Crítica | “Believe” – Cher

Cher é uma artista completa. No campo da música, já encantou milhares de pessoas com a sua voz rouca e sensual. No cinema e na TV, conseguiu emplacar sucessos respeitáveis, tais como Feitiço da Lua, Silkwood – O Preço de Uma Verdade, Marcas do Destino, dentre outros, numa carreira que lhe permitiu colecionar prêmios renomados da indústria. Em sua prateleira há as estatuetas do Oscar, Globo de Ouro, Emmy e um prêmio no Festival da Cannes. Quando lançou Believe, no final da década de 1990, Cher não precisava provar mais nada para ninguém, no entanto, comprovou que a sua carreira ainda era muito relevante. Tal como Madonna em Ray of Light, a artista experimentou algumas tecnologias no campo da música e entregou ao público um álbum cheio de vigor e energia.

Lançado em novembro de 1998, o 23º álbum de Cher perfaz seu percurso musical em 44 minutos, com produção de Mark Taylor, Todd Terry, Junior Vasquez, Brian Rawling e Rob Dickens, realizadores que buscaram elementos do pop-dance, house, pop latino e até do samba para delinear a jornada musical proposta pelo trabalho revigorante para a carreira da artista. Com uso de vocoder e autotune, o álbum se destacou por investir em algo que logo depois ficou conhecido por “efeito Cher”, isto é, uso extremo de sintetizadores na condução do canto de diversos artistas que copiaram a sua fórmula. Cabe ressaltar, entretanto, que a cantora não precisou do recurso para fazer o “canto andar”, pois ao flertar com o recurso, pretendia implementar elementos inovadores em sua produção. Quem conhece a carreira da artista sabe do seu potencial.

O ponto alto do álbum é o single Believe, hit que muita gente associa com o público homossexual, mas que atravessou outras searas de consumo. Equivalente ao clássico I Will Survive, de Gloria Gaynor, Believe reflete sobre a necessidade de sermos esperançosos quando os nossos sentimentos e desejos estão em jogo. A canção leva para o terreno pop as inseguranças da “modernidade líquida” e versa, através de vocais propositalmente robóticos, sobre o amor na contemporaneidade. É possível sobreviver ao término de um relacionamento? A faixa revitalizou a carreira de Cher e nos mostrou que a sua versatilidade no campo cultural ainda era algo relevante depois do hiato no cinema e nas produções fonográficas. Composta por Brian Higgins, Paul Barry, Matthew Gray, Steven Torch e Timothy Powell, Believe é um marco do final da década de 1990 e o bilhete de passagem para a Cher dos anos 2000.

Strong Enough, segundo single do álbum, oferta ao ouvinte arranjos com batidas do gênero house. Dançante e reflexiva, a faixa pode ser pensada como continuação de Believe. A canção, composta pela dupla formada por Mark Taylor e Paul Barry, teve videoclipe dirigido por Nigel Dick, com Cher representado um vírus de computador que se comunica com seu interlocutor, explicitando os motivos que levaram a sua namorada a finalizar o relacionamento.

Dov’e L’amore, terceiro single do álbum, traz elementos do pop latino, da música dance e do samba. Assinada por Paul Barry e Mark Taylor, compositores constantemente presentes na concepção do álbum, a canção traz Cher questionando mais uma vez sobre o tema que perfaz todo o percurso do trabalho musical desta produção: onde está o amor? Questiona. A música agradável se completa com o excelente videoclipe dirigido por Jamie O’Connor, repleto de imagens do imaginário latino e muita dança.

O álbum ainda nos brinda com as interessantes The Power, regravação de um antigo sucesso de Amy Grant, excelente na versão de Cher; We All Sleep Alone (uma faixa sobre amor e solidão, composta por Desmond Child e Jon Bon Jovi), Taxi Taxi (composta por Toddy Terry e Mark Jordan, fala sobre a necessidade de conduzir e de ser conduzida); Takin’ Back My Heart (faixa sobre alguém que se arrepende de ter entregado o seu amor a um cara não merecedor, assinada por Diane Warren); a básica Love is The Groove (composta por Betsy Cook e Bruce Wooley, a canção versa sobre a necessidade de buscarmos se reinventar depois de um relacionamento), dentre outras faixas que dialogam com o principal single do álbum, hit que ainda ecoa em muitas pistas de dança atualidade, com Cher e sua voz ímpar a nos questionar se “acreditamos em vida após o amor”.

Para o bem ou para o mal, o “efeito Cher” se tornou um vírus na música pop contemporânea, responsável por manter a carreira de diversos simulacros de artistas. O vocoder, utilizado no álbum, é um aparelho capaz de sintetizar a voz humana, oriundo do campo das telecomunicações. Utilizado originalmente em transmissões com fins de codificar a voz humana para transmissão telefônica, atualmente transformou-se numa muleta para artistas do quilate de “Britney Spears e suas associadas”. O seu uso, entretanto, não é uma prerrogativa de Cher, pois na década de 1970, Wendy Carlos, Robert Moog, Pink Floyd fizeram uso dos seus recursos, no intuito de experimentar em suas produções. No entanto, nada se compara ao que Cher fez em 1998, ao elevar o uso do recurso aos extremos, pelas motivações já explicitadas nesta análise. O autotune e a sua capacidade de afinar a voz do cantor e corrigir os seus defeitos e imperfeições também é outro recurso comumente associado ao álbum, possibilidade tecnológica no campo da música criado pela Antares Audio Technologies.

Como declama Gal Costa em Autotune Autoerótico, uma das melhores canções do álbum Recanto, brilhantemente produzido por Caetano Veloso, o “autotune não basta pra fazer o canto andar”. Ela tem razão. Cher já sabia disso, mas as genéricas da Cher e da Madonna, infelizmente, não. Indicado em três categorias ao Grammy (Gravação do Ano, Melhor Álbum Pop e Gravação Dance, esta última, para o single Believe), o álbum não fez história na festa da indústria, mas marcou gerações e ecoa até os dias atuais com toda a sua intensidade.

Aumenta: Believe.
Diminui (um pouco): Love is The Groove.

Believe 
Artista: Cher.
País: Estados Unidos.
Elenco: novembro de 1998.
Gravadora: Warner Music.
Artista: Dance pop, pop latino, samba.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.