Crítica | “Beauty Behind the Madness” – The Weeknd

estrelas 4,5

Abel Tesfaye, ou The Weeknd, obteve a atenção da crítica musical ainda em seus primeiros trabalhos, os EPs House of Balloons, Thrusday e Echoes of Silence (que depois foram reunidos em uma compilação chamada Trilogy). As três extended plays, que misturam um som denso, sensual e que por vezes flerta com o experimental, foram aclamadas e fizeram com que Tesfaye marcasse presença na lista de artistas promissores, ou artists to watch – foi possível encontrar na internet até comparações com Michael Jackson. Logo depois, veio Kiss Land, seu primeiro álbum de estúdio, que não agradou crítica e público como os trabalhos anteriores, sendo considerado inferior de forma quase unânime.

Nos dois anos que se passaram, o cantor foi aparecendo cada vez mais na mídia, por conta de seus featurings de sucesso com grandes nomes da cena musical atual, como Drake, Wiz Khalifa e Ariana Grande. Foi então que The Weeknd começou a divulgar singles de seu novo trabalho, Beauty Behind the Madness, causando alvoroço e sucesso repentino, e que o lançaram, praticamente da noite para o dia, ao estrelato do mainstream, com milhões de exibições no Youtube e remixes de DJs famosos como Martin Garrix. A divulgação das canções The Hills e Can’t Feel My Face deixou muita gente loucamente ansiosa pelo novo trabalho do cantor – assim como eu.

Nos primeiros minutos de Beauty Behind the Madness, com um som distorcido semelhante a uma guitarra, uma batida certeira e sua voz caracterísitca que penetra nos ouvidos como uma flecha, The Weeknd já dá o tom de seu novo trabalho – denso (como sempre foi), melancólico, cheio de confidências e uma excelente produção. Real Life, a canção em questão, soa como uma simples introdução, mas já é cheia de segredos da vida pessoal do cantor, e também inclui conselhos de sua mãe e sua visão do que é a “vida real”. O piano que se segue em Losers dá continuidade à ótima primeira impressão que BBTM causa. Arranjos elegantes, versos fortes (“Só os perdedores vão para a escola/Eu aprendi a me virar”) e um featuring de Labirinth no tom perfeito fazem com que a canção seja uma experiência maravilhosa.

Tell Your Friends é o melhor momento de Beauty Behind the Madness. Contando com ninguém mais ninguém menos que Kanye West na composição e produção, a canção cheia de luxúria, drogas e vulgaridade é declamada por The Weeknd com a classe de quem lê um poema, enquanto um piano elegante o acompanha. Além disso, temos mais confidências de sua vida e um refrão poderoso, em que sua voz ecoa no exato momento em que os instrumentos somem – um êxtase musical incrível. Quem conhece o trabalho de Kanye sabe que ele imprimiu muito de sua identidade na faixa, fazendo com que ela lembre, inclusive, seu trabalho em conjunto com Jay-Z, Watch the Throne, mas claro, sem tirar nem um pouco da personalidade de The Weeknd.

A sessão de canções praticamente perfeitas continua com Often, outro grande momento do álbum, que mostra como a luxúria acompanha e afeta o cantor – e como ele gosta de falar sobre ela (algo que nunca escondeu). Extremamente sexy, direta e vulgar, a faixa hipnotiza pela força da sensualidade de sua batida: o beat acompanha um mini-drop que é simplesmente irresistível. As mesmas sensações podem ser sentidas com The Hills e sua carga sensual/dramática, na qual The Weeknd canta com gemidos e voz anestesiada; Acquainted e sua batida melancólica; e a maravilhosa Earned It (que faz parte da trilha sonora do filme Cinquenta Tons de Cinza), outro ponto (muito) alto de Beauty Behind the Madness.

Em Can’t Feel My Face, que já virou um dos hinos pop de 2015 – fato que prova que praticamente tudo que o superprodutor Max Martin toca vira ouro, visto o trabalho com artistas como Taylor Swift, Katy Perry, Pink e muitíssimos outros –, The Weeknd parece ter ciência de suas comparações com Michael Jackson e resolve incorporá-lo, com a direito a um gritinho agudo que pode lembrar e muito o Rei do Pop. Max também marca presença na produção de Shameless, canção que revela uma face mais romântica do cantor, mesmo que ainda use seu palavreado vulgar característico algumas vezes (ele faz parte da identidade da música de The Weeknd, e se incomoda alguém, ele faz questão de deixar claro que não se importa). Além disso, temos um épico solo de guitarra que casa muito bem com os vocais do rapaz, deixando a canção ainda mais impressionante.

Para firmar mais ainda o fato de que este é o trabalho que vai fazer Abel Tesfaye entrar para o mainstream de forma respeitosa, temos as canções Dark Times, com o inigualável Ed Sheeran e Prisoner, com a estonteante Lana Del Rey. Os dois cantores incorporam o espírito e a personalidade de The Weeknd e agregam muito para a coesão da experiência Beauty Behind the Madness, principalmente Lana e seus vocais hipnóticos.

BBTM é, sem dúvida, o trabalho mais coeso de The Weeknd; o mais acessível, polido, bem pensado – é um álbum de transição, divisor de águas. O cantor quer cantar sua história de vida, suas dificuldades, fantasias sexuais, aventuras e anseios e atingir tanto o mais ferrenho fã de hip-hop e R&B undergound quanto o admirador de boas canções pop mainstream. Com a loucura por trás da beleza, ele alcança esse objetivo com maestria.

Aumenta! Can’t Feel My Face
Diminui!
In the Night
Canção favorita:
Tell Your Friends

Beauty Behind The Madness
Artista:
The Weeknd
País: Estados Unidos
Lançamento: 28 de agosto de 2015
Gravadora: XO, Republic
Estilo:
R&B, Hip-hop, Pop

ANDRÉ DE OLIVEIRA . . . . Estudante de Letras e aspirante a jornalista. Ainda se impressiona com o fato de curtir, na mesma intensidade, do cult ao pop; do clássico ao contemporâneo; do canônico ao best-seller. Usa camisa do Arctic Monkeys — sua banda favorita —, mas nada impede que esteja tocando Nicki Minaj no fone de ouvido. Termina de ler Harry Potter e começa um Dostoévski. Assiste Psicose e depois dá play em Transformers. Não tente entender. @andreoliveeira