Crítica | “Bedtime Stories” – Madonna

Com Erotica, Madonna arriscou bastante. Foi uma das mais ousadas etapas da sua carreira. O jogo envolvendo desejos sexuais expostos e a libertação feminina foi tão intensificada que a sociedade estadunidense e seu poder de dispersão opiniática global tornaram a recepção do álbum uma efervescente discussão midiática sobre os limites e possibilidades do que deve ou não ser “falado” sobre o sexo e a pornografia. Era mais uma comprovação do falso puritanismo de uma sociedade que constantemente transforma coisas que todo mundo pratica na intimidade em tabus. Madonna, segundo muitas opiniões, havia ido longe demais. Como reverter o jogo?

A resposta não é tão complexa. Bastava produzir algo mais sutil e introspectivo, num jogo de mudanças radicais no que diz respeito aos investimentos musicais e imagéticos. A nova Madonna veio à tona em Bedtime Stories, sexto álbum da cantora, lançado em outubro de 1994, sob a direção do pop e do R&B e com produção de Dave Hall, Nefee Hooper, Dallas Austin e o especialista em baladas românticas, Babyface, o toque de suavidade que a carreira da atrevida artista tanto precisava.

Em seus 51 minutos e 50 segundos (a edição padrão), Bedtime Stories tratou de temas mais introspectivos. O amor ainda estava presente, mas numa perspectiva diferente, acompanhado do sexo, da melancolia e do romance, nenhum tema novo, mas todos mais delineados. Há também a forte presença do estilo new jack swing, estilo híbrido que mescla samples e técnicas oriundas da música urbana contemporânea, em especial, o hip hop.  A técnica é conhecida por seus vocais em harmonia, solos harmoniosos e batidas rítmicas produzidas por drum machines, uma caixa de ritmos eletrônica concebida para criar artificialmente sons de uma bateria.

Considerado pela crítica especializada da época como conceitual e “conto de fadas musical”, o álbum traz Bedtime Stories como single que nomeia o projeto. Composta por Bjork, Hooper e contribuição de Madonna, a canção trata das alegrias do mundo inconsciente, com estilo eletrônico guiado por batidas house, melodia synth e ressonâncias do trance, acompanhados de baterias, palmas e vocais sensualmente sussurrados. O tom surrealista deu o tom para a criação do famoso videoclipe. Secret, outro single, é uma das melhores canções. Assinada por Madonna, Dallas Austin e Shep Pettiboni, a faixa versa sobre uma enigmática relação guiada por um segredo que não é revelado, tendo como acompanhamento o som de violões e vocais adoçados, tranquilos e suaves.

Take a Bow, composta por Madonna e Babyface, em meu ponto de vista, revela o ponto mais alto do álbum, pois apesar da letra aparentemente simples, o arranjo musical é um dos melhores de toda a carreira da artista. Liricamente, a balada romântica versa sobre o amor não correspondido e a necessidade de dizer adeus quando não se é valorizado. Uma orquestra completa acompanha musicalmente o vocal bem encorpado de Madonna, com um trecho que faz referência ao texto dramatúrgico Como Gostais, de Shakespeare: “All the World is a stage and everyone has their part”, entoa a cantora, adornada por cordas pentatônicas orientais, geralmente utilizadas em óperas chinesas e japonesas e tons moderados de calypso, estilo afro-caribenho conhecido por sua construção harmônica simples, alegre e com ritmos sincopados.

Human Nature, single “atrevido” do álbum, composta por Madonna em parceria com Shaw McKenzie e Michael Dering é uma irônica resposta ao público pudico em relação ao seu trabalho anterior, tratado como uma ode ao pornográfico e à prostituição. Ao dizer “se expresse, não se reprima”, a cantora ironiza as suas ações na vida real e faz perguntas com vocais sarcásticos de fundo, alegando que não pede desculpas pelo que supostamente fez de errado. O álbum ainda traz as canções Survival, com sample de um famoso hit de Stevie Wonder; I’d Rather Be Your Lover, Don’t Stop, Inside of Me, Sanctuary, Love Tried To Welcome Me e Forbidden Love, belíssima balada produzida especificamente por Babyface e parte da coletânea Something to Remember.

Madonna cumpriu devidamente a missão de suavizar a sua imagem e mostrar novos caminhos para a sua carreira. Antes do badalado e premiado Ray of Light, de 1998, fruto de muita pesquisa no campo da música eletrônica, bem como experimentação que mesclava novas e velhas tendências, a artista se dedicou ao papel para o musical Evita, dirigido por Alan Parker, desempenho que lhe rendeu um merecido Globo de Ouro na categoria Melhor Atriz em Comédia ou Musical. Nessa época Madonna investiu em aulas de canto para adequar ao estilo de voz necessária para o filme, uma questão preponderante para a configuração mais adensada dos seus vocais nos álbuns posteriores. Logo mais, a maternidade e com isso, um novo nível de maturidade profissional, algo que será apontado nas críticas posteriores.

Aumenta: Take a Bow.
Diminui: Bedtime Stories.

Bedtime Stories
Artista: Madonna
País: Estados Unidos.
Elenco: 25 de outubro de 1994.
Gravadora: Warner Bros, Maverick, Sire.
Estilo: Pop e R&B.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.