem e trabalhassem juntos e, principalmente, deflagrasse a dúvida e a série de desconfianças entre o Batman e o Superman dessa Terra, com flashes do evento da Terra 2 ocorrido em Mundos Cruzados. Se começa desconexo, o arco termina fazendo jus ao seu universo e, no frigir dos ovos, consegue um resultado final bem acima da média, considerando que a história se desenvolveu em revistas diferentes e que temos basicamente um prelúdio preparador, um grande evento e uma ‘não-conclusão’ em paralelo. Podia ser melhor, mas certamente não foi uma história ruim.

Batman/Superman #5 a 9: Fim de Jogo (Batman/Superman New 52: Game Over #5-9), EUA, 2014
Roteiro: Greg Pak
Arte: Brett Booth (#5 a 7), Jae Lee (#8 e 9)
Arte-final: Norm Rapmund (#5 a 7), Jae Lee (#8 a 9)
Cores: Andrew Dalhouse  (#5 a 7), June Chung (#8 e 9)
Letras: Rob Leigh (#5 a 7), Dezi Sienty, Carlos M. Mangual (#8), DC Lettering (#9)
Capas: Brett Booth, Norm Rapmund, Andrew Dalhouse, Jae Lee, June Chung
24 páginas (cada edição)

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Worlds’ Finest: Poderosa & Caçadora – Primeira Contato (New 52 – Worlds’ Finest Vol.1 #18 – 21) – EUA, 2014
Roteiro: Paul Levitz / e Greg Pak (#21)
Arte: Scott McDaniel, R.B. Silva
Arte-final: Joe Weems / e Norm Rapmund (#21)
Cores: Jason Wright
Letras: Carlos M. Mangual
Capas: Emanuela Lupacchino, Jason Wright, R.B. Silva
24 páginas (cada edição)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.