Crítica | Belle e Sebastian (2013)

estrelas 3

Baseado nos personagens criados pela atriz e escritora francesa Cécile Aubry, Belle e Sebastian (2013) é mais um olhar europeu para a Segunda Guerra Mundial, desta vez, mesclando a infância de um garoto cigano que vive com seu avô adotivo nos Alpes franceses, um cão de montanha dos Pirineus, soldados alemães e partidários da Resistência Francesa. Belo, emocionante e com uma cativante fotografia, o longa toca o espectador pelo tom de fofura mas não deixa de decepcionar um pouco pelo seu problema de foco narrativo e sua montagem pouco elogiável.

Talvez a principal pergunta do espectador em dado momento do filme seja a seguinte: “do que se trata a obra?“. E acreditem, não se trata de uma pergunta despropositada. Com um roteiro escrito a seis mãos, Belle e Sebastian cai na armadilha das muitas histórias que aparentemente se conectam mas formam, dentro de seus próprios universos, pequenos blocos narrativos que confundem e decepcionam por sua concepção no todo da obra. Em um momento, assistimos a uma história sobre um garoto e seu avô que vive nas montanhas; em seguida, uma história sobre “a besta” que devora ovelhas; depois a história sobre a resistência francesa e dominação nazista na França; depois a história de uma família judia que será atravessada para a Suíça e também a história da relação entre o avô adotivo e o garoto Sébastien e a história do mesmo garoto e sua amiga Belle, a tal “besta que devorava ovelhas”.

Como o roteiro não consegue se decidir no que realmente focar, nós temos em tela pequenas crônicas, todas elas bem dirigidas e superficialmente entrelaçadas, mas que acabam atrapalhando a sessão porque desviam a atenção do espectador para algo cuja importância parece grandiosa em certo momento (vide a caçada à “besta”), mas que depois é abandonado sem nenhum pretexto, culminando em uma resolução automática e consequente esquecimento do que aconteceu antes.

Como a obra de Cécile Aubry possui essa característica de pequenos dramas emotivos, é de se imaginar que os roteiristas quiseram trazer essa dinâmica para o filme, transportando o cenário para a Segunda Guerra. O problema é que essa divisão interna não explora os personagens, cria e logo destrói atmosferas que poderiam alçar altos voos e deixa um rastro de reticências cujo resultado final é a parcial insatisfação do espectador.

A direção de Nicolas Vanier funciona bem em praticamente todo o longa, falhando apenas na ligação entre as partes do roteiro, um erro que figura ainda maior na montagem de Stéphanie Pedelacq e Raphaele Urtin (a cena em que Belle toma banho e deveria sair parcialmente limpa do rio é um exemplo dos erros bobos e inaceitáveis que os editores cometem ao longo do filme). Vanier também nos proporciona momentos de extrema beleza visual a partir de belas tomadas aéreas e panorâmicas no melhor estilo de documentários sobre natureza, transformando a paisagem em um personagem indispensável.

Com uma bela trilha de Armand Amar e a performance da rouca e atrativa voz de ZAZ para Belle (canção que no início do filme tem um inexplicável e desnecessário trecho cantado pelo ator mirim Félix Bossuet, cuja atuação no filme em resumo é boa, mas nos parece forçada nos momentos de maior emoção), Belle e Sebastian vale a sessão pelo calor da amizade que aborda e pelos dramas humanos envoltos em uma paisagem de tirar o fôlego. O filme é bonito, fofo, destaca-se especialmente na fotografia e na direção, mas não é inesquecível, embora tivesse todos os ingredientes para ser, não fosse a megalomania dos roteiristas em querer falar coisas demais, criar situações demais e não dar a devida e necessária atenção a elas.

* Curiosidade: a banda indie escocesa Belle and Sebastian tem o seu nome em homenagem à série de animação infantil produzida pela BBC que adaptava justamente esses personagens de Cécile Aubry, aqui retrabalhados por Nicolas Vanier.

Belle e Sebastian (Belle et Sébastien) — França, 2013
Direção: Nicolas Vanier
Roteiro: Nicolas Vanier, Juliette Sales, Fabien Suarez (baseado nos personagens de Cécile Aubry).
Elenco: Félix Bossuet, Tchéky Karyo, Margaux Châtelier, Dimitri Storoge, Andreas Pietschmann, Urbain Cancelier, Mehdi El Glaoui, Paloma Palma, Karine Adrover, Loïc Varraut, Jan Oliver Schroeder, Tom Sommerlatte
Duração: 104 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.