Crítica | Battlestar Galactica (A Série Original Completa)

Escrevo a presente crítica com um sorriso no rosto, relembrando vividamente os 24 episódios que acabei de assistir pela enésima vez, depois de muito tempo desde que Galactica: Astronave de Combate, como era seu título no Brasil (decidi manter o original em inglês, por uma questão de homogeneidade, já que o reboot assim o fez), cavou profundamente um aconchegante lugar fixo nas cavernas nostálgicas de meu cérebro ao longo de suas reprises na televisão aberta por aqui. Battlestar Galactica, série de TV da Universal Studios criada por Glen A. Larson primordialmente para surfar na fama estrondosa de Star Wars nos cinemas um pouco mais de um ano antes, apesar de ter sido acusada de plágio pela Fox em uma ação judicial que acabou em acordo não revelado, teve vida curta, sendo cancelada ao fim de apenas uma temporada, mas ela certamente foi mais do que uma “cópia” das aventuras de Luke Skywalker e companhia e serviu de ponta de lança para um revival do sci-fi na TV.

Larson começou sua carreira na televisão como compositor musical ainda na década de 50. Sua primeira oportunidade como roteirista veio em 1966, de forma esparsa, com a clássica série O Fugitivo, além de 12 O’Clock High, com seu primeiro trabalho fixo nessa cadeira vindo três anos depois em O Rei dos Ladrões em que também conseguiu garantir a posição de produtor. A partir daí, finalmente, ele passou a firmar-se como um dos grandes nomes da televisão de sua época, ajudando a desenvolver inclusive a icônica O Homem de Seis Milhões de Dólares. Com a febre sci-fi da segunda metade dos anos 70 fazendo com que os estúdios se movimentassem desesperadamente nessa direção narrativa, Larson aproveitou para desencavar seu projeto pessoal que, segundo ele, desenvolvera ao final da década anterior, intitulada Adam’s Ark (Arca de Adão), e garantiu orçamento de um milhão de dólares por episódio, valor sem precedentes na época.

Ganhando novo nome que, segundo dizem, precisava ter a palavra “star” para fazer a (in)devida conexão com Star Wars logo de cara, Battlestar Galactica nasceu como um filhote de Larson que, sendo membro da Igreja Mórmon, aproveitou para pontilhá-la de elementos de sua religião (as raízes egípcias, o êxodo, o planeta Kobol, um anagrama nada discreto de Kolob, o astro mais próximo do “Trono de Deus”, e também o foco no casamento “eterno” e no “casamento plural”, dentre outros),  além de beber muito fortemente das teorias trazidas à tona mais famosamente pelo suíço Erich von Däniken em Eram os Deuses Astronautas?, resultando em uma premissa inegavelmente fascinante. Afinal como resistir ao conceito de sobreviventes de um holocausto espacial, que destruiu as 12 Colônias (planetas) onde viviam, atravessando a galáxia para localizar a 13ª e mítica colônia humana, conhecida nos livros religiosos como a Terra? Perseguindo os colonos, temos uma raça de icônicos seres cibernéticos conhecidos como Cylons (ou Cilônios, em português da dublagem original) liderados pelo maligno Baltar, o humano responsável por trair seu povo.

A execução dessa ambiciosa premissa, porém, apesar do orçamento mais do que generoso, sofreu não só com a incapacidade da Universal de “vender” seu produto, praga que afetara muito fortemente a série original de Star Trek, mas também com o próprio escopo da aventura espacial, além da forma como que Larson primeiro imaginou estruturá-la, como uma série de longas-metragens e não de episódios em tamanho regulamentar de 45 minutos. Essa confusão em todas as frentes acabou por acelerar a queda da audiência e o cancelamento de uma série que prometia muito (e o reboot é a prova cabal disso). Mas, não adianta lamentar sobre o leite de derramado e sim tentar apreciar o que efetivamente chegou às telinhas: uma obra com sérios problemas, mas com muito coração e uma enorme força de vontade de todos os envolvidos, especialmente de um elenco azeitado que traz imediata identificação com o público, embalados em um pacote bonito e lustroso, daqueles de encher os olhos.

Se o altivo, ético, mas de certa forma frio Comandante Adama vivido por Lorne Greene captura de imediato a atenção por tomar a frente, no leme da astronave de combate Galáctica, a única nave de guerra sobrevivente do ataque no estilo “Cavalo de Troia” dos Cylons, que dizimas as 12 Colônicas, o êxodo dos sobreviventes em busca da terra prometida, são os valorosos pilotos dos caças Viper que realmente se conectam com o público. O primeiro deles, o Capitão Apollo, filho de Adama, carrega o jeitão de pai de família, inocente e de moral ilibada que contrasta com o jeito completamente cafajeste, mulherengo e irresponsável de seu melhor amigo, o  Tenente Starbuck, a versão da série de Han Solo, ainda que sem o finesse de Harrison Ford. Vividos, respectivamente, por Richard Hatch (que voltaria em outro papel no reboot) e Dirk Benedict (que, nos anos 80, viveria o Cara-de-Pau, em Esquadrão Classe-A, nada mais do que uma versão não espacial de Starbuck), os dois atores, por mais canastrões que sejam, entregam exatamente aquilo que se espera em seus papeis: carisma e magnetismo. Mas não podemos esquecer também do Tenente Boomer, vivido por Herb Jefferson Jr., fechando a trinca de ases que, mais tarde, seria quadra, com a adição da Tenente Sheba, vivida por Anne Lockhart, além do simpático Boxey de Noah Hathaway (o Atreyu, de A História Sem Fim), a bússola moral incorporada pelo Coronel Tigh (Terry Carter), segundo-em-comando na Galactica e os interesses amorosos “fixos” de Starbuck, as belas Athena (Maren Jensen), irmã de Apollo e Cassiopeia (Laurette Spang-McCook). Ah, e como esquecer do perturbador e desengonçado cachorrinho robótico Muffit II, de Boxey, vivido pelo chimpanzé Evolution, ou Evie para os  íntimos?

Claro que a vilania excessiva e caricata de John Colicos como Baltar – sempre com direito a iluminação vinda de baixo, forçando as sombras e multiplicando sua teatralidade hilária – e o trabalho de voz irretocável de Jonathan Harris (o Dr. Smith, de Perdidos no Espaço) como Lúcifer, o irônico ser cibernético com cabeça-de-ovo translúcida, lábios grossos e figurino espalhafatoso que serve de seu lacaio, também precisam ser mencionados, pois é o que dá o sabor e a face humana para o antagonismo robótico dos Cylons e suas armaduras cromadas e sempre extremamente polidas, refletindo mais luz do que as dos Cavaleiros da Távola Redonda em Excalibur.

Aliás, o design de produção é algo a ser aplaudido em Battlestar Galactica. Em uma penada só, a equipe concebeu naves icônicas, notadamente a Galactica (obviamente!), os caças Vipers e os caças Cylons, que, considerando o relativamente pouco tempo de tela que tiveram, ganharam o tipo de identificação automática que uma Entreprise ou Millenium Falcon gozam, além da própria forma cibernética dos Cylons, em suas versões prata e ouro (e com direito a espadas, porque claro, robôs precisam de espadas), além dos figurinos detalhados, variados e sobretudo lógicos (em sua hierarquia, para cada uma das patentes militares nas naves. E isso sem contar com a iconografia egípcia – que deixava meu lado nerd completamente em polvorosa a ponto de eu ter odiado sua eliminação no reboot – dos capacetes dos pilotos, reproduzindo as “coroas” dos faraós.

Para a época, os efeitos especiais eram inigualáveis na televisão e superiores a muitos filmes de orçamento mais modesto lançados nos cinemas. O uso de pinturas matte, de miniaturas e de sobreposições de imagens chegaram ao seu ponto alto nesta mídia exatamente com a série, que abriu espaço para outras como Buck Rogers (também de Larson, aliás) e Voyagers!, o que, mais para a frente, seria traduzido no revival de Star Trek na TV, com A Nova Geração, Histórias Maravilhosas e assim por diante. Claro que não são efeitos que se sustentem bem até hoje, com visíveis problemas na sobreposição de imagens, cenários que por muitas vezes deixam claro o quão falsos são e a repetição constante das mesmas sequências-padrão, como as de decolagem e pouso das Vipers, dogfights espaciais (que só variam a direção dos tiros) e explosões.

O grande problema mesmo da temporada única é que, por mais que Larson tentasse, ele simplesmente não tinha material para esticar sua duração por intermináveis 24 episódios. E olha que ele merece comenda por não simplesmente fazer uma série na base da “missão da semana”, como era a marca de praticamente tudo na TV americana da época. O criador soube costurar a história macro usando uma estrutura narrativa que seria mais amplamente utilizada na década de 90, com Arquivo X, intercalando episódios que impulsionam o cânone com episódios soltos. Mesmo assim, os problemas são evidentes, já começando com Saga of a Star World, o longa-metragem que funcionou como episódio piloto e que costurava três capítulos em “um só”. Se a sensacional premissa segura o espectador até mais ou menos a metade, o roteiro esgarçado torna a narrativa cansativa e dispersa, com o esgotamento completo sendo evitado exatamente pelo trabalho charmoso de seu elenco. Enquanto o episódio duplo seguinte, Lost Planet of the Gods amplifica a mitologia da série (mesmo que distraia o espectador com o uso bobo de imagens do Egito), sendo seguido de dois capítulos soltos, um obrigatório faroeste espacial e o outro uma trama envolvendo uma colônia penal em que os prisioneiros são descendentes dos criminosos originais, Gun on Ice Planet Zero é um quase insuportável retorno ao formato duplo para uma história que não mereceria nem 15 minutos de duração, com os pilotos tendo que destruir um canhão em um planeta gelado.

Em outras palavras, para cada episódio bom – não sensacional, vejam bem – Larson trazia outros que servem para fazer a curva de aproveitamento cair vertiginosamente, volta e meia voltando à mesma temática, como um segundo episódio de faroeste e outro tentando ser medieval. Se The Living Legend, que revela que a Pegasus, astronave de combate liderada pelo destemido Comandante Cain (o excelente Lloyd Bridges em participação especial), também sobreviveu ao holocausto, logo faz o espectador ficar feliz com os rumos da prosa, logo vem coisas como Fire in Space e War of the Gods que freiam o ímpeto narrativo até quase parar a história completamente. E isso sem contar com elementos narrativos trazidos para a série e completamente esquecidos no momento seguinte, dentro de um mesmo episódio. Sim, era uma outra época, uma outra forma de fazer televisão, mas o vazio dos roteiros se faz sentir com constância e os episódios caem em uma rotina que, aos poucos, desmantelam o interesse pelo conjunto, algo que nem mesmo o já laureado elenco e a excelente premissa conseguem salvar completamente.

Battlestar Galactica marcou época, gerou uma base de fãs que chegou a fazer piquete na frente da produtora, conseguindo uma “continuação” em 1980 e amplificou o interesse de todos por mais ficção científica na TV, abrindo as portas novamente para um prolífico futuro do gênero nas telinhas. De quebra, trabalhou uma premissa inesquecível com um elenco engajado e que, décadas depois, traria novamente muitos sorrisos no rosto de fãs de sci-fi de qualidade com seu improvável reboot. Mas isso fica para uma outra crítica!

Battlestar Galactica (Idem, EUA – 1978/9)
Data original de transmissão: 17 de setembro de 1978 a 29 de abril de 1979
Criação e showrunner: Glen A. Larson
Direção: Richard A. Colla, Christian I. Nyby II, Rod Holcomb, Alan J. Levi, Donald Bellisario, Vince Edwards, Daniel Haller, Winrich Kolbe
Roteiro: Glen A. Larson, Donald Bellisario, Herman Groves, John Ireland, Jr., Michael Sloan, Frank Lupo, Paul Playdon, Ken Pettus, Jim Carlson, Terrence McDonnell, David S. Arthur, David G. Phinney
Elenco: Lorne Greene, Lloyd Bridges, Richard Hatch, Rick Springfield, Dirk Benedict, Herb Jefferson Jr., Maren Jensen, Terry Carter, Jane Seymour, Noah Hathaway, Tony Swartz, David Greenan, Sarah Rush, Larry Manetti, Ed Begley, Jr., George Murdock, John Fink, Laurette Spang-McCook, Anne Lockhart, Jeff MacKay, Sheila DeWindt, Janet Louise Johnson, Janet Lynn Curtis, Frank Ashmore, W. K. Stratton, John Colicos, Patrick Macnee, Jonathan Harris, Edward Mulhare, Lance LeGault, Anthony De Longis, Robert Feero, Randolph Mantooth, Kelly Harmon, Lloyd Bochner
Duração: 1080 min. (24 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.