Crítica | Beira-Mar (2015)

estrelas 2,5

A descoberta e a aceitação da sexualidade podem demorar a vir para alguns indivíduos, nesses casos, normalmente empenhados em cumprir um padrão social que não condiz exatamente com sua pulsão sexual. Ou às vezes não é esse o caso. Talvez, o indivíduo em questão, tem nesse processo de descobrimento a experimentação, o que é algo bastante comum em se tratando de sexualidade; onde confusões, indefinições ou tentativas de ver a coisa de uma forma diferente podem aparecer no meio do caminho… É basicamente sob essa premissa de descoberta e entendimento da própria sexualidade e libido que Beira-Mar (2015), o primeiro longa de ficção dos diretores Filipe Matzembacher e Marcio Reolon se debruça.

A história traz dois amigos, Martin e Tomaz, que viajam para o litoral gaúcho e passam um final de semana entre um compromisso familiar (da arte de Martin), conversas sobre amizade e curtição. Os rapazes são bastante diferentes, mas mantém uma amizade longeva, o que não impediu que se afastassem um pouco, algo é remediado pela [re]aproximação que há entre eles durante o tempo que passam no litoral. A postura de cada um, seus desejos e a forma como se expressam fazem do filme um misto de confissão jovem e reflexão sobre o prazer — não apenas o sexual, mas o de poder ficar em casa sem fazer nada muito agitado; gostar de desenhar; andar na praia ou mergulhar no mar em pleno inverno –, algo que infelizmente não é acompanhado como deveria pelo roteiro.

A premissa do longa é interessante mas sua execução peca pela ausência de diálogos — eu sou o tipo de espectador que aprecia muito o silêncio em um filme, mas ele deve ser funcional para a obra e não o mote narrativo para dizer algo que ficara claro nos primeiros 15 minutos: nenhum dos dois está plenamente confortável com o outro; há uma certa tensão ali… –, uma escolha dos diretores que torna personagens tão interessantes em jovens rasos, assim como a maior parte da história. O silêncio, que deveria aparecer de forma benéfica em momentos pontuais da fita, transforma-se no caminho para a falta de justificativas e até de menor exploração psicológica dos dois protagonistas, vividos pelos ótimos jovens atores, Maurício Barcellos e Mateus Almada.

É da falha do roteiro que vemos esquetes soltas e intimistas seguirem-se umas às outras, elemento que só se ajusta quando o texto, enfim, resolve dar voz ao desejo e coloca os dois personagens em uma encruzilhada. Até o momento da festa que termina com os pares em momentos íntimos, o espectador questiona a presença dos atores coadjuvantes, cujo único que tem alguma coisa a ver com o drama de identidade de Martin e Tomaz é Bento, pouco explorado, por sinal. A partir daí, a casa cheia faz algum sentido e o rumo da história passa a ter um significado maior, que é, tal como o roteiro até ali, minimizado pelo excesso de silêncio agora com a adição de sequências inúteis (verdade ou consequência; meninas dançando para os meninos).

Os acontecimentos seguintes entre Martin e Tomaz são cada vez mais interessantes e devo destacar a excelente conversa que os dois tem no sofá, quando falam mais abertamente sobre preferências e “como é” determinada coisa. Embora o público veja que fala linha no roteiro, a naturalidade e entrelaçamento entre os atores torna a sequência bela e dramaticamente louvável, com o melhor da atuação dos dois rapazes, assim como o melhor do texto em todo o filme. A proposta de Beira-Mar é enfim explicitada ali com um pouco de ternura, vontade e urgência. É um flerte disfarçado de amenidades. O ponto alto do filme.

O que se segue recebe um trabalho pouco interessante da direção, não possui boa montagem e torna o que deveria ser luxurioso algo indiferente para o público. Fica para o final a dúvida do futuro, mas a metáfora do mar utilizada pelos cineastas foi uma boa jogada, porque pede ajuda ao símbolo para ajudar o espectador a traçar um caminho para os amigos e não imaginá-lo apenas por um palpite qualquer. Beira-Mar é um filme bonitinho, com momentos muito bons, mas a estrutura do longa é reticente e silenciosa demais, o que nos impede de aproveitá-la justamente pelo que ela deveria ter de mais interessante: o conteúdo.

Beira-Mar (Brasil, 2015)
Direção: Filipe Matzembacher, Marcio Reolon
Roteiro: Filipe Matzembacher, Marcio Reolon
Elenco: Maurício Barcellos, Mateus Almada, Ariel Artur, Irene Brietzke, Elisa Brittes, Maitê Felistoffa, Francisco Gick, Fernando Hart, Danuta Zaguetto
Duração: 83 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.